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#2 - Anatomia de um Sticker: do milagre europeu ao milagre de Berna.


«A Europa não se fará de uma só vez, nem de acordo com um plano único. Far-se-á através de realizações concretas que criarão, antes de mais, uma solidariedade de facto.»

Robert Schuman





9 De maio de 1950.

O ministro dos negócios estrangeiros francês à época, Robert Schuman, profere uma declaração na televisão francesa, onde apela à criação de uma comunidade supranacional europeia para gestão das reservas de carvão e aço.

Nesse dia faziam exactamente 5 anos (ou 5 anos e 1 dia consoante a localização geográfica), desde o chamado V-Day (Victory Day), dia da vitória aliada, que marcou a rendição alemã que entrou em vigor às 23h01 CET de 8 de maio de 1945 (9 de maio em fusos horários mais a leste), dando assim início ao final da 2ª Guerra Mundial.


Um confronto sangrento que tirou a vida a quase 90 milhões de pessoas.


Cinco anos depois, havia um clima de paz e de esperança num futuro próspero.

Os EUA, a braços com a criação de esferas de influência, numa incipiente Guerra Fria, bombeavam dinheiro através do plano Marshall para o ocidente europeu.

Viviam-se tempos de reconstrução, tempos em que as matérias primas escasseavam.


Os intuitos de Schuman não eram meramente humanistas. França precisava de carvão para colocar a sua indústria do aço a funcionar. E os depósitos na altura disponíveis, estavam na região do Rhur (não é à toa a alcunha de "mineiros" dada ao Schalke 04). Algo que poderia colocar (de novo) em fricção dois países que sempre estiveram de costas voltadas e precipitar a Europa para uma nova guerra.


Com o Reino Unido sem propensão continental europeia, coube à França trazer a Alemanha (RFA) para junto de si, colocando-a num plano igual (ao contrário do erro cometido em 1918 no final da 1ª Grande Guerra). A ideia, revolucionária à época (e que 70 anos depois, ainda parece "contranatura" dada o historial de conflito existente), seria "amarrar" a Alemanha numa estrutura supranacional europeia independente que facilitaria e estimularia a cooperação entre os demais participantes. Obter paz através de cooperação. Uma realidade à época não dada como garantida ou estável. Como que uma vertigem.



Talvez seja uma curiosa coincidência, mas exactamente 8 anos depois do discurso de Schuman, a 9 de maio de 1958, estreava em San Francisco, uma das obras primas de Alfred Hitchcock.

"Vertigo" (ou "A Mulher que Viveu Duas Vezes" no muito literal título dado em português, tanto que revela o final do filme...).


O que é certo que face à proposta vertiginosa de Schuman, não consta que tenha sido necessária a intervenção de um otorrinolaringologista, sendo o repto aceite, pelo então chanceler alemão Konrad Adenauer, um político pragmático que no pós-conflito, procurou criar laços com as nações vencedoras, privilegiando a reconstrução de uma Alemanha praticamente destruída, naquilo que pouco anos depois seria considerado o "Wirtschaftswunder" (Milagre Económico, aqui em tradução livre). Rapidamente os países do Benelux e a Itália juntaram-se, e a 18 de abril 1951 era assinado o tratado de Paris que formava a CECA (Comunidade Económica do Carvão e Aço em português).


O sucesso da mesma foi imediato e poucos anos depois, em 25 de março 1957, em Roma, os mesmos países estariam a lançar as bases para uma integração mais profunda com a criação da CEE (Comunidade Económica Europeia) que depois abriria caminho, com sucessivas reformulações aos tratados, à actual União Europeia.



Брэсцкая крэпасць (Fortaleza de Brest). Monumento brutalista em honra ao soldado falecido na 2ªGuerra Mundial - Brest, Bielorrúsia.

Foto por João Tomé (visível aqui - restantes to.colantes aqui)



Antes de 1960, o registo europeu do Sport Lisboa e Benfica nas então recém criadas provas europeias da UEFA (infelizmente o organismo que superintende o futebol europeu não reconhece a Taça Latina, que precedeu a própria criação do organismo), cifrava-se nuns míseros dois jogos disputados, na 1ª ronda da edição de 1957/58 da então Taça dos Clubes Campeões Europeus (TCCE), contra os andaluzes do Sevilha FC, com um saldo de uma derrota forasteira por 3-1 (golo do Francisco Palmeiro), seguido de um empate a zero em casa. Até poderíamos ter mais uma outra participação, na edição inaugural da prova em 1955/56, dado que fomos os campeões nacionais em 54/55, mas estranhamente (ou talvez não), a federação portuguesa indicou a ida do terceiro classificado.


Se alargarmos o registo à participação das equipas portuguesas até então, notamos que nessa primeira edição da prova, o Sporting (o tal clube que foi indicado) tinha conseguido um empate no primeiro jogo de sempre da recém prova, seguindo-se de uma posterior derrota e eliminação em Belgrado (frente ao Partizan), o Porto perdeu ambos os jogos da 1ª pré-eliminatória em 1956/57 (frente ao Athletic Bilbao), o Sporting conseguiu duas vitórias na 1ª pré-eliminatória em 1958/59 frente aos holandeses VV DOS(pela primeira vez uma equipa portuguesa seguia em frente), mas caiu logo a seguir na 1ª ronda com os belgas do Standard Liége com duas derrotas, e finalmente, o Porto continuou na sua maré de azar (com Guttmann ao leme) ao perder os dois jogos da 1ª pré-eliminatória frente ao (actual) Inter de Bratislava.


Portanto, quando o Benfica subiu ao relvado do Tynecastle Stadium, a 29 de setembro de 1960, para defrontar o Hearts em Edimburgo, poucas esperanças haviam que a equipa conseguisse um bom resultado. O que é certo é que essa primeira pré-eliminatória foi passada com pleno sucesso obtendo duas vitórias (com Zé Augusto e José Águas a serem os marcadores em ambos os jogos). Na ronda seguinte (1ª ronda), vitória confortável caseira frente ao húngaros do Újpest FC, num jogo em que aos 30 minutos, o Benfica já goleava por 5-0 (ficou 6-2). Na segunda mão, uma derrota por 2-1 não impediu que, pela primeira vez, uma equipa portuguesa chegasse aos quartos de final da prova. Nesta ronda, segundo crónicas da época, o sorteio bafejou a equipa e o adversário foram os dinamarqueses do AGF Aarhus. Duas vitórias (por 3-1 em casa e 4-1 fora jogado num relvado sobre neve), selaram a chegada às meias finais da prova.


Pela frente, os campeões austríacos do operário Rapid Wien. Uma vitória em casa por 3-0 deu uma vantagem confortável, mas a deslocação ao Praterstadion não era fácil e a história da segunda mão comprovaria isso mesmo. Mesmo em ambiente adverso, José Águas adianta o marcador aos 66, havendo um empate 4 minutos depois. O ambiente ficou realmente quente e prova disso foi a invasão de campo aos 88 minutos que acabou por interromper a partida, tendo os jogadores que ser retirados de campo sob escolta policial.


Mas nada disso importava.


O Benfica conseguia o inimaginável e chegava à final da prova, agendada para o Wankdorfstadion em Berna. Um palco dado a milagres.



foto Pinterest


Sete anos antes, um milagre tinha ocorrido nesse mesmo estádio na final do Mundial'54.


A selecção semi-profissional da RFA (país lembre-se governado por Adenauer) conseguiu vencer a "Aranycsapat" (Equipa de Ouro, numa tradução livre) húngara, uma equipa com Puskas, Hidegkuti, Kocsis e Czibor, que até à derrota na final, esteve imbatível por 31 jogos (ao longo de mais de 5 anos).

Mais, esta derrota ocorreu depois de na fase de grupos do Mundial, a Hungria ter esmagado a RFA por 8-3. É communemente considerado um dos resultados mais surpreendentes da história dos Mundiais (face ao desnível das equipas em causa), em parte explicado pelas condições atmosféricas que favoreceram os alemães nesse dia (choveu copiosamente) e pela vantagem técnica obtida pelo uso, por arte destes, de botas Adidas (criadas por Adi Dassler) adaptadas ao terreno em causa.

Após recuperar de 0-2 inicial, os alemães conseguiram dar a volta ao marcador e acontecia o "Das Wunder von Bern".


O Milagre de Berna.

Um enorme bálsamo para um país, que tendo saído vergado a uma forte derrota na 2ª Guerra Mundial, tinha aqui uma grande injecção de moral.


Não sei se este exemplo foi tido em conta pelo Benfica, mas o que é certo é que sete anos depois, novo milagre ocorreria no relvado do Wankdorfstadion.


O adversário, era o já todo o poderoso, FC Barcelona, que tinha afastado na 1ª ronda a sua eterna Nemésis e vencedor das anteriores cinco edições da Taça dos Clubes Campeões Europeus, o super Real Madrid de Di Stéfano, Puskas ou Gento.

Barcelona, que tinha afastado nas meias finais os alemães do Hamburger SV, contava nas suas fileiras com um trio temível de húngaros (Kubala, Kocsis e Czibor - este dois últimos tinham estado presentes na final do Mundial, sete anos antes), tendo na baliza o afamado Ramallets e contava ainda com o temível armador de jogo Luis Suárez (até à data que escrevo estas linhas, o único espanhol nascido em Espanha a ganhar um Ballon d'Or).


Só mesmo uma anormalidade ou uma situação de "vertigo" (assumindo o termo em latim), poderia tirar a vitória ao Barcelona. E o início do jogo parecia indicar isso mesmo. Após passe de Luis Suárez, Kocsis inauguraria o marcador aos 21' minutos.

Mas o capitão José Águas, sempre ele (acabaria por ser o melhor marcador desta edição da prova com 10 golos), repôs o empate aos 30' minutos, e dois minutos depois um auto-golo de Ramallets, colocava surpreendentemente o Benfica na frente do marcador ao intervalo.


Já aqui fiz menção a um pormenor técnico que tinha ajudado a RFA a ganhar à poderosa Hungria. Nesta outra final, houve igualmente um pormenor técnico que indirectamente ajudou o Benfica: os postes das balizas eram quadrados e não redondos.


Há uns anos, em conversa em Barcelona com jornalistas desportivos catalães (super culés), esse facto foi-me referido como a causa para a vitória do Benfica. De facto, crónicas à época referem que na segunda parte, o Barcelona mandou três bolas ao poste, algo que nos dias de hoje com postes redondos, talvez tivessem entrado. Nunca saberemos.





O que sabemos é que aos 8' minutos de jogo, Mário Coluna, avançado feito médio centro todo-o-terreno pelo génio de Guttmann, partiu o seu nariz cumprindo os restantes 82 minutos em sofrimento. Isso não o impediu de aos 55' minutos, num belo pontapé de ressaca em "voley", marcar o 3-1, golo que se revelaria essencial para a vitória final por 3-2, conquistada após enorme solidariedade e espírito de sacrifício de toda a equipa.


O segundo Milagre de Berna acontecia e contra todas as expectativas, uma equipa de um país com pouca tradição futebolística, tornava-se campeã europeia.


E José Águas tirava umas das mais belas e icónicas fotos do ideário benfiquista.




Como já devem ter reparado, o "to.colante" Sport Europa e Benfica (presente na terceira imagem neste texto) usa como base o programa oficial de jogo desta final de Berna em 1961.

A imagem minimalista da Europa com a bola de futebol a avançar sobre a mesma, é na minha opinião forte. A cor vermelha sobre o azul é uma combinação que gosto (à parte de qualquer interpretação clubista).

Este foi uma das minhas primeiras alterações que fiz, tendo inclusive usado uma variação do mesmo, por altura da final de Amesterdão em 2013 (ainda nem sonhava em imprimir autocolantes), para um pequeno poster motivacional que foi partilhado pela malta mais próxima que foi comigo a esse jogo.


Isso explica em parte, o porquê dos acabamentos serem rudimentares (usei na altura um freeware chamado GIMP), algo que optei por manter quando decidi em Março de 2016 imprimir 500 cópias em tamanho 55 x 55 mm, em papel adesivo 90 gr (estilo Panini), tendo usado uma fonte da família das True Type Font com a simples e directa mensagem: Sport Europa e Benfica.


Os últimos anos não têm sido compatíveis com a rica história europeia do nosso clube. E talvez estas efemérides sejam sempre uma maneira de voltar a vincar isso. É certo que hoje em dia, dada a cada vez maior desigualdade de meios, muito provavelmente só um milagre nos fará voltar a uma final europeia na principal competição de clubes.


No entanto, em 1961, a questão era igual ou mesmo pior e aqueles homens provaram durante aquela campanha europeia que os milagres por vezes existem. Tal como o que tinha ocorrido sete anos antes.

Pode parecer uma miragem ou algo "contranatura", mas se há algo que a declaração de Schuman provou, é que a construção europeia não se fez de uma vez só, nem levou apenas um único caminho. E só a solidariedade e a cooperação entre os diferentes povos, têm mantido a mesma (ainda que ameaçada).


Retorno à frase de Schuman.

"A Europa não se fará de uma só vez, nem de acordo com um plano único. Far-se-á através de realizações concretas que criarão, antes de mais, uma solidariedade de facto."


Neste dia da Europa, transponho isto para o futebol e para as ambições europeias do Benfica.

O objectivo está longe de ter ficado esgotado na década de 60. Queiramos todos, enquanto clube, dar os passos de forma a voltar a tornar isso realidade novamente. Se assim for, certamente haveremos de ter um novo V-Day.


© 2020 Benfica Independente

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