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A tempestade perfeita

Quando era novo, muito mais novo, era quase tradição o meu Avô materno, Gastão de seu nome, levar-nos a ver o Benfica ao velho Estádio da Luz.

Era normalmente aos Domingos e ocasionalmente aos Sábados que isto de os jogos do campeonato em dia da semana é modernice. A minha Avó Margarida também nos acompanhava muitas vezes, sobretudo para não ficar sozinha em casa diga-se em abono da verdade, e assim lá íamos nós, eu, os meus Avôs e os meus irmãos, desde a Rua da Sociedade Farmacêutica rumo ao Estádio da Luz, aquele estádio com a mítica iluminação da Phillips, que tornava qualquer noite sombria num dia brilhante.

Era uma romaria única, uma tempestade perfeita que se abatia sobre a cidade.

Armado do seu estimado Citroën CX que estava sempre imaculado, o meu Avô mostrava-nos orgulhoso como a suspensão hidráulica fazia subir o chassis, deixava o motor aquecer um pouco e depois lá arrancava em direcção ao estádio. Lembro-me bem, porque é destas pequenas memórias que se constrói uma paixão. Pelo caminho íamos vendo pessoas de camisola vermelha, com o logótipo da Shell, da Fnac ou do Casino Estoril estampado na frente, famílias inteiras de bonés, cachecóis e bandeiras. Eram pessoas isoladas que durante o nosso percurso se transformavam em grupos pequenos perto da Avenida da República, depois em grupos maiores já perto de Entrecampos, numa turbe de gente entusiasmada já em Sete Rios, numa multidão fluida pela Estrada da Luz até finalmente se tornar num mar de gente, uma onda gigante, quando começávamos a subir a Rua dos Soeiros e se vislumbrava já uma das altivas torres de iluminação da Catedral. Era uma romaria única, uma tempestade perfeita que se abatia sobre a cidade.

As bilheteiras eram velhos bunkers de betão com vários separadores de metal onde, por algum mistério cósmico, as pessoas lá se organizavam para comprar o almejado ingresso sem grandes atropelos.

O meu Avô arrumava o carro lá no alto, num bairro social que ainda hoje existe, normalmente na Rua Anjos Teixeira ou numa qualquer paralela. A minha Avó, já cansada de nos ouvir falar da bola, normalmente até ficava no carro, a ouvir o relate na Renascença, enquanto nós íamos andando para as bilheteiras, não sem antes passar pelas gaiolas da Rua Mateus Vicente para ver os pombos onde o Gastão nos dizia amiúde que o mítico Chalana dedicava os tempos livres à columbofilia. E eu achava que o Chalana era louco.


A tempestade perfeita da Luz

As bilheteiras eram velhos bunkers de betão com vários separadores de metal onde, por algum mistério cósmico, as pessoas lá se organizavam para comprar o almejado ingresso sem grandes atropelos. Da sacola que trazia sempre ao pulso, o meu Avô tirava os nossos cartões de Sócio com as quotas actualizadas (que pagara uns dias atrás ao cobrador que tinha ido a sua casa), comprava os bilhetes e depois descíamos até ao velho portão de ferro com uma pequena e única porta aberta onde um fiscal qualquer nos permitia aceder ao anel exterior do Estádio. Essa entrada era logo para mim a chegada a um mundo de emoções.

Disto tudo tenho saudades, da simplicidade dos dias, da alegria de ir à bola ao Domingo, de ir no Citroën CX do meu Avô com aquela suspensão magnífica

Subíamos até ao terceiro anel onde nos sentávamos no frio betão, eu e os meus irmãos, que o meu Avô esse já tinha daquelas almofadas dobráveis que, feliz, abria e colocava no cimento antes de se sentar. O jogo, esse, não tinha grande história, o Benfica ganhava, mais ou menos facilmente lá ganhava e saíamos contentes a falar da bola, mas da boa, sem polémicas, do remate vitorioso do César Brito, da finta mágica do Valdo, do desarme raçudo do Veloso ou daquela grande defesa do Silvino.


Ao cair do dia, regressávamos a casa a ouvir os comentadores da Renascença no carro. A tempestade passava aos poucos e o mar voltava a ser multidão, a multidão voltava a ser turbe, depois grandes grupos e depois grupos pequenos até só vermos umas pessoas de camisola vermelha já perto de casa.

Eram bons tempos.


Disto tudo tenho saudades, da simplicidade dos dias, da alegria de ir à bola ao Domingo, de ir no Citroën CX do meu Avô com aquela suspensão magnífica, mas mais que isso tudo, mais do que os gloriosos anos 70 e 80, tenho sobretudo saudades do meu Avô, esse homem único que fez de mim Benfiquista e que me levava à bola, a mim e aos meus irmãos.


▶ Texto enviado pelo benfiquista Gonçalo C. Vale

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