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Amor, amor, desliga a televisão


Chegámos àquele momento em que tudo muda mesmo que nada mude. Mesmo que a Superliga não avance como foi noticiada e difundida nas últimas horas, há algo de aparentemente disruptivo no que acabámos de viver: os clubes com mais adeptos e que movimentam mais dinheiro ousaram gritar: "It's the economy, stupid". E berraram mesmo à nossa frente.

As pessoas nas redes sociais cumpriram exemplarmente o seu papel e mostraram estupefação, descrença, raiva, desprezo. O problema será o amanhã, o problema será quando no zapping aparecer um Real Madrid-Liverpool ou quando for anunciada a contratação da mais recente vedeta do futebol mundial.

A mudança faz tão parte da vida quanto a nossa resistência à mesma e achamos que todos são velhos do Restelo, menos nós próprios. E, eu falo por mim, claro. Temos também alguma tendência para as tiradas catastróficas: "o guarda-redes não poder agarrar a bola é o fim do jogo"; "esse Bosman é um tolo inconsequente"; "isso do VAR tira a alegria do golo"; "Uma liga só de clubes ricos não interessa nem ao menino Florentino". Só que a realidade tem demonstrado que nos conseguimos adaptar sempre. Simplesmente não é a mesma coisa.

Há vários anos que adoro ir à bola nos países que visito e também vou lá fora cá dentro. Tenho descoberto diferentes formas de ver o jogo, o antes, o depois, e como o amor ao clube pode ser tão desigual na semelhança. Têm sido aulas de doutoramento para quem achava que ir ao Estádio da Luz, Camp Nou, Old Trafford, Signal Iduna Park ou San Paolo era tudo o que precisamos para gritar "eu amo o futebol." O movimento Ódio ao Futebol Moderno, ou as suas versões mais light, têm-me dado o enquadramento que preciso para perceber que há bola e há futebol e estes raramente se cruzam. Mais do que isso, há adeptos para todos os gostos e todos os jogos.

Demorei demasiado tempo a aceitar que nem todos têm de amar e seguir loucamente o seu clube, que podem apenas ser adeptos das vitórias ou dos jogos grandes ou do prazer de ver um bom jogo no estádio ou ainda da vontade de ver a bola em casa entre amigos. Há mesmo espaço para todos e a Superliga não muda nada. Hoje li muitos comentários chocados com o que aí vem (ou talvez não venha), mas vi também vários que aceitam a mudança. Mentiria se não dissesse que me custa ler as visões mais pragmáticas, as que acham tudo vai mudando e que temos de aceitar isso com a naturalidade possível. Não é a minha forma de ser ou de pensar o futebol.

O futebol e as principais competições alteraram-se muito nos últimos anos, aliás, até os conceitos mudaram: a Liga dos Campeões é hoje uma taça para equipas que ganham títulos mas também para outras que ficam em segundo, terceiro, quarto, ganham outras provas, etc. A economia também mudou muito nos últimos tempos, vejam-se os clubes ingleses que preferem usar rublos, dólares, dirhams ou yuans do que libras. Até os valores e princípios que apregoamos foram mudando e, felizmente, Dostoievski deixou as casas de apostas de fora dos perigos do jogo, e deixámos de nos importar com o facto de haver escravatura na construção de estádios para as grandes competições. Tudo isto não passam de notas de rodapé num mundo que vive dos túneis de Messi ou do six-pack de Ronaldo. E tudo isto fomos aceitando porque o jogo é mesmo assim, porque "it's the economy, stupid".

Então, porque custa tanto saber que haverá uma liga fechada onde só entra quem conhece, perdão, quem é conhecido em todo o mundo? Não creio que haja uma resposta certa, mas várias e algumas dessas explicações já foram aqui afloradas: resistência à mudança e desprezo pelo imperativo económico. Mas também nos custa que definitivamente não haja mais espaço para Davides no mundo dos Golias. O que nos foi proposto hoje é o fim dos underdogs, é o mero desdém de oferecer umas migalhas sob a forma de uma entrada ocasional no Olimpo dos grandes jogos.

Pois, eu fico feliz por o Benfica estar de fora. É provável que a ideia não seja partilhada pelos funcionários da SAD ou por alguns adeptos, mas eu fico verdadeiramente feliz. Uma competição elitista onde o lucro é o único goal que interessa aos investidores e onde os adeptos não são ouvidos nunca poderá ser o momento alto do jogo que aprendi a amar. Se o amanhã for como nos prometem hoje, só me resta dizer "amor, amor, desliga a televisão".