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Dínamo Zagreb - o clube único na cidade de um milhão de corações.



"Zagreb, the city with a million hearts"


Ao lermos este slogan turístico, idealizamos logo uma cidade vibrante e acolhedora.

Um local que fruto da sua privilegiada posição geográfica, é um ponto de confluência de várias culturas e impérios, algo que adiciona a esta cidade um toque especial. Imaginamos uma metrópole orgulhosa do seu passado e segura do seu futuro, cheia de pessoais locais a mostrar a típica e genuína hospitalidade balcânica.


Tudo isto seria verdade não fosse um pormenor.

O GNK Dínamo de Zagreb ia defrontar o SL Benfica nos oitavos de final da Liga Europa.


Foquemo-nos na crónica de viagem. Quando no passado dia 22 de Fevereiro saiu-nos em sorte o GNK Dínamo Zagreb, muitos aperceberam-se que esta não seria apenas mais uma transferta e muito provavelmente o ambiente seria algo pesado. E temos de recuar até Setembro de 1994 para compreender o porquê dessa possível inimizade.

A 14 desse mês, o SL Benfica defrontou em Split o grande rival interno do Dínamo de Zagreb, o HNK Hajduk Split, na fase de grupos da Champions League da então época 94/95. Na volta, e cinco dias depois a 19 de Setembro, três apoiantes do SL Benfica que atravessaram meia Europa de carro e desafiaram entrar numa zona de conflito para ver o seu grande amor, perdem a vida num trágico acidente em Espanha - Gullit, Tino e Rita, que desde aí estão sempre presentes na memória da rapaziada do Topo Sul.

No jogo de retorno em Lisboa, alguns membros da Torcida Split, um dos grupos de apoio mais antigos da Europa - as suas raízes recuam até 1950, depositam flores em memória dos que pereceram e daí gerou-se uma amizade, para muitos forjada no sangue, que persiste até aos dias de hoje entre os No Name Boys e a dita Torcida Split.


Feito este interlúdio, compreende-se o frenesim no ar à volta deste jogo, seja na Luz, seja em Zagreb. Mas não foi só esta razão. Desde a época 69/70 (ainda como clube jugoslavo) que o Dínamo não chegava tão longe nas competições europeias.


Mas engane-se quem pensa que o Dínamo é um clube sem história. Fruto das vicissitudes geopolítica da área onde está inserido, a história deste clube é interessante e em parte está intrinsecamente ligada à história desta turbulenta região.


Crónico vencedor da liga croata (nos últimos 12 anos apenas perdeu um campeonato), o clube foi oficialmente (para os órgão federativos) fundado em 1945, com a reunificação jugoslava promovida pelos "partisans" comunistas liderados pelo general Tito. Nessa altura ocorreu a dissolução de todas as anteriores estruturas existentes, consideradas entretanto fascistas (curiosamente o Hajduk, devido ao facto da cidade de Split ter sido recuperada mais cedo e ter se tornado num grande bastião da resistência comunista, foi poupado e pode manter o nome e equipa), e os maiores clubes da cidade de Zagreb até então, o HAŠK, Građanski e o Concordia de seus nomes, foram fundidos num só criando o FD Dínamo Zagreb.


Do Građanski, um dos mais proeminentes clubes no reino jugoslavo no período entre guerras, este novo clube herdou as cores e a maioria da sua base de apoio. Do HAŠK iria herdar o seu actual estádio, o Stadion Maksimir. Estes factos explicam o porquê, de quando acedemos à página oficial do Dínamo, haver a menção de que o clube foi fundado em 1911, data de fundação do Građanski. E explica igualmente o porquê de em 2011, num suposto centenário fabricado (onde é que eu já vi isto) o clube ter acrescentado Građanski ao nome, daí a actual sigla ser GNK Dinamo Zagreb.



Mas estas danças com o nome não acabam aqui e ajudam a explicar a conturbada década de 90 nesta região dos Balcãs. Em Junho de 1991, aquando da secessão jugoslava, algo despoletado por um acontecimento ocorrido no Stadion Maksimir, o clube removeu Dínamo do nome e assumiu a designação HAŠK Građanski. Esta designação durou pouco tempo e Franjo Tuđman, primeiro presidente croata, esteve por detrás dessa mesma alteração, passando o clube a chamar-se Croácia de Zagreb numa clara tentativa de uso do futebol e o clube, no seu processo de construção de nação e de identidade croata. De facto, o Dínamo tinha sido o clube mais laureado da região croata na até então Jugoslávia. Para além de ser o clube da capital e cidade mais populosa, era igualmente um clube que tinha ganho inclusive uma Taça das Cidades com Feira (precursora da Taça UEFA) em 66-67, tendo igualmente chegado a outra final na mesma competição nessa década (em 62-62) perdendo com o Valência.


O problema é que os apoiantes do clube nunca aceitaram esta mudança, nem nunca se reviram nesta denominação do clube (pese todo o clima nacionalista causado pela guerra fratricida com outras regiões da ex-Jugoslávia). E só na entrada do novo milénio (em Fevereiro de 2000) o clube recuperaria o nome pelo qual os seus adeptos nunca deixaram de tratar a sua equipa: Dínamo de Zagreb.


Esta trocas de nome ajudam igualmente a explicar em parte a relação de amor-ódio que muitas vezes criou distanciamento entre o clube e os seus adeptos, algo que fortaleceu e ajuda a explicar a força que o seu grupo de apoiantes mais "hardcore" tem no clube e na cidade.


Criados em 1986, os "Bad Blue Boys" (BBB) devem o seu nome ao filme de 1983 "Bad Boys" (que tem no elenco um ainda jovem Sean Penn). Rapidamente assumiram-se como os "defensores" da cidade de Zagreb e com o advento da guerra da secessão em Junho de 1991 - aliás iniciada pela célebre patada de um jovem Boban (então no Dínamo antes do salto para Itália e para o AC Milan) no Stadion Maksimir a um jogador do Estrela Vermelha num jogo do campeonato jugoslavo -, este grupo esteve na linha da frente das milícias paramilitares criadas para defender o recém estado croata (algo semelhante a outros grupos no contexto de guerra então criado). A este grupo, que pese não tenha visto com bom nome as trocas de nome ocorridas na década de 90, foram dadas inúmeras benesses e preponderância (até pelo seu papel em contexto de guerra) que ainda hoje se sentem com a existência de duas grandes lojas no centro da cidade e a existência de inúmeros bares e sítios de saída afectos ao grupo.


Se juntarmos a este rol, um grande historial de "hooliganismo" e uma certa orientação ultranacionalista de simpatia com o regime fantoche proto-fascista da Ustaše (estado independente da Croácia entre 1941 e 1945), e a inimizade com a malta da Torcida Split que recordemos tem uma ligação especial, já aqui descrita, com os No Name Boys, percebemos que o jogo foi desde o início considerado de tensão muito elevada em Zagreb e que esta deslocação não era para ser levada de tom leve.


Pessoalmente, tinha estado na Turquia há uma semana e com este sorteio (e tendo curiosidade para visitar a região e a cidade) não podia deixar passar esta. Claro que isso levou a intensas negociações em casa (e escolhas a serem feitas, abdicando do que se tornou um jogo de sonho no Dragão) para poder ter carta de soltura para ir nessa viagem até Zagreb.


Esta seria (e foi) a minha 24ª saída fora do país para ver as papoilas saltitantes que tanto amo e mesmo tendo já este número simpático (atenção que há malta com muitos mais quilómetros acumulados e honra lhes seja feita), há aspectos que nunca mudam: a excitação da procura do melhor percurso para chegar ao local de destino (ao mínimo preço possível), o convencer amigos a embarcar nesta nova jornada ("o teu bebé só nasce no final do mês e vais e vens num tirinho"), o arranjar maneira de convencer a patroa (em casa) e o empregador (no trabalho) a libertarem-te (neste caso após teres estado 5 dias na semana anterior em Istambul).



Reunidas as tropas, com preços a subir, um pequeno grupo decidiu voar até Pisa, mais concretamente até ao aeroporto Galileo Galilei e alugar um carro e fazer 700 e tal quilómetros até Zagreb, passando por Bolonha (primeira paragem para dormida), Trieste, Ljubljana (segunda paragem para dormida) até chegar a Zagreb no dia do jogo (e dormir aí). Depois a vinda teria que ser mais apressada e num dia teríamos de fazer este percurso todo (deixando alguém no aeroporto Marco Polo em Veneza) para pernoitarmos em Pisa, dado que o voo era na manhã seguinte.


A ideia inicial até era para voar até Bolonha (e poupar 175km + 175 km de estrada na volta) que até tinha vinda num horário mais simpático, mas com a indecisão de malta e o escalar de preços na tarde após sorteio fez a opção cair em Pisa (por menos de 100€ ida e volta). Claro que havia outras opções, mas esta foi a mais barata e permitiu-nos igualmente passar por cidades muito giras (Itália é sempre uma boa escolha e permitia conhecer a pérola perdida que é a Eslovénia e a sua pequena grande capital).

Para Zagreb havia muitos outros que optaram por ir de avião via Frankfurt ou Amesterdão. Alguma da minha malta mais próxima baseada no estrangeiro veio de Berlim ou sul da Alemanha. Outros vieram de carro da Eslováquia ou mesmo de Viena. E sei de malta que veio de carro desde Portugal passando por Split.

Nesse aspecto Guttmann tinha razão quando lhe perguntaram pela mística benfiquista: "Chove? Faz Frio? Faz Calor? Que Importa, nem que o jogo seja no fim do mundo, entre as neves das serras ou no meio das chamas do inferno...Por terra... Por mar... Ou pelo ar, eles ai vão os adeptos do Benfica atrás da equipa.. "


Comprados bilhetes (com relativa tranquilidade após os mesmos terem sido postos à venda sem aviso prévio a menos de uma semana do jogo - aspecto a melhorar pelo Benfica), e ainda mal refeitos de um fim de semana de sonho no Dragão, na terça seguinte de manhã lá embarcamos com as nossas mochilas mini (obrigado política de bagagem da Ryanair) para uma longa jornada que duraria até sábado à tarde.


Chegado ao aeroporto (e com um dos integrantes na viagem ressacado e sem telemóvel, perdido algures na noite anterior - o seu GPS humano não o impediu de encontrar a tempo o Terminal 2 do Humberto Delgado), embarcámos e chegados a Pisa a primeira contrariedade: o aluguer de carro tinha sido feito com um cartão de crédito que não tínhamos (autêntico erro de principiante). Valeu que aparentemente, o aluguer em certas companhias feito no local é bem mais vantajoso, tendo em conta a existência de seguro contra todos os riscos. Carro a Diesel, o nosso Pesaresi (vamos designar assim o nosso FIAT) ao contrário do homónimo defesa esquerdo italiano, revelou muito fiável e muito poupado (para surpresa minha).


Arrancamos do aeroporto de Pisa às 17h e seguimos 175 km até à cidade vermelha de Bolonha, uma cidade universitária à semelhança da nossa Coimbra.



Há um dito italiana que diz que caracteriza Bolonha como "la dotta, la grossa, la rossa". Não podia estar mais de acordo. De facto é uma cidade com uma população universitária muito visível, onde se come muito bem e à parte de considerações ideológicas, a cor predominante nos edifícios é avermelhado. Uma boa escolha portanto. O problema é que não tínhamos sítio para ficar, mas com dados móveis rapidamente arranjou-se uma ex-garagem-barra-armazém transformado em estúdio expositor saído de uma qualquer revista no IKEA. Os wc's (sim, eram dois para menos de 30 m2) até tinham robots de luzes.


Assentados e já a desfrutar de uma cerveja num sítio qualquer numa ruela no centro (bendito "antipasto" que é dado à borla sempre que pedes uma bebida), encontramos a menos de 30 metros um sítio hiper aconchegante (e barato) para jantar (Marsiliano - retenham o nome). Após isso, tempo para bebidas, procurar sítio para ver o desastre do Real e tentar entrar à socapa numa festa de estudantes numa discoteca junto às "Due Torri" (impressionante conjunto de torres medievais situadas mesmo no centro - quanto à discoteca fomos barrados por não termos cartões de estudantes...).



No dia seguinte, quarta de manhã, após acordarmos (ligeiro estalo na cabeça) procuramos dar o "checkout" e tomar o pequeno-almoço. Escolhemos aleatoriamente um sítio, que talvez retrate a confusão que é Itália. Sistema hiper confuso de pedidos, com cafés num sítio, sandes noutro, com pré-pagamento à mistura. No entanto comida de nível topo para o preço dado. Tempo para uma despedida rápida de Bolonha (com uns quantos to.colantes espalhados pela cidade - ir ao item outros projectos e perceber o que é) e colocamo-nos à estrada tendo por destino Ljubljana na Eslovénia. 400 Km pela frente porque quisemos igualmente fazer um pequeno desvio e passar em Trieste, o antigo grande porto austro-húngaro (e cidade do poeta Joyce), a cidade referida por Churchill no célebre discurso em 1946 em que define a Cortina de Ferro que descia então na Europa entre o bloco de Leste e o bloco ocidental.


Infelizmente devido ao curto tempo disponível, não foi possível parar muito em Trieste, mas deu para ter uma percepção da bonita costa adriática assim como do cariz imperial de uma cidade, que acima de tudo foi sempre aberta como demonstra a sua imponente sinagoga (para além de mais stickers espalhados, aliás uma constante nesta viagem ou em qualquer sítio que vá).



Entrados na Eslovénia (e "conscientemente" ignorado que era necessário comprar um ticket portagem para circular nas auto-estradas desse país - adquirimos depois à volta), demo-nos conta da beleza campestre que é esta pequena república. Confesso que ia com expectativas para Ljubljana, mas o país e a zona rural não ficam atrás em termos de beleza.


Chegados à capital e com um "airbn'b" alugado já desde Lisboa (o único por sinal a par do "hostel" em Zagreb - há quem chame isto planeamento), rapidamente ficamos absorvidos pela simpatia e pela disponibilidade das gentes locais. Dominada por um imponente castelo, a cidade é pequena mas cheia de história e pequenos recantos que nos seduziram desde a primeira vista. Isto para além do aspecto cómico de ver vários sinais de trânsito com uma palavra muito conhecida em calão cá no burgo (começa em C acaba em A e tem ON a meio).

Pese o tamanho, é uma cidade muito cosmopolita (muitos estudantes Erasmus) e é com certeza uma cidade à qual quererei voltar.

Mas não há bela sem senão: a cor da cidade é verde e tem por símbolo um dragão (já agora, e a título de curiosidade, em Zagreb a cor predominante é o azul e o clube tem por símbolo não oficial o leão).


Após jantarmos no "Mediterraneo" (sítio bom e barato que estava deserto e cujos vizinhos de mesa acabaram por ser outros portugueses que aí estudavam, e também iam ao jogo, e que ficaram surpreendidos por ouvir português ali) - já agora comi rã panada ao que parece uma iguaria local, seguimos a deambular pelo centro e assentamos arraiais num Irish Pub (escolha fácil, tinha bola na TV). Com um "karaoke" na cave o sítio era um íman para malta em Erasmus, portanto até acabou por ser uma noite bem divertida a conhecer muita malta de várias proveniências.



Após as 3h e dado que o sítio ia fechar, decidimos deambular mais um pouco em busca de algo (tentamos encontrar Metalkova, a comunidade livre de Ljubljana mas não encontramos), e resolvemos seguir uma dica dada antes, mas a qual não tínhamos ficado de todo convencidos. O nome também não era o melhor, mas o "Shooters" revelou-se um completo tiro ao lado: 9 pessoas contando connosco (e um rácio de 1 rapariga para 8 rapazes). O que era interessante no bar era haver uma espécie de bancada de futebol a simular a bancada dos Green Dragons, o grupo de apoio dos clubes da cidade, que no futebol tem por clube o NK Olimpija. Novo sticker naquilo e depois saímos a girar em busca de algo aberto.

Para além de bares menos recomendáveis, a única coisa aberta eram casinos (uma realidade muito presente nesta parte do globo, como irão perceber quando chegar a Zagreb). Após algumas voltas, resolvemos voltar a casa e no caminho, enquanto estava um quarteirão atrás a colar uns stickers, os meus colegas de viagem foram mandados parar pela polícia por...atravessarem uma rua deserta na passadeira com vermelho para peões. Rapidamente a coisa ficou sanada, e a caminho de casa ainda houve tempo para rebolar debaixo de um passadiço junto ao rio (pensou-se que era um carro de polícia mas afinal era apenas um carro do lixo - stickers a quanto obrigas).



E eis que chegámos ao grande dia.

Ainda faltavam 140 km para chegarmos ao nosso destino final.

Após "check-out" (dor de cabeça um pouco mais latente que na noite anterior), tempo para um ovo "benedict" num sítio "hiper fancy" (mas muito acessível a nível de preços) onde conhecemos o empregado, o Marko (que reconheceu o sotaque e pensou que éramos brasileiros), que revelou ser de Maribor (facto que não te granjeia muitos amigos em Ljubljana) e ficou contente quando referi a ele o nome Zahovic (é natural de de Maribor).

Partimos algo atrasados e com isso já não fomos a tempo de apanhar um amigo nosso que vinha de Berlin e que chegava ao aeroporto de Zagreb ao início da tarde (tal como era planeado).



Esta viagem, feita de dia, permitiu-nos verificar nalgumas diferenças existentes entre a Eslovénia e a Croácia. A começar pelo estado da auto-estrada e das infraestruturas. Na Eslovénia a rede está mais cuidada e aparenta ser mais recente. Se em termos de contexto rural as lindas paisagens bucólicas são semelhantes, quando chegamos às grandes cidades o contexto muda de figura. A comparação entre Ljubljana e Zagreb nunca poderá ser possível ou mais acertada, tendo em conta o diferente tamanho das mesmas em termos de população e dimensão. Ambas são cidades muralhadas, dominadas por pequenas colinas tendo ao horizonte a imponência dos Alpes balcânicos. No entanto, a capital eslovena comporta menos de 300 mil pessoas (num país com 2 milhões de habitantes). A congénere croata comporta sensivelmente 1 milhão na sua metrópole, ou seja um quarto da população do país. Em termos linguísticos pese nos soe parecido, o esloveno e o croata são línguas de diferentes famílias, estando o croata muito mais próximo do sérvio. Depois há pequenas diferenças em termos de vivência diária: os eslovenos usam o Euro e estão dentro do espaço Shengen (ou seja não há grande controlo fronteiriço com outros países integrantes como Itália), e a Croácia usa a Kuna (cerca de 0.13€ cada kuna) como moeda nacional (o que gerou alguns levantamentos indevidos devido a erro com câmbio - alguém levantou o equivalente a 180€ em kunas) e aguarda ainda entrada no espaço Shengen. E isso notava-se quando se olhava para o outro lado da autoestrada, já no lado croata, depois de passado os dois controles fronteiriços: uma longa fila de camiões à espera de passar a fronteira.


Mas não foram estas as únicas diferenças. Enquanto na Eslovénia o tratamento para connosco foi sempre cordial e caloroso, passada a fronteira o caso mudou de figura.

Não era para menos.

Desde o sorteio que o jogo foi dissecado na imprensa croata e rotulado de alto risco. Nos dias anteriores à viagem foram inúmeros os avisos que recebi para ter cuidado, para não andar com adereços visíveis do Benfica em Zagreb, para evitar andar em grandes grupos etc. Por vezes soou-me que todo este alarmismo até tinha um efeito contraproducente e pioraria qualquer tipo de cenário. Mas a verdade é que mal colocamos o pé (ou neste caso a roda) dentro da Croácia, percebemos que estes avisos não eram em vão.


Logo na fronteira, ao verem que éramos portugueses e ao dizermos que íamos ao jogo, fomos mandados parar. Após 15 minutos de espera em que ninguém apareceu, subitamente alguém aparece, deu-nos as identificações de volta e seguimos viagem. Até aqui tudo normal e natural face ao alarmismo reproduzido pelos media (tendo em conta a contextualização já aqui descrita). Mas isto não ocorreu só na fronteira.

Mesmo dentro da Croácia, em especial na estrada que liga Split até Zagreb, o trânsito era desviado para estações de serviço aonde era feito controle de identidade (as autoridades croatas proibiram croatas de assistir ao jogo na nossa bancada).



Chegados a Zagreb, deparamo-nos com uma realidade mais balcânica por assim dizer. Algo diferente daquilo que tínhamos encontrado em Ljubljana. À boa maneira comunista, como em qualquer cidade de Leste europeu, grandes blocos de apartamentos monolíticos (não muito cuidados) surgiam na paisagem ladeando uma grande e imponente avenida de acesso à cidade. Tudo pontuado por dezenas e dezenas (e não estou a exagerar) de anúncios a casinos existentes na cidade. Na base grandes murais a anunciar que esta era uma cidade de um clube só e que estávamos a entrar em território hostil.

Mais próximo do centro da cidade (onde ficámos) a paisagem mudava um pouco e a herança austro-húngara começava a ser notada. Começavam a aparecer os pequenos cafés cheios de pessoas, no intervalos de passagem dos charmosos eléctricos azuis típicos da cidade. O "mood" começa a ficar menos pesado, pensei eu. Ainda assim, estávamos todos alerta.


Encostamos num sítio perto do "hostel" e fomos fazer "check-in". Aí chegados, a recepcionista mostrou o quão alarmista tinha sido retratado esta ida do Benfica à cidade. Recebeu-nos bem, agradeceu a nossa preferência mas logo alertou que a cidade infelizmente tinha muitos hooligans, indicou-nos para colocar carro mesmo debaixo do "hostel" e deixou mil avisos para termos cuidado.


Ao ouvir isto, é natural que tenhamos pensado que tínhamos entrado em zona e guerra. Todos evitaram levar adereços (cachecol no bolso), deram-me mil avisos para evitar colagens ao máximo (confesso que furei esta premissa). Tentamos estar o mais relaxado possível, mas era impossível ao menor sinal de desconfiança não ficar em algum sobressalto.


Fomos reunindo a malta mais próxima que estava na cidade e decidimos ir ao encontro de alguns no centro histórico.

A experiência diz-me, que nestas situações de tensão mais latente, idas aos centros históricos são de evitar. No entanto e dado que iríamos sair cedo da cidade no outro dia, decidimos ir lá, até porque era o depositário de bilhetes para malta que vive fora do país e não tinha possibilidade de comprar o bilhete do jogo na Luz.


Devo confessar que a zona histórica é muito gira e merece visita (fora de contexto de viagem de bola). A catedral de estilo gótico é imponente e merece visita. A rodear a mesma, um conjunto de ruas empedradas, numa parte muralhada, cheias de bares. Ao chegar aqui, notava-se que este era o ponto de encontro de muitos adeptos do Dínamo. Como é óbvio, um grupo de seis ou sete pessoas sem adereços do Dínamo a falar algo que não soava a croata, nunca passaria despercebido.

Na prática estávamos na boca do lobo, mas a presença policial fazia-se sentir, pelo que prosseguimos para um dos bares aonde estariam mais malta nossa.


Ao chegar bem perto de lá via malta com camisolas nossas a beber cervejas enquanto ouvia-se nos altifalantes do bar músicas do Dínamo.

Confesso que visto agora daqui, isso até foi uma boa situação até para retirar algum peso a todo aquele contexto. Mas na altura, começamos a questionar-nos o que é que os nosso amigos estavam ali a fazer.

Chegados mesmo ao bar, percebi então que a malta tinha sido convidada pelo dono do bar a entrar ali e a ficar ali. Ele certificaria-se que não acontecia nada.


Bebidas algumas cervejas e reposta a conversa em dia (estas viagens são igualmente bons motivos para ver e estar com pessoas que não vemos muito devido ao facto de estarem fora do país), com a hora do jogo a chegar (e com a ronda de dois ou três tipos que estavam sempre a passar à porta de telemóvel em ronda), decidimos rumar para estádio. Decidimos apanhar "ubers" e dado o grupo ser grande grande, tivemos de nos dividir em dois. Um dos carros foi para a entrada lateral do sítio de concentração no estádio (por onde depois saímos no final). Essa malta ficou a confraternizar com adeptos do Dínamo num bar mesmo junto a essa porta (após o jogo isso já seria impossível).

O carro onde estava foi para a entrada norte do estacionamento. Era conduzido por Marko (não sei porquê mas fiquei com a impressão que todos tinham este nome) e em modo defensivo disse que não gostava de bola. Mais para a frente na viagem, já dizia que era adepto do Dínamo e que este era um jogo muito importante para eles. Quando questionado, disse que a situação económica era algo má e muitos dos jovens estavam emigrar. Pareceu ser um tipo cinco estrelas.



Chegado ao destino, perguntamos ao polícia de piquete aonde poderíamos beber a derradeira. Ele calmamente apontou para o outro lado da estrada aonde havia uma enorme concentração do Dínamo.

Pensámos: "Bom, isto está pesado. Mas está policiado. Vamos lá num tiro e voltamos". E assim foi. Entramos num mini-mercado, perdemos dinheiro na conversão euros em kunas e trouxemos as nossas latas e seguimos para dentro da zona de concentração. Houve aqui e ali algum frenesim, mas nada de anormal ou de outro mundo.


Passado esse primeiro ponto de segurança, seguiram-se mais dois controles de segurança e de identificação, tendo igualmente muita malta sido submetida ao teste do balão (algo que apenas verifiquei quando cheguei lá). Passado tudo isto, finalmente estávamos dentro do Stadion Maksimir para ver o amor da nossa vida.


Um pequeno interlúdio antes de passar