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Já nasci com as pedras

Tenho 23 anos, não vi o grande Benfica europeu dos anos 60 nem me lembro perfeitamente da seca de títulos nacionais que durou 11 anos. Das primeiras imagens claras que tenho do Sport Lisboa e Benfica é do festejo de um sofrido título ganho no Porto, no terreno do Boavista que terminaria esse tal ciclo. Não senti na pele os tempos onde “nem sequer tínhamos as pedras da calçada”, eu sempre tive as pedras, contudo, durante 23 anos de sócio e uns 17 de idas ao estádio, senti na pele aquilo que é o Benfica. Não senti o projeto financeiro ou desportivo, senti o Benfica. A imensa massa de povo, barulho, assobios, cânticos, risos e choro (na maioria das vezes tudo ao mesmo tempo) que empurrava as equipas. Ainda vai no início, mas tenho a noção que esta doença já não vai melhorar.

Apesar de novo, sempre me interessei muito pelos primórdios do futebol em Portugal, especialmente pelo início e história do nosso Benfica e graças a vários livros, grandes benfiquistas e alguns projetos independentes lá fui revisitando a nossa história. Grandes jogadores, glórias e acima de tudo valores. Valores esses que nos distinguiam dos demais e que não só nos deram a capacidade de resistir a imensos obstáculos durante a história como reuniram sobre si uma quantidade enorme e inexplicável de adeptos de todas as partes de Portugal. Teremos muitas equipas, muitas modalidades, muitas vitórias e derrotas, mas o clube só é um. A espinha dorsal, a identidade e o movimento é só um, desde 1904.


Tenho de concordar que não podemos ganhar sempre (apesar de sempre querermos) e que mesmo que não queiramos aceitar às vezes a vida “é o que é”. Mas não há treinador, jogador, adepto ou presidente que durem para sempre. Aquilo que dura para sempre é o Benfica, o Benfiquismo. Por favor não o deixem fraquejar.


No momento atual e provavelmente nos últimos 5 ou 6 anos o que sinto é um Benfiquismo de ocasião, esmorecido ou que as pessoas usam como uma carta para uma discussão idiota qualquer. O inferno da luz já só se vê de tempos em tempos e geralmente dura uns bons 20 minutos. A exigência para com os jogadores transformou-se na criação de uma bolha onde a interação entre os jogadores e adeptos é feita com distanciamento e frieza, uma porta que quando se abre é em sessões de autógrafos ou num vídeo numa plataforma paga. A interação do clube com os adeptos é 90% de cariz comercial e até os espaços da catedral estão cada vez mais cheios de percentagens de desconto, marcas de restaurantes, roupa e “vantagens” para quem tem um cartão com uma foto tipo passe.


É possível (e até provável) que eu esteja a ver tudo de forma algo exagerada e apesar de tudo, consigo compreender o valor da marca e do aspeto financeiro essencial para a saúde do clube. Contudo, eu não quero falar do “projeto financeiro”, das vendas históricas ou da construção de infraestruturas para definir o nosso Benfica. Não quero falar de “vantagens Red Power”, camarotes ou um novo espaço “Portugália” (passo a publicidade) quando falo da minha Catedral. Quero sim falar “daquele golo”, “daquela vez que abracei um desconhecido”, “daquele passe incrível”, “daquela viagem europeia”, “daquelas vitórias”.


De que vale fazer quilómetros se quando perdemos o jogo recebemos um aplauso do meio campo? De que vale vender todos os jogadores formados no Benfica se o ADN está a morrer? De que vale ter 60 mil adeptos no estádio se há um silêncio atroz? De que vale estarmos na europa das modalidades se os pavilhões estiverem vazios? Atualmente, eu vejo jogadores e funcionários vestidos de vermelho e com um símbolo que eu reconheço, mas atualmente não o vejo. Não vejo ali, o Sport Lisboa e Benfica.


Texto enviado pelo benfiquista Tiago Cabrita.

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