leaderboard.gif

O Sócio Emancipado

Atualizado: Fev 7


(projecto de to.colante - nunca impresso)



"Em suma, a vitória e a derrota têm um preço para as pessoas comuns. A melhor coisa para nós é se não houver muita politiquice.”

Bertolt Brecht, Mãe Coragem e os Seus Filhos



Escrita em 1939, na ressaca da invasão alemã à Polónia, "Mutter Courage und ihre Kinder" é uma peça de teatro de Bertolt Brecht, um poeta e dramaturgo alemão. Sendo uma das nove peças escritas durante este período pelo autor, num acto de resistência pessoal contra a ascensão do Fascismo e do Nazismo, é comummente considerada uma das peças teatrais mais influentes do séc. XX e talvez a peça teatral anti-guerra por excelência.


Brecht, erroneamente afamado pela citação "Primeiro levaram os comunistas, eu calei-me, porque não era comunista. Quando levaram os sociais-democratas, eu calei-me, porque não era social-democrata. Quando levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque não era judeu. Quando me levaram, já não havia quem protestasse" (é na verdade da autoria de um pastor luterano chamado Martin Niemöller, embora Brecht tenha proferido uma citação semelhante inspirada em Niemöller), é um dos mais mais influentes dramaturgos de sempre, tendo revolucionado a dramaturgia teatral, reflectindo muito no papel dos espectadores nas peças de teatro até então.


Mais do que agentes meramente passivos e reactivos (aos espectadores era pedido que se sentassem meramente na assistência e fossem guiados pela peça), Brecht - que considerava que o teatro não era um mero espelho da realidade mas si uma importante ferramenta para poder alterar a mesma, queria que os espectadores fossem provocados e obrigados a reflectirem sobre a sua própria condição (as peças abordariam temas comuns ao dia-a-dia de cada um), obrigando-os a criar a suas próprias conclusões do que tinha acabado de assistir, confrontando-se desta forma com os seus medos, erros, escolhas e tomadas de decisão, entre muitas outras coisas.


O teatro, seria assim uma assembleia onde as pessoas comuns ficariam cientes da sua condição e capacitadas para discutir os seus próprios interesses.


De forma a conseguir este sobressalto, ou seja, esta capacidade de transformar a audiência, passando a mesma de "voyeurs" passivos a espectadores activos, ou seja com consciência social e prontos a agir (independentemente da sua literacia ou status), Brecht criou um conjunto de técnicas, muito visíveis nas suas peças (em especial na referida "Mãe Coragem"), algo que designou de "Verfremdungseffekt". Efeito de distanciamento ou alienação, aqui numa tradução livre.


Pode parecer contra-senso face às linhas que foram até aqui escritas, mas de forma a envolver o espectador, tornando-o activo, pretendia-se que este mesmo espectador não se deixasse levar pela acção em palco, daí a alienação ou o distanciamento referido.





Apenas um pequeno parênteses.

Recordar que o termo teatro vem do grego "theaomai" (θεάομαι) que significa olhar com atenção, perceber, contemplar. O próprio Aristóteles, (início de novo parênteses dentro do parênteses) a quem devemos a primeira obra de teoria teatral ocidental ("Poética", que estima-se que reflectida e escrita por volta de 335 A.C.), o pensador que estabeleceu alguns dos cânones desta arte até aos dias de hoje - entre muitas importantes contribuições estabeleceu e descreveu as três unidades essenciais em teatro clássico: tempo - lugar - acção ou criou o conceito de catarse (do grego "kátharsis" [κάϑαρσις] ou purificação numa tradução livre), um estado que seria atingido por meio de uma descarga emocional provocada por um trauma num decurso de um drama (fecho de parênteses), criticava imenso os seus contemporâneos pelo excessivo valor dado à performance dos actores em detrimento do enredo e da mensagem ou emoções que a peça pretenderia despertar.

Para o grego, num drama (género que considerava ser superior à comédia ou à poesia épica), o enredo era figura central e não poderia advir dos personagens, mas, pelo contrário, este mesmo enredo testaria os personagens (que deveriam ter natureza mista - não totalmente herói, não totalmente vilão) através da elaboração do destino - o chamado "destino cego".


O que é certo, é que a maioria das técnicas teatrais empregues até às primeiras décadas do séc. XX (regressando a Brecht), levavam a que o espectador absorvesse de forma passiva as emoções que lhe eram dadas ou admirasse a performance que lhe era oferecida pelos actores. O que o alemão procurava era que a plateia passasse por cima das emoções transmitidas pelo actor (daí a alienação ou distanciamento pretendido) e se colocasse no centro da acção, pensando esta mesma acção de forma crítica, reflectindo sobre a sua própria vida, produzindo desta forma uma ignição para uma tomada de decisão na sua vida real.

Brecht pretendia um teatro transformador e não meramente uma peça estética com um intuito de ser admirada.

Teatro enquanto catalisador para uma mudança na sociedade.


Algo que é compartilhado, por um dos maiores pensadores ocidentais do último século, Jacques Rancière. Tal como Brecht (aliás usando o trabalho deste e do poeta e dramaturgo francês Antonin Artaud - que no seu livro "Le Théâtre et son Double" defende que não existiam actores e plateia, sendo todos parte do processo ao mesmo tempo), Rancière também coloca ênfase no papel transformador que a arte poderá ter na sociedade rejeitando (tal como Kant fizera séculos antes) a noção elitista muito presente em movimentos artísticos como o modernismo, o pós-modernismo ou mesmo o vanguardismo. Para este filósofo franco-argelino, a arte tem uma função altamente "democratizante" (não sei se este vocábulo existe, daí as aspas), devendo a mesma estar disponível e ser compreendida por todos independentemente da sua posição social ou do seu grau de literacia.


Daí que na sua concepção, a arte seja importante não só pelo prazer estético que provoca, mas igualmente - e o que mais importa realçar, seja vital pela maneira como pode ser uma importante ferramenta de consciencialização social que em última instância pode levar a alterações na sociedade (na linha do pensamento de Brecht).


Força motriz na criatividade para este pensador, a imaginação é a chave para a criação de arte, adquirindo um papel fundamental. Ao imaginar, ao tentar criar algo diferente, ao tentar colocar-se noutra condição que não a sua, ao pensar e ao sonhar, qualquer um está a desafiar o status quo e a ordem onde vive.

Daí que para Rancière, mesmo a pessoa mais iletrada, tenha de ter o direito a criar. Ao fazer isso, estará a transcender a sua vida rotineira, a quebrar os grilhões que o acorrentam, sendo ao longo do processo forçado a pensar sobre a sua condição, podendo projectar uma outra realidade, o que em última instância criará as bases para uma mudança efectiva. Um iletrado que ouse criar um verso usando a sua imaginação, é para Rancière, mais perigoso que um revolucionário que meramente repete uma quadra de uma canção revolucionária.

A arte, mais que tudo, deveria ter uma mensagem e deveria inspirar mudança.


No seu livro "O Espectador Emancipado" (edição Orfeu Negro), e usando o exemplo do teatro (que assumia como sendo reflexo da sociedade), partindo do seu grande paradoxo (não há teatro sem espectadores), Rancière observa que o papel normal do espectador de uma normal peça teatral era até então estar duplamente separado quer da capacidade de saber quer da capacidade de agir. É precisamente contra esta passividade que o franco-argelino quer acordar a audiência, capacitando-a a agir e a interagir com a acção que decorre em palco. "É na base deste poder activo que um novo teatro deverá ser criado, ou melhor, o teatro deverá restaurar a sua verdadeira virtude, até à sua verdadeira essência, do qual os espectáculos que têm actualmente este nome, não oferecem nada além de uma versão degradada. O que é necessário é um teatro sem espectadores, onde todos na audiência aprendem! (tradução livre)". Partindo das ideias de Platão sobre o teatro e sobre o papel dos espectadores, Rancière acha que a audiência deverá ocupar a posição do coro (das já referidas tragédias clássicas gregas), e tal como este mesmo coro, poderá actuar como um inspector que desvenda a trama em palco, tornado-se num participante activo na resolução da história.





Muitos (dos muito poucos que aguentaram chegar até esta parte deste longo texto - não os censuro) estranharão nesta altura o facto de estar, neste espaço, a falar de teatro ou de teorias filosóficas de Estética e Política (com especial enfoque no teatro).

Mas se pensarmos bem, há muitos pontos de contacto entre o desporto (em especial o futebol) e o teatro. Há toda uma dramatologia em volta do jogo.


Mickäel Correia (autor de "Une Histoire Populaire du Football" - livro recém editado em português também pela Orfeu Negro) escreve a este propósito que "enquanto espectáculo, o futebol retira a sua popularidade da sua força dramatúrgica. Cada jogo respeita os princípios do teatro clássico: unidade de lugar (o campo), de tempo (duração da partida) e de acção (a totalidade do jogo decorre diante do público). Toda a partida é uma intriga com forte intensidade dramática, cujo desfecho se escreve debaixo do olhar atento dos espectadores à circulação de uma bola disputada por duas equipas. Durante uma partida, é possível passar, em escassos segundos, da alegria à decepção, do medo à esperança, da raiva ao sentimento de injustiça."


Valdano, um dos grandes magos literários do jogo, descreve o futebol como "a emoção da incerteza e a possibilidade de prazer". Tal como o teatro. Daí que haja muitas ligações entre estes dois mundos, que à partida parecem tão desfasados. Não é à toa que Bobby Charlton designou Old Trafford como o "Teatro do Sonhos", ou que o Albert Camus tenha uma vez dito que o pouco que sabia sobre moralidade, tê-lo-ia aprendido em campos de futebol e palcos de teatro.

Por exemplo, a acção desenrola-se em actos (no caso do futebol em partes).

O futebol tal como o teatro (recordando o grande paradoxo deste) alimenta-se de duas dimensões: a que ocorre no terreno de jogo (o "palco") e a que ocorre nas bancadas (a "plateia").

Há igualmente o já referido conceito aristotélico de tempo (90 minutos), lugar (estádio) e acção (jogo).

O próprio léxico usado no futebol é emprestado do teatro. Os jogadores pisam "o palco". Há golos e reviravoltas "ao cair do pano".


Na Suécia existe um pequeno clube (Östersunds FK) que usava a arte para promover a união de grupo. O plantel deste pequeno clube do norte da Suécia era obrigado, entre outras coisas, a ter que fazer uma peça teatral por ano (e com resultados interessantes, porque com apenas 24 anos de existência, o clube já ganhou uma Taça da Suécia e passou uma fase de grupos na Europa League).

Numa latitude um pouco mais abaixo, na afamada cidade portuária de Hamburgo, o "kult club" dos piratas de St. Pauli, teve entre 2002 e 2010 um presidente que era um produtor teatral (e fiel aos principios inclusivos do clube, o primeiro presidente abertamente homossexual de um clube profissional de futebol): Corny Littmann.

Na própria Liga Portuguesa há um clube (por sinal com 20 votos nas eleições no nosso clube dado que é uma filial nossa) cujo nome descende daquele que é considerado o pai do teatro português: Gil Vicente.

Na nossa casa, Félix Bermudes, um dos importantes nomes na nossa história, fosse como atleta, mais tarde como presidente (por duas vezes), autor do epíteto tantas vezes dado ao nosso clube (Glorioso), assim como o criador e autor do nome pelo qual hoje choramos e gritamos - Sport Lisboa e Benfica (aquando da junção em 1908 entre o Sport Lisboa e o Grupo Sport de Benfica), compositor do hino do clube (por altura das Bodas de Prata do mesmo) o mais tarde proibido "Avante p'lo Benfica!", foi um destacado dramaturgo e autor de inúmeras guiões e peças teatrais (o afamado "Leão da Estrela", depois adaptado ao cinema, é de sua co-autoria).


Expressões e conceitos teatrais foram importados para o jogo.

Em Dezembro de 84, após uma pesada derrota em Bruxelas frente ao Anderlecht na 1ªmão da 3ªronda da então Taça UEFA, Valdano (sempre ele), aqui ainda no papel de jogador do Real Madrid, roubava a expressão "el miedo escénico" ao colombiano Gabriel García Marquez, e proclamava num tom profético que "o rival irá sofrer do medo cénico do Bernabéu". O que ocorreu no jogo da segunda mão foi uma "remontada" incrível do Real por 6-1, cravando assim a expressão nos anais da história do jogo com o significado (e citando novamente o argentino) "temor de um jogador ao entrar em campo num grande palco diante da incerteza de realizar uma péssima exibição e cair no ridículo".


E mais exemplos poderiam ser usados.



(foto via slbenfica.pt)


Mas não é à toa que falei nesta questão do "medo cénico" e há no léxico benfiquista um palavrão de dificuldade semelhante ao termo brechtiano "Verfremdungseffekt" (impossível de pronunciar no meu alemão inexistente).


Falo concretamente de "Assembleia Geral do Clube".


Antes de prosseguir e não querendo parecer totalitário ou redutor, como já muitas vezes escrevi e disse, reafirmo que cada um é livre de viver o clube à sua maneira.

Seja na bancada, seja no tipo de participação que tenham ou não na vida do clube, seja na dimensão onde concebem que o Benfica esteja presente na sua vossa vida. Não há maneira correcta ou errada.

Essa escolha é livre e concebo que não haja uma "praxis" única, desde que respeitando os valores pelo qual o clube sempre se pautou e norteou.


Dito isto e respeitando as razões de cada um, não deixa de ser para mim incompreensível a fraca participação por parte dos sócios na vida do clube, em especial nas Assembleias Gerais (AG's).


Talvez não se perceba a importância das mesmas na vida interna de um clube de sócios, como é o nosso. A esmagadora maioria da massa associativa demite-se de ter ou assumir qualquer participação neste sentido (ou qualquer outro tipo de participação).

Uma outra pequena porção, devido à distância ou à logística (devido ao local onde moram, horário em que estas reuniões são marcadas, devido a demais impedimentos de agenda pessoal ou profissional) não podem estar presentes.

Há igualmente um bom número de pessoas que apenas se lembra da AG quando a bola não entra, estando apenas presente quando os resultados da equipa de futebol (que é mola do clube) não são favoráveis. Haverá certamente outros que não estarão presentes por outras razões, que conforme já disse em cima, certamente serão válidas no seu entender.


Sempre concebi que o Benfica será sempre aquilo que os Benfiquistas e associados do mesmo quiserem que ele seja.


Não resisto no entanto a dizer que talvez já se tenha perdido, na memória histórica, os bons exemplos de sugestões e intervenções de sócios (dadas ou não em Assembleia), que ajudaram o clube em alturas muito difíceis da sua história.

Por exemplo, em 1907, com a saída de muitos jogadores da 1ªcategoria do Sport Lisboa para o recém-formado Sporting Clube de Portugal, só o engenho e resiliência de pessoas como Cosme Damião, o já referido Félix Bermudes e a sugestão de Marcolino de Bragança (um nome que quase nunca é falado e que julgo importante relembrar) permitiram a continuação de um clube que se transformou no gigante que conhecemos hoje.


Nestes tempos em se fala mais da marca Benfica do que do este conceito (para alguns antiquado) de clube de sócios, talvez não se perceba as AG's como um dos poucos espaços ainda existentes (talvez o único) onde é possível haver diálogo entre os sócios e os três órgãos directivos no clube.

Um espaço onde todo o staff desses três órgãos está à disposição de um simples sócio, que aí pode explanar as suas dúvidas, preocupações, sugestões de forma pública perante todos os restantes membros do clube.


A maneira paternalista como as direcções dos clubes tratam os seus sócios, que na prática são tratados como meros clientes, ajuda a este distanciamento.


Mas creio que parte do problema consiste na falta de percepção sobre o poder das AG's e sobre o poder de intervenção neste espaço.


Meto novo passe para o Valdano e recupero o seu "medo cénico". Não é fácil subir aquele estrato e discursar perante todos.


Eu próprio, (como muitos sabem) a parte gaga d'O Brinco (podcast cá da casa), teria muita dificuldade em subir ao palanque e discursar perante a Assembleia. Portanto, imagino o quão difícil é enfrentar esse medo. Mas não descarto a hipótese de o poder vir a fazer, caso ache que venha a ser necessário, isto em contexto de AG.

Assim como tento arranjar outras formas de participação activa, seja através de podcasts, seja através de textos como este ou seja mesmo por via de produção de stickers ("mística colante" como gosto de designar os meus to.colantes). Tal como outros terão as suas próprias formas de participação que acharão certamente úteis.

Como é óbvio, não tem tudo que cingir-se ao formalismo de uma AG.


Há todo um mundo possível e acreditem que a instituição ficaria muito mais rica caso a participação dos seus sócios e simpatizantes não se cingisse à passividade de um desabafo qualquer numa rede social (como é norma hoje em dia).

Diria mesmo que os sócios têm um "medo cénico" de intervir na vida interna do clube que são associados.


Mas volto ao "Verfremdungseffekt" que pretendo aqui abordar: as AG's e a sua efectividade, isto olhando à alienação e passividade existente no Benfica enquanto clube de associados.


Estas (AG's) deixaram de ser tidas em conta por muitos devido à percepção de que as mesmas tornaram-se no tipo de construções cénicas que Brecht pretendia alterar. Como que de um teatro (no sentido popular e desvirtualizado do termo conforme denunciava Rancière) se tratasse.

Senão vejamos: como que seguindo um guião, alguém da direcção sobe ao palanque numa primeira fase debitando uma linguagem por vezes indecifrável, muitas vezes incompleta, dando razão à crítica feita pelo franco-argelino sobre a elitização da mensagem veiculada pelas elites (neste caso, usando uma linguagem quase sempre empresarial e economicista que fica restrita a pequeno grupo de pessoas que a compreende - no folheto da AG de junho vinham siglas como CRM sem a respectiva descrição só para dar um pequeno exemplo), parecendo estas assembleias seguir um enredo cujo desfecho parece já estar escrito, independentemente das dúvidas ou da vontade dos associados presentes na AG.


Um enredo no qual muitas vezes os sócios estão completamente impedidos de reescrever ou alterar. Como se fossem uma plateia passiva que está lá meramente para validar um simulacro de democracia.


Outras vezes, quando há uma maior participação dos sócios, as suas dúvidas ou questões são por vezes olimpicamente ignoradas.

Isto quando não ocorrem outras situações. Uma das últimas AG's pré-