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Um dia no Estádio

Ir ao Estádio da Luz é muito mais do que ir ver futebol. É que boa parte do espectáculo passa-se nas bancadas, no meio daquilo que Gabriel Alves definiu como a moldura humana, aquele ambiente de circo romano onde o povo se encontra para descarregar as agruras do dia-a-dia e mandar as suas bojardas de fim de semana. No Terceiro Anel sentimo-nos em casa, sobretudo se a nossa casa cheirar a cerveja e arroto e toda a gente berrar uns com os outros, entre outras coisas que definem um lar feliz.

Na grande família do Estádio da Luz encontram-se pessoas que se entregam a uma mesma comunhão pondo de lado as suas diferenças, personagens ímpares e invulgares que se sentam ao lado de outras absolutamente normais.

O treinador de bancada

O verdadeiro treinador de bancada é normalmente um gajo com razoável bom senso, que tenta fazer valer as suas opiniões técnico-tácticas gritando indicações para o treinador durante os 90 minutos. Quando o Benfica está a perder, ele grita pelo Mantorras. Quando o Benfica está a ganhar, ele grita pelo Mantorras. O treinador de bancada nunca será um treinador a sério, porque lhe falta a originalidade e ousadia de ir para além do senso comum, sendo incapaz de rasgos como meter o Carlitos a titular contra o Sporting ou insistir no Michael Thomas como trinco de marcação.

O velho rezingão

O velho rezingão é o adepto jurássico que se lembra de ir ver jogos ao campo da Amoreira e de jogar às cartas com o Borges Coutinho. Fiel ao seu Benfica, assiste aos jogos com um misto de nostalgia e sofrimento, lamentando eternamente o Eusébio já não poder calçar as chuteiras e entrar em campo. Para o velho rezingão, não há nada como os bons velhos tempos do Coluna e do Jaime Graça, lateral direito como o Simões ou ponta-de-lança como o Torres. Parco em elogios às equipas do Benfica pós-anos 70, é difícil arrancar-lhe um sorriso durante o jogo, mas ele lá continua a ir todos os Domingos ao estádio para contar à malta como é que era.

O puto e o pai

A educação de uma criança faz-se destes momentos de cumplicidade entre pai e filho que só uma ida à bola proporciona. Vestido a rigor de boné e cachecol e com uma bandeira orgulhosamente hasteada na mão direita, o puto começa a gostar de futebol, aprende a saborear um bom courato e ouve os primeiros palavrões. Durante os jogos o puto não para de fazer perguntas sobre o fora-de-jogo e os nomes dos jogadores para desespero do pai, que volta e meia lhe enfia um tabefe para que o deixe sossegado a beber a sua Sagres. Mas lá fazem as pazes quando o puto diz “ó pai, o árbitro é filho da puta, não é?”, ao que o progenitor não consegue disfarçar uma pequena lágrima de orgulho.

O gajo-que-sai-mais-cedo

O gajo-que-sai-mais-cedo odeia trânsito, por isso chega três horas antes do jogo para ter lugar perto do Estádio e fazer a sua voltinha pela loja do Benfica. Como todos os adeptos, começa a ficar nervoso perto do final do jogo, não porque o jogo continua empatado e não há maneira de marcarmos um golo, mas porque “a esta hora a segunda circular deve estar um espectáculo”. No fundo basta-lhe sair cinco minutos mais cedo para chegar num instante ao carro e ainda ouvir o fim do relato, sem confusões. O único momento infeliz na vida do gajo-que-sai-mais-cedo é quando vai a descer a escadaria e ouve um bruá enorme a toda a volta, enquanto o Luisão marca o golo decisivo que deu o campeonato ao Benfica.

O mediático

O mediático é o Che Guevara dos adeptos, um sindicalista que não falha uma Assembleia Geral e que vai aparecendo nos momentos importantes da vida do clube. Toda a gente o conhece, já o viu nos telejornais e na capa d’A Bola apesar de não lhe conhecer o nome. O Benfica ganha ao Porto nas Antas, e lá está “o Barbas” a estender a bandeira ao Eriksson no aeroporto e a rezar a meca, discute-se em assembleia o financiamento do novo estádio e lá está “o-gajo-do-bigode” a dizer umas barbaridades incompreensíveis e a acabar cada frase com “Vivó Benfica! Vivó Benfica! Vivó Benfica!”. É o sonho do adepto anónimo.

O gajo-contra-o-mundo

O gajo-contra-o-mundo já está irritado antes do jogo começar. Anti-social por natureza, ele vem ao estádio para descarregar a sua raiva e insultar quem lhe aparecer à frente. Apesar de ser do Benfica, passa o jogo a chamar nomes aos jogadores e a incentivar a equipa contrária a marcar um golo, “para ver se aprendem a jogar à bola, seus c**** do c*******”. Se o Geovanni marca um golo no último minuto, deixa-se ficar sentado e diz “’tava a ver que falhavas, meu f**** da p****”.

O cómico

O cómico é um animal de palco, e o seu palco é o Terceiro Anel. Mais interessado em soltar umas gargalhadas do que em ver a sua equipa marcar golos, vai soltando umas piadas de caserna e animando a malta à volta. O cómico tem uma cultura acima da média e faz por isso comentários mais refinados sobre a prestação da equipa, como “Artur Jorge e se fosses mas é escrever poesia prá Sibéria”, “Carlitos troca as chuteiras” ou “ó Nuno Gomes vai prá Ismérnia!”.

A velhinha-no-carro

A velhinha-no-carro não é vista normalmente nas bancadas porque passa o jogo à espera do marido no carro, já que prefere ficar no sossego do Citroën BX a recuperar o atraso no crochet e fazer uns quantos Sudokus. É o exemplo perfeito da lealdade das mulheres à antiga, e a prova de como é bonito um casal partilhar um hobby em comum.

(Como é lindo o meu Benfica!)


▶ Texto enviado pelo benfiquista João Vale. [texto escrito em 2005]

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