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#1 - Anatomia de um Sticker: de Hampden Park para as paredes da Luz, com Amesterdão no pensamento.

Atualizado: Mai 3


CITIUS - ALTIUS - FORTIUS

"Mais Rápido, Mais Alto, Mais Forte"

O lema que Pierre de Coubertin, fundador do movimento olímpico moderno, proferiu em junho de 1894, na antecâmara dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna (Atenas 1896). O lema que Coubertin tomou de "empréstimo" de um amigo à época, o pedagogo e frade dominicano Henri Didon. O lema que encontramos nas paredes de muitos estádios um pouco por todo o mundo. Como o existente no pitoresco bairro de Amsterdam Oud-Zuid. Ou no Sul Velho de Amesterdão (aqui em tradução livre).


Este estádio, uma obra interessante da Escola de Arquitectura de Amesterdão (há quem chame a este estilo Brick Expressionism ou Expressionismo de Tijolo, novamente numa tradução livre), foi projectado por Jan Wils e construído a 1927 para a Olimpíada de Amesterdão em 1928. Esta edição dos Jogos Olímpicos, ficaria conhecida, entre muitas coisas, por ter sido a primeira a ter uma chama olímpica a arder na imponente Torre da Maratona que ladeia o estádio (durante muitos anos chamada de "cinzeiro dos pilotos da KLM", pelos habitantes locais). Uma edição olímpica que consagrou, no futebol, o Uruguai como bicampeão olímpico. Anos mais tarde, já com um segundo anel construído (demolido recentemente), uma chama imensa arderia novamente e uma outra equipa vinda do Sul seria consagrada bicampeã. Neste caso da (na altura recente) Taça dos Clubes Campeões Europeus.


2 de maio de 1962 Há precisamente 58 anos atrás, o Sport Lisboa e Benfica confirmaria que a vitória em Berna, frente ao FC Barcelona na edição anterior, não tinha sido fruto do acaso. Pela frente um novo adversário espanhol, o grande Real Madrid, vencedor das cinco primeiras edições do torneio, uma equipa onde militava jogadores com a craveira de Di Stefano, Puskas, Gento, entre muitos outros. Pese vencedor na edição anterior, o Benfica partia para esta edição novamente com o estatuto de "underdog". Como que tendo que seguir à letra o lema olímpico para provar a sua grande valia. E o jogo não começou bem. Aos 23 minutos, o temível Puskas já tinha marcado dois (aos 17' e 23'), vantagem que seria anulada com boa resposta Benfica através dos tentos de José Águas (25') e Cavém (33'). O Major Galopante faria novamente das suas e colocaria o Real em vantagem, completando um hat-trick aos 38'. Ao intervalo, e segundo relatos recentes de António Simões (que se tornaria após essa partida no mais jovem campeão europeu sempre, algo que ainda acontece no momento que escrevo estas linhas), Béla Guttmann, fazendo uso das suas capacidades motivacionais, talvez inspirado no lema olímpico cravado nas paredes do estádio, assegurou que os seus jogadores eram mais rápidos, altos e fortes que uma equipa do Real que já mostrava sinais de cansaço. E assim foi. Mário Coluna (aos 53') repôs a igualdade a 3. E mais tarde, haveria uma verdadeira passagem de testemunho e um jovem Eusébio mostraria toda a sua mais valia, marcando um bis (aos 64' e aos 69') selando um 5-3 final que consagraria o Sport Lisboa e Benfica como bicampeão europeu e asseguraria o seu lugar no panteão dos maiores a nível europeu.


Em termos artísticos, seria de outro estádio com paredes de tijolo, e de outra final icónica, que apareceria a imagem usada para celebrar os bicampeões europeus em to.colante (ou um dos vários stickers que produzi sobre o tema, acima retratado). 18 de maio de 1960 Hampden Park, Glasgow. Real Madrid, após derrotar nas meias finais o eterno rival FC Barcelona, chegava aqui à sua quinta final consecutiva em cinco edições deste recente torneio. Desta vez a oposição provinha da ex-RFA (Alemanha Ocidental), que pese ainda não tivesse um campeonato nacional (a Bundesliga só seria formada em 1963), colocava aqui pela primeira vez uma equipa na final da principal competição da UEFA. Fruto da vitória na edição de 1959 do então campeonato alemão (baseado num sistema de ligas regionais), o Eintracht Frankfurt (que derrotou na final os rivais Kickers Offenbach do nosso amigo Markus Horn), ganha o direito a disputar a Taça dos Clubes Campeões Europeus e chega à final após uma impressionante semi-final contra o Glasgow Rangers (12-4 no cômputo geral). Hampden Park, inaugurado em 1923 (na altura o maior estádio do mundo em termos de capacidade - Maracanã veio destronar isso), era a Meca do futebol escocês. A casa dos amadores do Queens Park (só agora em 2020 é que abandonarão o estádio), em 1937, registava a lotação máxima de 149.415 espectadores num encontro entre Escócia e Inglaterra. Relatos da época indicam que mais 20.000 pessoas entraram sem pagar, não estando contabilizados nestes números. Nesta final de 1960, estima-se que uma lotação de 130.000 almas assistiram ao encontro. Nas bancadas nomes como um jovem Alex Ferguson, relataram anos mais tarde, que ficaram maravilhados com a fantástica prestação da equipa do Real Madrid, que venceu por 7-3 (poker de Puskas e hat-trick de Di Stefano) e conquista a quinta taça consecutiva. Para além do troféu, Real conquista algo mais. Sendo a primeira final europeia com transmissão televisiva continental, 70 milhões de pessoas assistem à consagração daquela super equipa (e pensar que a BBC comprou os direitos de transmissão a uma ainda amadora UEFA por umas míseras 8000£). Este jogo passaria ao estatuto de jogo icónico sendo retransmitido anos mais tarde vezes sem conta (em especial em Inglaterra), cimentando o Real como um dos maiores clubes europeus.


A imagem usada (no meu sticker) corresponde ao programa de jogo deste último encontro. De facto a SFA (federação escocesa) tinha na altura uma linha, que hoje designamos de retro, muito interessante com este tipo de ilustração para colorir os seus programas de jogo. Em termos de feitura de composição de imagem( afinal de contas, estou a fazer a "dissecação" de um sticker), socorri-me de um "header" da revista Benfica Ilustrado (uma publicação da época) e de uma imagem antiga do emblema. Pesquisei a fonte usada no lettering e alterei a frase que ilustrava o programa, de forma a homenagear os nossos bicampeões (com duas e não uma taça). A impressão foi feita em (etiqueta) vinil num tamanho 8 x 5 cm, tendo sido feitas 500 cópias, impressas em Agosto de 2018.


Regresso ao lema que Coubertin tomou de empréstimo de Didon. Depois de outras oito finais finais europeias perdidas, talvez esteja na hora de começarmos a pensar em repetir o feito de 61 e 62. Pelo menos tentar ir o mais longe de forma a honrar os ases que muito nos honraram no passado. Não é necessário ter mais dinheiro ou mais condições (embora ajude). Basta ser "mais rápido, mais alto, mais forte".

E se hoje em dia, esse sonho existe, deve-se muito ao que foi conseguido naquela tarde de 2 de maio de 1962.


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