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Alea jacta est



"A sorte foi lançada"


Frase proferida de forma não muito confiante por Júlio César, general e futuro ditador romano, a 10 de janeiro de 49 A.C.


Desafiando uma lei da então República Romana, que para preservar a unidade e estabilidade da República impedia os generais romanos de marcharem com as suas tropas sobre Roma, Júlio César decide furar a inviolabilidade da província de Itália (onde se situava Roma) e atravessa a fronteira imaginária do rio Rubicão com as tropas da sua muito temida 13ª Legião. Iniciava-se ali uma guerra civil que ditaria o fim da República e criaria as bases do futuro Império Romano, liderado pelo seu filho adoptivo Augusto.


Daqui em diante, "atravessar o Rubicão" passou a ser uma expressão que equivale a tomar uma decisão arriscada, sem um efectivo ponto de retorno.





Avancemos no tempo, igualmente para o mês de janeiro, neste caso de 2019 D.C., mais concretamente à noite de 3 de janeiro.

Num outro sítio, numa zona de fronteira*, cujo nome também acaba com o sufixo "-ão", neste caso Portimão.

(* não era à toa que durante a Monarquia o anterior nome do país fosse Reino de Portugal e dos Algarves).


Luís Filipe Vieira, líder máximo do Sport Lisboa e Benfica há então 15 anos, na sequência de mais uma derrota que colocava a equipa a sete pontos do então líder do campeonato e na ressaca de mais um falhanço europeu na Champions (um ano depois de uma campanha europeia vergonhosa, onde pela primeira vez um cabeça de série no sorteio da fase de grupos da Champions conseguiu o pecúlio de zero pontos), decide terminar laços com o na altura impopular Rui Vitória (pese a estima que tinha por ele), e lança os dados à sorte e coloca ao leme da equipa (numa primeira fase de forma provisória) o reservado treinador da equipa B do clube, Bruno Lage.


Tal como Júlio César, séculos antes, a decisão de "atravessar o Rubicão" não foi tomada de forma confiante. Vieira já a tinha ensaiado um mês antes, algo que não foi em frente devido a umas "luzes" nas palavras do próprio, em entrevista na altura. Ajudou não haver ninguém disponível para assumir a equipa no momento e o "leak" ter vindo a público sem que Vieira tivesse falado com o próprio Vitória.


Em abono da verdade, Vieira sempre teve uns "timmings" e uma noção de tempo muito própria.

Da mesma maneira que Júlio César criou o calendário juliano, Vieira criou o conceito de Benfica A.V. (antes de Vieira) e Benfica D.V. (depois de Vieira), faco assinalado entrevista após entrevista, onde umas pedras na calçada balizam o ano 0.


O que é certo é que naquela fria noite de 3 de janeiro, Vieira decidiu "atravessar Portimão".


11 Anos depois da saída de José António Camacho (a 9 de março de 2008, após um empate a 2 com a União de Leiria), um treinador deixava a equipa sem completar a época. A equipa parecia já fora do título. Estava fora da Taça e não se vislumbrava muito sucesso nas competições europeias, agora na Liga Europa. Havia toda uma segunda volta para jogar e o calendário era altamente desfavorável (com visitas à casa das equipas do restante Top 6 do campeonato).

Ao mesmo tempo, um dos seus parceiros de sueca predilectos, Jorge Jesus, então "exilado" na Arábia Saudita, tinha as negociações de renovação de contrato com o seu actual clube paradas, aparecendo todos os dias na comunicação social portuguesa.


Com todo este ambiente adverso, especulo que a ideia de Vieira (e digo o nome dele, porque transparece que o mesmo concentra em si, qual Júlio César, todas as decisões em relação ao futebol da equipa principal), seria ter um treinador que mantivesse o rumo, apostando em "prata da casa", fazendo os mínimos, enquanto esperava a vinda de um treinador de créditos mais firmados, com o seu "desejado" Jesus à cabeça.

A opção por Lage não foi ao acaso. O Seixal é a "menina dos olhos do presidente" e Lage era um treinador com longo historial na estrutura, profundo conhecedor da matéria prima existente e treinador de uma equipa B que dava boa conta de si e aonde maturavam as maiores "jóias" dessa estrutura. Seria sempre uma boa ponte para quem viesse, pois a sua posterior dispensa não seria entendida como falhanço (teria sempre o seu lugar na formação à sua espera) e enquanto isso não ocorria, Lage poderia dar espaço a jovens da formação na equipa principal de forma a potenciá-los, num resto de campeonato sem pressão de luta por objectivos.





Nem o benfiquista mais optimista preveu o que aconteceu nos meses seguintes.


Uma segunda volta perfeita e um título de campeão improvável em janeiro, com vitórias directas e convincentes sobre os rivais, uma campanha europeia interessante onde procurou lançar jovens e rodar a equipa principal, uma equipa transfigurada com um futebol atacante mais associativo e alegre (em especial nos meses iniciais), com a influência directa de jogadores jovens que conhecia bem, quer de jogadores anteriormente ostracizados (Samaris à cabeça). Associado a um discurso pausado, coerente e acima de tudo genuíno, falando de futebol acima de qualquer questiúncula, Lage soube agitar as águas, conquistando igualmente os adeptos nesta vertente comunicativa. Em termos de "negócio" transformou um futuro emprestado ao Marítimo numa venda de 120 M€ ao Atlético de Madrid e promoveu muitos jogadores da B que estão hoje na calha para futuras transferências milionárias.


Durante uns bons meses, Lage conseguiu o impensável: unanimidade no por norma cacofónico universo benfiquista. Odes e poemas foram proclamados. Até uma igreja foi erigida em seu nome. A equipa ia respondendo com resultados fora do normal (por exemplo um inacreditável 10-0) e tudo parecia finalmente fluir bem.


Em mais uma fuga para a frente, Vieira parecia ter conseguido novamente o Bingo perfeito: num aparente plano de recurso, tinha agora um treinador de projecto barato, rendimento desportivo e futuro prospecto de grande rendimento financeiro (como se veio a provar).


O que muitos pareciam se esquecer no meio desta euforia toda, era a relativa falta de experiência do treinador num contexto exigente como é o Benfica.

O Terceiro Anel não é conhecido pela sua paciência e este era um treinador que há uns meses era relativamente desconhecido de muitos e subitamente via-se no olho do furacão da atenção mediática benfiquista.

Depois, muitos não levaram em conta que, por muitas competências técnico-tácticas que uma pessoa demonstre ter, ser treinador é igualmente ter que ser um gestor de um grupo de homens, sendo necessário fazer um grande trabalho a nível de gestão de egos e hierarquias no balneário, sob pena de perder o grupo se descurada esta parte. E a normal relação paternal existente na formação, onde um treinador tem mais facilmente um ascendente sobre um jovem, pode não surtir o mesmo efeito em grupos mais maduros.

Na altura, a demonstração pública de liderança, não era a característica mais relevante apontada a Lage, contudo a ideia geral é que isso adviria com o tempo, no exercício do cargo.


Daí que em abril de 2019, em especial com a saída das competições europeias depois de uma vitória caseira por 4-2 na primeira mão, começam a aparecer as primeiras críticas.

Desde o fantástico jogo no Dragão em março desse ano, que o rendimento da equipa não era constante. A nível europeu, a rotação promovida ia causando dissabores na ronda frente a uma acessível Dínamo de Zagreb.

Mas levantavam-se principalmente preocupações sobre o facto da equipa não ter um sistema de jogo alternativo e estar muito dependente da mestria de dois jogadores (João Félix e Jonas, este último já a jogar em dores, depois de anos e anos a carregar a equipa). Claro que havia atenuantes e o facto do plantel não ter sido escolhido por Lage e não ter tido tempo para ensaiar alternativas contavam a seu favor. Mas as primeiras vozes críticas levantavam-se.





Veio a vitória no campeonato, saiu Félix por uma verba recorde, Jonas igualmente partiu (neste caso retirando-se em grande), fez-se um investimento forte (em especial na frente atacante com quase 37M€ gastos em dois jogadores) e a pré-época com vitória na International Champions Cup e a estrondosa vitória na Supertaça frente ao Sporting, parecia indiciar que os receios eram infundados. A sombra de Jesus também estava afastada, estando este agora empenhado numa campanha à frente do Flamengo no Brasil.

Até que veio a derrota caseira na terceira jornada frente ao Porto.


Mais do que uma derrota com um directo rival (que já tinha perdido 3 pontos de forma surpreendente na primeira jornada), foi a maneira como essa derrota foi consentida. Como se a equipa não tivesse antídoto para uma abordagem mais directa praticada por este Porto de Conceição. A lesão de Gabriel nas semanas antes e a dependência da equipa dele, assim como aparente falta de encaixe táctico para a contratação mais cara da época (Raúl de Tomás), e uma cega crença (em linha com desejos da direcção) de que do Seixal sairiam jogadores já prontos para o nível competitivo de uma equipa principal do Benfica (por exemplo, Tomás Tavares faz 4 jogos a titular na Champions tendo acumulado apenas 30 minutos de jogo na Liga Portuguesa) aliada à dispensa de jogadores com calejo competitivo (como Salvio ou afastamento de Samaris), começaram a semear uma série de dúvidas à capacidade de Lage em aguentar este barco.


O que é certo é que, mesmo com Vieira sempre a cortejar Jesus (isto já em janeiro e com Jesus disposto a voltar), mesmo com mais uma decepcionante campanha na Champions (e a Liga Europa conseguida num último fôlego), mesmo com as lesões que assolaram o plantel, ou mesmo com os rumores que saltaram cá para fora de desordem no balneário, depois da equipa ter vendido um jogador caro e claramente inadaptado (o já referido Raúl de Tomás) e ter conseguido reforçar uma zona do terreno carenciada com um jogador com algum renome internacional (Julian Weigl), Lage conseguiu chegar a 8 de fevereiro deste ano ao Dragão com sete pontos de vantagem e possibilidade, em caso de vitória, de alargar o fosso para 10.


Uma primeira volta demolidora (a nível de resultados e não tanto a nível exibicional), aliada a maus resultados dos adversários, descansavam a equipa para esta segunda volta. A final da Taça também foi garantida e a nível europeu a equipa preparava-se para uma difícil deslocação à Ucrânia, sendo que o sonho de ir longe era real. Noutro patamar, fruto da mega venda no Verão, o clube preparava-se para apresentar um dos melhores resultados financeiros de sempre na história do clube. Vieira tinha caminho aberto para uma reeleição tranquila.





A história recente do Benfica mostra que quando estamos em situações muito favoráveis, o clube (e aqui incluo massa adepta, estrutura, jogadores, etc.) tende a relaxar.

Rui Vitória na sua segunda época foi a Guimarães ganhar um jogo para a Taça da Liga com uma equipa de rotação, sobre o qual se escreveu que as duas melhores equipas em Portugal de então eram o Benfica e uma segunda linha desse Benfica.

Fomos campeões, mas com uma segunda volta penosa.


(Aproveitando o facto de ter referido Guimarães) Pimenta Machado uma vez disse que "no futebol, o que é verdade hoje poderá ser mentira amanhã". Nada mais certo.


Regressando a fevereiro deste ano, bastou uma derrota para todo este cenário favorável ser revertido.

A equipa perde esse jogo no Dragão e desde aí conta meramente com uma vitória sobre o Gil Vicente nas últimas 10 partidas disputadas (e uma eliminação europeia às mãos do Shakhtar). Pior, esta situação não foi travada pela paragem de calendário devido à pandemia, e somamos dois empates comprometedores desde a retoma. É preciso recuar 12 anos, ao tal período da saída de Camacho, para ver semelhante registo.


Ainda que o objectivo campeonato seja possível, não se vê a equipa com fulgor ou destreza para lutar por tal objectivo. As acções irresponsáveis de alguns (após o empate com o Tondela) não ajudaram, mas em campo as coisas não estão a fluir. E Lage, pese todo o crédito que tem e fez por merecer (e eu gosto dele), não parece ser o líder que a equipa precisa neste momento crítico - uma das dificuldades apontadas é essa incapacidade pública de demonstrar liderança, sendo que o problema pode igualmente ser nosso, pois nós enquanto adeptos, tendemos a valorizar mais figuras polarizadoras, coisa que o Lage não é.


Mas um dos factores (direi o principal) que poderá estar a pesar mais, é a autêntica "espada de Dâmocles" que sempre esteve sob a cabeça de Lage, mas que nesta altura crítica e com eleições no horizonte em outubro, estará com mais pressão sob a sua cabeça.

Vieira sabe e percebe a volatilidade dos adeptos face a resultados desportivos menos conseguidos, sendo que face à "eucaliptização" que fez na oposição credível que tinha à sua volta (por norma incluindo-os nas suas direcções), sabe que este seria dos poucos factores que fariam com que fosse derrotado.

E claro, nunca quererá colocar em risco a sua reeleição, ainda para mais com um treinador que nunca foi a sua primeira escolha e que os adeptos já começam a pedir a cabeça.


Até Júlio César, pese todo o poder que concentrou em si, acabou assassinado.





10 de junho do presente ano.

Benfica volta a perder pontos contra o Portimonense, consentindo um empate depois de uma primeira parte em bom plano.


Irá Vieira novamente "atravessar Portimão" voltando a lançar a sua sorte?



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