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[Texto] Até Tokyo | Antoine Launay

No vigésimo episódio do programa #Atétokyo​​ conversamos com Antoine Launay, atleta português que irá representar Portugal nos próximos jogos olímpicos na modalidade de Canoagem Slalom.


Esperemos que gostem, a porta de embarque está aberta!


BI: Quem é o Antoine Manuel Sylvain Quintal Launay?

AL: Sou um homem de 28 anos (feitos a 28 de junho). Filho de mãe madeirense e pai normando, sou um dos melhores atletas de Canoagem Slalom.


BI: Como surgiu a Canoagem na tua vida?

AL: A canoagem entrou na minha vida em 1999, quando estava de férias nas montanhas com a minha família. Tínhamos uns caiaques disponíveis no parque de campismo Lac de Serre-Ponçon, nos Alpes franceses, experimentei e adorei. Depois, quando voltei para casa, inscrevi-me num clube.


BI: O que passa pela tua cabeça quando estás a pagaiar? O que é que te faz gostar tanto da Canoagem mais propriamente do Slalom?

AL: Depende muito de onde eu remo. Por vezes é quase uma meditação, é tão calmo quando remo em lagos ou rios muito serenos, por exemplo. Outras vezes é a competição, é a adrenalina das ondas grandes. Nestes casos, a atenção tem de ser enorme para ficar acima da água e ter cuidado com o trajeto para ser rápido. O que eu prefiro são as águas bravas, mesmo gostando muito das duas práticas.


BI: Quando é que começaste a levar mais a sério a Canoagem? Os teus pais nunca tiveram a vontade de te colocar noutra modalidade ou atividade?

AL: Comecei a treinar muito em 2007, com 3 a 4 treinos por semana.

Já pratiquei muitos outros desportos e ainda hoje o faço. Comecei por andar de bicicleta, depois rugby, muito esqui e snowboard. Ainda hoje pratico corrida, musculação, natação e surf.


BI: Tendo tu nascido em França, como se dá a tua ligação a Portugal? Explica-nos todo o processo de naturalização.

AL: Nasci em França, em 1993, perto de Angoulême, com pais de duas nacionalidades diferentes. A minha mãe nasceu na ilha da Madeira e o meu pai na Normadie (Norte de França). Portanto, desde que nasci, sou 50% francês e 50% português.A única coisa que não sou metade-metade é na língua... porque sempre vivi em França. E com uma família numerosa (5 filhos) é muito difícil viajar, ainda mais para a Madeira, onde estão as minhas origens. Ou seja, na minha infância vim pouco a Portugal, apenas duas vezes.


BI: Antoine, explica a quem está mais longe das lides da Canoagem como irá ser a tua prova nos Jogos Olímpicos? Como se processa? Eliminatórias/Final? Quantas embarcações estão apuradas?

AL: É um percurso de águas brancas de cerca de 250 metros em linha reta, e irá realizar-se em Tóquio. Serão cerca de 25 portões para atravessar. Seis para subir em relação à corrente (assinalados a vermelho e branco) e os demais para descer (assinalados a verde e branco). Somos, por volta, de 25 no início, todos de nacionalidades diferentes porque há apenas um selecionado por país. Após duas rondas de qualificação obrigatórias (28 de julho), apenas 20 passam às semifinais. A semifinal acontecerá no dia 30 de julho, num novo percurso projetado, mas ainda com cerca de 25 portões, com seis pela frente. Após a meia final, apenas dez passam à última ronda. Na final, o pódio espera o grande vencedor. Um toque no portão representa 2 segundos de penalidade e uma porta perdida ou não cruzada inteiramente com a cabeça são 50 segundos de penalidade.


BI: Como é o teu dia a dia? Sentes falta de alguma coisa que não podes fazer por ser atleta de alta competição? Quantos treinos/horas de treino fazem por semana? Qual é o teu local de treino?


AL: Realmente, não tenho um dia normal, diria mais, não tenho semanas iguais, ora de maiores cargas, ora de maior clamor. Eu treino quase diariamente, duas a quatro vezes ao dia. Habitualmente são duas vezes de caiaque mais duas de outra atividade (ginásio, natação, corrida) além de outra preparação variada (física, mental, concentração, relaxamento).

O que mais sinto falta é de ficar com minha namorada, pois estou sempre longe de casa.

Na verdade, não tenho locais fixos de treino porque a Canoagem Slalom é muito particular e cada percurso tem a sua singularidade. Então tenho de treinar onde irão decorrer as competições seguintes, ou seja, estou sempre em movimento. Além disso, em Portugal não temos facilidade de treino em águas brancas, por isso estou muito raramente cá. Mais uma razão pela qual não estou a progredir com a aprendizagem do Português.


BI: Qual é o maior defeito e virtude do Antoine Launay? Que característica tua gostavas que um jovem que fosse agora para a Canoagem tivesse?

AL: O meu grande defeito é a irregularidade. Algumas coisas eu faço bem e, às vezes, muito bem mesmo, mas noutras vezes fico aquém. A minha maior qualidade? Eu diria que é a minha perseverança.

Uma qualidade importante para um jovem caiaque é a adaptabilidade. Ainda mais no mundo atual, com este vírus e esta pandemia. Mas já antes, um caiaque é alguém que se adapta ao movimento da água, que brinca com ela, que nunca a contraria porque a água e a natureza são sempre mais fortes do que nós.


BI: Qual foi o teu primeiro troféu na modalidade? Elege um top 5 das melhores provas na tua carreira até ao momento? Como decorreu o teu apuramento para estes Jogos Olímpicos?

AL: O primeiro troféu? Eu ainda era muito jovem, devia ter cinco anos, era o mais novo a pedalar 25 quilómetros num percurso, e foi com meu pai.

Os meus cinco melhores resultados são 7.º no Campeonato do Mundo, em 2019; 10.º no circuito da Copa do Mundo, também em 2019; 13.º no Campeonato Europeu, em 2021; tricampeão de Portugal; e bicampeão de França.


BI: És atleta do Darque Kayak Clube de Viana do Castelo. Em que medida é que o teu clube te apoia? Tens algum tipo de patrocinador que te ajude? Trabalhas a questão mental/psicológica com algum psicólogo?

AL: O meu clube acompanha-me diariamente com mensagens, com muitos apoios em logística e organização. É o clube mais formidável possível quando volto ao país. Sou muito bem recebido e as instalações são as melhores que já vi. A única desvantagem é a falta de curso com corredeiras. Espero que se venha a tornar o melhor clube da Europa, a par com o de Praga, sendo que faz muito frio e chuva em Praga.

Tenho apenas um patrocinador, é própria cidade de Viana do Castelo. Tenho muito orgulho em representar esta cidade e Portugal além-fronteiras. É fácil divulgar uma cidade tão bonita. Todos aqueles a quem recomendei a cidade assumem que lhes dei bons conselhos. Há mesmo uma família francesa, minha conhecida, que se mudou para Viana durante o confinamento. Agora, vou tentar fazer brilhar Viana do Castelo em Tóquio.

Sempre tive apoio de um psicólogo e, ainda hoje, é essencial e muito importante no meu equilíbrio, para que possa viver ao máximo com o desgaste que tenho.


BI: Tens algum ídolo ou referência no Desporto ou na tua modalidade/especialidade?

AL: Gosto muito do Usain Bolt, do seu lado showman.

No meu desporto, sempre tive muita admiração pelo Tony Estanguet pelo seu planeamento, o que é impressionante.


BI: Em março de 2020, fomos atingidos pela pandemia da COVID19. Mais tarde, percebeu-se que os Jogos Olímpicos não iriam acontecer em 2020. O que sentiste? O teu planeamento foi por água abaixo? Apesar disso, tens alguma história engraçada no confinamento?


AL: Momento terrível e, ao mesmo tempo, oportunidade para um novo começo e para ter vontade de aprender coisas novas. Eu amo aprender e essa pandemia ensinou-me a adaptar-me ainda mais. Sim, todos os meus planos, todo o meu orçamento e um monte de coisas não deram certo, foi horrível. Mas foi igual em todo o mundo, então tínhamos que transformar isto em algo positivo. Havia que seguir em frente, procurar novos desafios, novas competições que certamente aconteceriam.

Também foram dois anos de confidência ou intimidade. Nunca vivi tanto tempo junto, nos mesmos lugares, com minha querida. Foi maravilhoso.

Comecei o crossfit durante o confinamento, e foi muito difícil porque ganhei muito peso e musculatura mudando as atividades, tive de fazer um pouco de perda de massa muscular para depois voltar a fazer canoagem.


BI: Quais são os objetivos reais para Tóquio?

AL: O meu objetivo é chegar à final, e farei para chegar ao pódio que tanto sonho desde pequeno.


BI: Qual a importância do teu treinador na tua carreira?

AL: A importância do treinador na minha carreira foi sempre a de aconselhar, a de aproveitar a sua sabedoria na tomada de decisões. Eles são pessoas reconfortantes e de enorme confiança. Vivi muitos anos sem treinador, dá para treinar e até competir sem treinador, mas, para mim, é fundamental ter esse recurso externo.


BI: Quais são os teus hobbies fora da competição? O que gostas de fazer?

AL: Adoro teatro, piano, ler e adoro ecologia, agricultura.

Amo e adoro fazer de tudo com minha parceira, sinto muitas saudades dela. Tudo que faço com ela é simplesmente lindo.


BI: Foste o primeiro atleta português a chegar a Tóquio. Qual é o sentimento? Porque foste tão cedo?

AL: O meu sentimento é de satisfação. Era difícil chegar tão cedo. Era difícil prever tudo, e difícil voltar ao Japão num período em que não estava previsto pelo TOKIO 2020. Tenho de agradecer à cidade de Oshu pela sua ajuda em todas estas etapas.

Fui tão cedo porque minha equipa médica aconselhou-me, e acho que foi uma ótima ideia. Para ultrapassar o jet lag o mais rápido possível, para me acostumar ao clima e comida. Enfim, se tenho de sair de casa para treinar e depois vou estar em Itália, Alemanha ou Japão, é melhor eu estar já aqui, onde as condições são ótimas.


O Benfica Independente agradece a disponibilidade de Antoine Launay para esta entrevista e tem a certeza que será uma competição onde muito honrará as nossas cores. Boa sorte, Antoine. Estamos no apoio!


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