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Não é distância, é Benfica! RCD Espanyol de Barcelona vs SL Benfica - Parte I

Nota: Estamos a meio de Setembro. Em condições normais, se tudo corresse bem, já estaríamos à beira de disputar o primeiro jogo europeu da nova edição da Champions League. A título pessoal, e consoante o sorteio, muito provavelmente já teria viagens marcadas para uma ou duas deslocações fora (como tem sido norma nos últimos anos).

Mas este não é um ano normal.

E a ausência de público e a grande limitação a viagens retiraram-me a possibilidade de fazer duas das coisas que mais gosto de fazer. Talvez para compensar isto (ou talvez não), resolvi publicar o texto inaugural de relatos das (já algumas) viagens que fiz para ver as papoilas saltitantes que tanto amo, dando impulso e obrigando a sair do papel um projeto, cujo nome é o título deste texto e cujo sítio pode ser encontrado aqui. Este travelogue está desde há anos (como diz o Sérgio Engrácia) "aqui preso no gavetão" , sendo que a declaração de intenções (escrita em 2017) - pode ser lida aqui.

Não esperem grande tratados literários, mas alerto desde já que estes relatos irão ter uma escrita algo autobiográfica (talvez não seja o caso de vários trechos nesta primeira viagem, tendo em conta os rascunhos que já escrevi), sendo que muitas vezes é interessante perceber que ao tentar relatar coisas que aconteceram há 13 anos (como é o caso desta primeira viagem), é natural que muito já se tenham perdido, ou que outras memórias tenham sido possivelmente fabricadas (a nossa memória tem essa estranha capacidade).

Prometo apenas tentar ser o mais fiel possível.

De forma a não ser (novamente) vencido pela preguiça, resolvi publicar este primeiro relato aqui neste espaço.

Agora serei moralmente obrigado a ter que escrever tudo.

Veremos se chego até ao fim.

Espero que gostem. E caso queiram, este meu novo espaço, está igualmente aberto para partilhar as vossas histórias. Afinal de contas, não "É distância. É Benfica!"



Antes do quilómetro 0


“Nothing behind me, everything ahead of me, as is ever so on the road.” Jack Kerouac, On the Road

Uma curva mais brusca acordou-me de um leve e intermitente sono.


De forma envergonhada limpei a baba que me pingava pelo queixo abaixo. Olhei para o relógio no telemóvel: eram duas da tarde na hora local.


"Fodasse..."


Um raio de luz que entrava pelo vidro do autocarro pelo qual visualizava os primeiros maciços graníticos dos Pirenéus.


"Falta ainda mais uma hora"


Levava já 16 horas na estrada atravessando a Ibéria de lés-a-lés desde Lisboa. Literalmente, passavam já 2/3 de um dia, desde que, sozinho, tinha subido a bordo de um autocarro na Estação do Oriente em Lisboa. Tendo em conta o tempo até aí gasto, era irrisória a hora em falta para chegar a Barcelona.


Estávamos em plena Semana Santa e o Benfica jogaria no dia seguinte a 1ª mão dos quartos de final da então Taça UEFA na cidade condal contra o RCD Espanyol de Barcelona.


Uma viagem marcada à última da hora por impulso, sem qualquer tipo de marcação de estadia ou local para pernoitar (numa das piores semanas do ano para se fazer isso numa já hiper turística Barcelona) e que representaria a minha primeira "transferta" internacional para ver as papoilas saltitantes que tanto amo.


Mas antes de avançar um pouco mais, convém rebobinar a cassete um pouco atrás, antes do quilómetro zero, e perceber as razões que me tinham levado a estar ali, naquele assento desconfortável de autocarro, a dormitar, com baba a me escorrer pelo queixo.

foto: https://about-spain.net/travel/map.htm


Conforme já escrevi na minha primeira declaração de intenções, nasci e cresci longe da Luz. No entanto embora a quase 1000 km de distância, estando na minha Madeira natal, sempre soube que o meu coração estava aqui. Daí que, quando com 18 anos vim para Lisboa estudar, esta foi uma oportunidade de ouro para estar bem mais perto do amor da minha vida (vá..um dos amores - é melhor escrever isto para não criar mau ambiente cá em casa).


Mas a Madeira de hoje em dia era um pouco diferente da de 2001. Assim como essa era diferente da de 1991. E que diferenças havia. Costumo sempre comparar as rápidas mudanças ocorridas na ilha com as igualmente ocorridas no cômputo do país desde a entrada na então CEE em 1986. Se as mudanças ocorridas em 20 anos até 2006 foram por demais evidentes no país, na Madeira estas ocorreram em especial num período mais curto de 10 anos desde 1996 em diante. Com todas as consequências positivas e negativas de terem ocorrido num curto espaço de tempo numa ilha pequena e conservadora por natureza.


Vivemos uma época em que a sociedade tende a catalogar tudo, pelo que lendo o ano de nascimento inscrito no meu cartão de cidadão, serei considerado um Xennial numa nova categorização surgida recentemente. Ou seja a geração encaixada entre a cínica Geração X e os mais optimistas Millenials. Confesso que não gosto muito destes rótulos, mas a caracterização desta "microgeração" que nasceu e cresceu em analógico e tornou-se adulta na era digital enquadra-se perfeitamente. Só para terem uma noção numa achega mais pessoal: só em 2001, ao perfazer 18 anos é que tive (e senti) necessidade de ter um telemóvel, algo que seria inconcebível hoje em dia.


Isto tudo para dizer que mesmo em 2001, havia diferenças entre estar no ambiente mais ou menos controlado da ilha e ver-se de repente na Grande Alface sem pais e com a tua malta da ilha em igual situação ao teu lado. Acho que "Erasmus-cá-dentro" era o termo bem escolhido para descrever esses tempos. E centrando a temática no motivo pelo qual escrevo estas linhas, é claro que o Benfica fazia parte deste mundo novo de experiências vividas.


E poder estar fisicamente presente "vivenciando" finalmente a imponência da antiga Catedral é algo quase impossível de descrever e qualquer tentativa de descrição que faça pecará por soar muito curta. Mas por muito que o meu coração me impelisse, a cabeça ou neste caso a realidade mostrava que as prioridades nos gastos tinham de ser outras. Pese a natural ajuda dos meus pais que na sua frugalidade ainda conseguiam ajudar o "caçula" da família na sua ida para a capital (oportunidade que os meus irmãos 16 e 15 anos mais velhos do que eu não tiveram - sim, fui um projecto "fora de tempo"), a verdade é que cedo tive que conjugar os estudos com pequenos trabalhos em "part-time" (aliás na senda do que já fazia na Madeira), o que me impediu de poder estar presente fisicamente mais frequentemente em solo sagrado (entenda-se na Catedral) durante estes primeiros anos. Dando um exemplo, ao contrário de muitos, os festejos da célebre cabeçada de Luisão foram feitos dentro de uma sala de "call center" tendo eu um auricular ligado a um pequeno aparelho sintonizado no relato do jogo, escondido debaixo de outro auricular de trabalho.


Gritei golo e ajoelhei-me na sala. Olhei para o lado e uma colega adepta do clube listado, vociferava dando murros na sua mesa.


Daqui que findo o curso, e agora com uma maior independência financeira a "solo" (pelo menos face à realidade anterior - ajudou ter mantido aquele estilo de vida pós universitário de contagem de tostões), aproveitando a boleia do afamado kit de sócio (na ressaca do título em 2005), pude finalmente tornar-me sócio e ter bilhete de época - na altura na Sagres Piso 3 superior.

"Por muitos desgostos que possamos ter, valores mais altos se levantam. O valor mais alto que se levanta em termos futebolísticos, chama-se Benfica." Mário Wilson

Muitos podem já nem se lembrar, mas um longo ocaso de títulos afectou o clube desde a fatídica final da Taça de Portugal ganha em 1996 até nova conquista da mesma competição em 2004, tendo igualmente o Jamor por cenário. Alguns frisam e bem que tal período negro pode ser ainda pouco mais longo, mediando o ocaso de títulos de campeão nacional entre 1994 e 2005.


Um calvário que alguém catalogou e bem de "Vietname Benfiquista".


Já muito foi escrito sobre "esse período", e contextualizando, para alguém nascido em 1983, isto representou um final de infância e uma adolescência inteira com inícios de época esperançosos a esfregar as mãos e a pensar que "agora é que era".


O problema (um dos...) eram os plantéis.


E os nomes das contratações revelam muito da qualidade apresentada nestes anos: Bossio (que indicou ao que vinha logo com um monumental frango no seu jogo de apresentação); Rojas (o homem que fazia sempre a mesma finta na defesa, perdendo invariavelmente a bola); Ronaldo (sim, tivemos um e qualquer semelhança com o "Fenómeno" acabava na nacionalidade do seu passaporte); Machairidis (demonstrativo de como funcionava o scouting então); Okunowo (sim, da cidade condal chegou-nos um Douglas antes do tempo e este até tinha um nome bem dado a trocadilhos); Dudic (a eterna futura estrela jugoslava); Thomas (o homem do metro quadrado e das "big balls"); Uribe (tal como Macharaidis tinha o cabelo grande e nunca percebi como vestiu o manto sagrado); Escalona (acho que marcava bem livres); Pesaresi (o tipo que recentemente concordou com o Simão no facto deste último o ter nomeado um dos piores jogadores com quem tinha jogado); Sérgio Nunes (confesso que já o tinha eliminado da minha memória); João Manuel Pinto (incrível como chegou a capitão e mais incrível como tenho um amigo meu que tem uma camisola dele); Hassan (até nem era mau jogador mas não resultou - recentemente, na final em Amesterdão, vi um tipo com a camisa dele); Tahar (o talhante marroquino); El Hadrioui (o meu Roberto Carlos do CM'97...); King (qualquer tentativa de comparação com Eusébio é heresia e dá direito a excomunhão); ou o típico-esforçado-sem-jeito-nenhum-para-a-coisa Jorge Soares.


Faço aqui um disclaimer: é claro que o simples facto destes jogadores terem envergado o Manto Sagrado merece o meu respeito e não duvido que muitos deles tenham sentido realmente a camisola (e dado o contexto, para muitos seria muito difícil singrarem).


(fim de disclaimer)


(novo silêncio)


Mas é preciso ter em atenção, que nessa altura, até tivemos um ex-carteiro sueco com nome de batata frita em jeito Novas Oportunidades.

foto: http://jornaisvintage.blogspot.com


Mas a lista não fica por aqui e foram Verões fantásticos (e defesos de Inverno) a sonhar que jogadores com o calibre de um Luís Carlos ou de um Carlitos pudessem efectivamente nos resgatar do buraco negro em que estávamos metidos. Claro que as capas de jornais não ajudavam e quando anunciavam um Paulo Almeida como a última coca-cola do deserto, a esperança renovava-se. Mas mesmo quando acertavam na qualidade do nome anunciado, algo acontecia no Universo e para além de morrer um panda-bebé algures, o resultado não era bem o esperado.


Por exemplo lembro-me quando anunciaram Totti (após "aquele-nos-ia-salvar-das-trevas" Rushfeldt ter sido apresentado e vestido o Manto Sagrado mas não ter ficado porque o "dinheiro ia via Nova Iorque e demoraria dois ou três dias a chegar à Noruega" - uma bela novela de Verão com cheiro a urina no final), um raio de luz apareceu e a fé benfiquista renovou-se e toda a gente pensou que "agora é que é".


O problema foi quando apareceu Tote ao invés do anunciado Totti e percebeu-se que os furos jornalísticos obtidos à antiga por chamadas telefónicas podiam induzir neste tipo de erros no nome anunciado.


E chegados ao final da época, estes fantásticos elencos produziam resultados à altura das memoráveis prestações feitas no nosso clube pelos inesquecíveis Clóvis ou Washington Rodríguez. Finais de época a lutar por tudo com a mesma intensidade de um Bruno Caires ou de um Chano. Isto com adversários com o fairplay do nosso Andrade.


É claro que o panorama não era melhor noutras paragens e o (excelente) Cepos dos 90 mostra bem isso, mas a situação era deplorável e bem demonstrativa do caos em que estávamos mergulhados.


Mas olhando para trás, acho incrível a resiliência e crença da nossa massa adepta. É claro que figuras como o "nosso bombeiro de serviço" nestes tempos, o Velho Capitão Mário Wilson, sem esquecer o (King) Eusébio, Shéu (Sr. Benfica), Toni (para mim o Sr. Mística) entre tantos outros, serviram de farol nesta longa escuridão. Mesmo no relvado, numa primeira fase, figuras como (e não vou ser consensual agora) João Vieira Pinto devidamente acompanhado pelos regressados Valdo, Ricardo Gomes, mas também Preud Homme, Poborsky ou van Hooijdonk só para citar alguns, e depois, numa segunda fase Simão Sabrosa com Nuno Gomes, Petit ou Ricardo Rocha, faziam-nos acreditar.


Num clube tão habituado a ganhar (apenas tinha tido um período de ocaso tão grande na década de 20 do séc.XX) e com uma massa adepta tão exigente, não deixa de ser incrível, que essa erosão pouco ou nada se tenha feito sentir. Pelo menos a nível de crença.


Nisto o Velho Capitão estava correcto. Mesmo no meio das trevas, a chama imensa continuava acesa. Mas os sinais de quebra eram evidentes e isso era bem visível a nível europeu, onde "o algodão não engana".


(to be continued)

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