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Os números são como o algodão: não enganam (e Vinícius também não)

O Benfica prepara-se para um jogo importantíssimo, que irá ditar o futuro do clube nas competições europeias. Sobre este assunto muito se tem falado aqui (e não só), e parece-me seguro afirmar que seria uma desilusão (e porque não dizê-lo, uma vergonha) para toda a nação benfiquista caso o resultado da próxima terça-feira não fosse – no mínimo – uma vitória.


Os adeptos vêem-se novamente de calculadora na mão, dependentes de terceiros para que a

equipa se apure para a Liga Europa. E já que tenho a calculadora aqui por perto, seria um tremendo desperdício se não a aproveitasse para tirar a limpo uma dúvida: poderá a estatística

ajudar-me a dizer que avançado deveria definitivamente ficar no banco, ou nem ser convocado?

A maioria dirá que a estatística não explica, por si só, o futebol. Mas é inegável que ajuda a percebê-lo melhor, ou não fosse parte integrante e fundamental de qualquer equipa profissional, e não só nesta modalidade. Os dados valem o que valem, e no futebol há imensas variáveis que tornam praticamente impossível identificar e enquadrar informação que não sendo ainda alvo de análise estatística, influencia inevitavelmente o resultado final de um jogo.


E na altura em que este texto foi feito, os dados relativos à eficácia dos avançados benfiquistas

são reveladores. Entenda-se que a “eficácia” pode significar coisas diferentes, estatisticamente

falando. Golos por remate, ocasiões flagrantes aproveitadas, envolvimento em ataques perigosos, aproveitamento dos remates enquadrados, etc.

Neste caso, o critério usado foi n.º de golos (e/ou assistências) por minutos em campo. E nessa análise foram incluídos os 3 pontas-de-lança de raiz do Benfica, excluindo Jota e Chiquinho desta equação. E assim sendo, ao 23.º jogo oficial do Benfica na temporada, o avançado que mais se destaca é Carlos Vinícius. De longe. O termo técnico, estatisticamente falando, é que há uma diferença significativa dos seus valores para os concorrentes à posição.


O jogador brasileiro marca a cada 68 minutos. Fazendo as contas, a cada 3 jogos marca 4 golos. Já Seferovic precisa de 320 minutos para marcar um golo, e Raúl de Tomás precisa de 516 minutos, ou seja, marca um golo praticamente a cada 6 jogos. Se quisermos alargar o espectro a assistências para golo, o cenário é ainda mais complicado para o espanhol, já que Vinícius faz um golo/assistência a cada 52 minutos, Seferovic precisa de 2 jogos (183 minutos) para fazer um golo ou assistência, mas RDT precisa de 344 minutos, ou seja, praticamente 4 jogos.


Quanto ao 1.º golo de águia ao peito nesta temporada, RDT precisou de 10 jogos para “facturar”. Seferovic marcou ao 2.º jogo que fez este ano. Vinícius marcou logo na estreia pelo Benfica. Ou seja, RDT precisou de 673 (!) minutos para marcar o seu 1.º golo, Seferovic precisou de 162 minutos, e Vinícius marcou o seu 1.º golo… ao 6.º minuto que jogou pelo clube.


Quanto a oportunidades dadas por Lage, foram precisos 12 jogos para dar titularidade a Vinícius. Por essa altura (como suplente utilizado) já levava 2 golos, e Seferovic 3. Nesse jogo (Cova da Piedade, da Liga Pro) marcou 2 golos, num jogo em que RDT foi também titular. Contudo, o madrileno jogava a titular pela 9.ª vez, e ficou uma vez mais em branco. Ao 23.º jogo oficial do Benfica nesta temporada, Vinícius tem 13 golos e só começou no 11 inicial por 7 vezes. Seferovic tem 4 golos, e foi 13 vezes titular. RDT tem 2 golos, apesar de Lage lhe ter dado a titularidade em 11 ocasiões.


Vale o que vale, mas quanto a equipas de escalões inferiores, convém dizer que RDT tem 285 minutos jogados e apenas 1 golo (Vinícius tem 3 golos e 1 assistência em 193 minutos, já Seferovic ainda não jogou esta época para as Taças de Portugal/Liga). No espectro oposto, deparamo-nos com o único índice em que o brasileiro não se superioriza aos colegas, ou seja, na Liga dos Campeões, onde Seferovic tem 2 golos (1 a cada 104 minutos), RDT marcou 1 golo em 147 minutos, e Vinícius só balançou as redes uma vez em 269 minutos.


Em suma, Carlos Vinícius tem 13 golos e 4 assistências em apenas 889 minutos jogados. Seferovic tem 4 golos e 3 assistências em 1279 minutos jogados. RDT tem 2 golos e 1 assistência em 1032 minutos jogados. “Mas espera lá, o RDT está na sua 1.ª época no Benfica e no campeonato português. Além disso, a transição de galã de novela colombiana para jogador da Liga Nos custa mais do que parece. A adaptação não é fácil”, dirão vocês. E eu concordo. Por isso fui comparar estes valores de RDT com outros avançados recentes do Benfica na sua 1.ª época de águia ao peito, ao 23.º jogo da temporada. E os números não mentem:

O que parece claro nestes parâmetros, para além das dificuldades evidentes de RDT em contribuir directamente nos golos do Benfica, são as oportunidades que lhe foram dadas relativamente a outros avançados no passado. Oportunidades que não foram dadas, por exemplo, a Ferreyra ou Castillo, que por esta altura tinham jogado francamente menos. Não só isso, como apesar da fraca eficácia, teve a confiança do técnico para começar 11 jogos a titular, algo que só Seferovic e Mitroglou conseguiram alcançar. O próprio Jimenez apresentava, em 2015/2016, números mais interessantes com menos minutos em campo.


Numa equipa com o melhor ataque em Portugal, não deixa de ser relevante que RDT (mesmo com tantos minutos somados) não se aproxime sequer dos primeiros lugares do plantel no que diz respeito a golos + assistências:

E depois há a considerar os valores pagos pelo jogador. Os adeptos (e provavelmente a equipa

técnica e dirigentes) criam expectativas quando se gastam €20M num avançado da cantera do

Real Madrid, referenciado pelo scouting. Dito isto, e voltando aos parágrafos iniciais, os números

não explicam tudo. RDT tem bom toque de bola, tem igualmente uma Arouquesa a lamber-lhe

o cabelo todas as manhãs, e possivelmente precisará de mais tempo para a tal adaptação. Mas

nesse capítulo não se pode queixar, já que Lage tem feito por ele o que não fez por Castillo ou Ferreyra.


Em suma, RDT tem o pior registo goleador dos avançados mais usados pelo Benfica nas últimas

temporadas. E num esquema táctico onde parece funcionar a utilização de um avançado que jogue entre linhas (Chiquinho a fazer o que João Félix e Jonas fizeram no passado) a acompanhar o avançado centro, o espanhol parece partir atrás de Seferovic nesta escolha. Será caso para questionar se terá o mesmo destino que Ferreyra na época passada, ou se Lage vê nele algo que não viu no argentino.


O que é inegável, seja nos números seja no campo, é a qualidade e eficácia de Carlos Vinícius como homem-golo do Benfica. Não há comparação possível. E se a estatística não falhar, dia 10 há mais motivos para celebrar. A não ser que o Jorge Sousa também apite jogos da Champions.

E aí estamos todos tramados.


▶ Texto enviado pelo benfiquista Carlos R.

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