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O privilegiado, o cliente e o delinquente

Confesso que existem alturas em que a tristeza que me assola por ser adepto de futebol em Portugal. Sinto que nada nem ninguém tem respeito por mim, pelo meu filho, pelos meus amigos. No fundo, por todos aqueles que amam o futebol e acompanham o seu clube, em função das suas possibilidades, seja em casa seja nos tão desejados “Aways”.


E vem este assunto a propósito do quê? De várias coisas que, por si só e em conjunto, tornam o “adepto da bola” em Portugal num privilegiado, num cliente e num perigoso delinquente. Sim. Nisto tudo. Senão vejamos: Somos privilegiados porque para uns, normalmente aqueles que ou não gostam de futebol ou que não entendem que se façam 500-800 km num dia para ver o nosso clube, é coisa de malucos ricos. Coisa de quem ama o seu clube e abdica de outras coisas, digo eu. Há quem goste de comprar mais e melhor roupa, ter este ou aquele telemóvel, este ou aquele gadget, frequentar mais ou menos restaurantes caros, e por aí fora. É tudo uma questão de escolhas. Todas são válidas. Nenhuma é criticável.


Depois somos “um cliente”. Somos um cliente do Benfica e da Liga de Futebol. Para eles temos direito às melhores promoções de camisolas, a descontos em gasolineiras, oculistas, viagens e até funerárias, mas depois temos 5 minutos numa manhã para conseguir comprar online bilhetes para um jogo... e isto se conseguirmos entrar no website. Para a Liga temos direito a estádios de futebol, cheios de conforto e condições para ver o nosso clube. Ainda recentemente uma diretora da Liga se vangloriava disto num jornal. Confesso que não sei que estádios é que a senhora frequenta, mas nunca deve ter passado de Lisboa ou Porto porque alguns dos estádios a que vou as casas de banho não têm água corrente, noutros só existe uma porta para entrarem e saírem milhares de pessoas (ou existem mais mas estão - algumas vezes criminosamente - fechadas), e chego a perder golos da minha equipa porque não há condições nem gente suficiente para serem feitas as revistas.


Imaginem que nos estádios a que vou, inclusive o meu, os ARD chamam a polícia para tirar uma bandeira ou uma faixa com o nosso símbolo porque está a tapar publicidade. Podíamos também falar das marcações de jogos: quero e tenho o dever de exigir que marquem os jogos com a antecedência necessária para poder organizar a vida pessoal e familiar, incluindo deslocações com amigos ou família.


Olho para o futebol inglês e até holandês e penso que nunca lá chegaremos. Depois de tudo isto ainda somos tratados como criminosos pela polícia e pelos Assistentes de Recintos Desportivos (ARD) dos diversos clubes. Quando entro num estádio sou revistado, ou por um polícia mal encarado ou por um ARD, e se a este ainda concedo o benefício da dúvida de não saber de leis já com a polícia a coisa muda de figura. Aqui teríamos muito que falar e cada ponto seria assunto para uma tese de mestrado em direito ou um doutoramento em magistratura.


Vamos elencar as coisas para facilitar:

▶ Adereços não admitidos nas bancadas:

Alguém de leis que me explique como é que um plano de segurança de um estádio ou uma decisão de uma direção se pode sobrepor a uma portaria, lei ou à própria Constituição? Quem é que me pode impedir de entrar numa determinada bancada de um qualquer estádio por estar de vermelho, verde ou azul? E como é que as forças policiais atropelam os direitos fundamentais dos cidadãos de modo tão flagrante em vez de zelarem pelo nosso bem estar e direito a estar vestido como queremos? Pelo contrário, obrigam-nos a retirar a camisola ou cachecol ou a não entrar... está tudo virado do avesso.

▶ Revistas:

Porque não sou revistado num estádio de futebol da mesma maneira que sou revistado num concerto, num museu ou numa catedral? Em Inglaterra as revistas são feitas todas de igual modo e com modos. Cá pelo burgo não, somos tratados como potenciais criminosos ou terroristas.


Resumindo: quero, simplesmente, ser adepto de futebol. Gritar pelo meu clube. Saltar e cantar na bancada. Ok. Se calhar já estou a ser muito exigente neste futebol moderno...


▶ Texto da autoria do benfiquista João Hartley

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