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Os desafios de Schmidt

Quando, em finais de março, a revista alemã Kicker avançou, em primeira mão, que Roger Schmidt seria o novo treinador do Benfica para a época 2022/23, jamais poderia imaginar que, mês e meio volvido desde a entrada em competição, estaria a escrever estas linhas sentado em 13 vitórias consecutivas, o conforto da liderança isolada e, sobretudo, a expectativa em alta para o muito que ainda vem.

Ouvi há uns tempos Luís Campos, no podcast “Folha Seca” (que recomendo), dizer que a criação de cada projecto desportivo é como costurar um fato por medida, querendo com isto dizer que é necessário conhecer o ADN de cada clube e, a partir daí, tomar decisões sobre o jogo que se pretende jogar e quem trazer para implementar e colocar em prática essa mesma ideia. E eu não podia estar mais de acordo.

O Benfica é um clube especial, digo-o sem sobranceria. Adaptando o verso de Sophia, o Benfica “é o lugar onde começam as maravilhas e todas as angústias”. Um clube histórico, dos poucos na Europa que joga em casa em quase todos os estádios que visita, com uma massa adepta implementada em todo o território nacional e diáspora. Mas também um clube maltratado, mal gerido, com traumas, com uma necessidade enorme de (re)afirmação, primeiro dentro de portas, mas também no plano europeu. O Benfica é o clube do povão, o povão do amor tão incondicional quanto demasiadas vezes cego e/ou até mesmo ignorante, o clube que vive no limbo entre a euforia e a depressão. O Benfica é um clube simultaneamente maravilhoso e angustiante.

E é neste contexto de que Luís Campos falava que é preciso tomar decisões e fazer escolhas. No Benfica dificilmente um treinador “retranqueiro” vai ser amado, tampouco o será um outro que faça da paciência com bola a sua grande virtude. A Luz precisa da maravilha da adrenalina do futebol ofensivo, mas não prescinde da angústia do risco. É isto que vulcaniza o estádio, que nos entrar no imaginário daquele Benfica ido e ainda sonhado, que joga de peito feito em qualquer campo, contra qualquer adversário.

E eis que chega Roger Schmidt, um homem desconhecido para o grosso do povão, que beneficiava do desconto de ser alemão – e, já se sabe, os alemães fazem sempre tudo bem – mas que foi logo encarado com desconfiança porque, na folha do zerozero e goalpoint, os títulos eram muito poucos. E não levou muito tempo até toda a gente falar do Gegenpressing e, claro, da infinda quantidade de golos sofridos e de riscos desnecessários que isso acarretaria, embora ninguém soubesse muito bem do que é que se tratava. E claro, o velho argumento de que os treinadores portugueses são muito espertos e que o alemão vinha cá sem conhecer o campeonato, logo, com remotas hipóteses de ter sucesso.

Confesso: nem nas minhas melhores previsões coloquei o cenário em cima do qual escrevo este texto. Conhecia bem Schmidt (“pedi-o” muitas vezes nas sucessões de Jorge Jesus e Rui Vitória), mas nunca imaginei que houvesse a capacidade, visão e planeamento para lhe dar condições para que tivesse à sua disposição um plantel adequado à sua ideia de jogo e, sobretudo, que fosse possível fazer sair uma quantidade enorme de jogadores sem qualidade para o Benfica ou que pura e simplesmente não se encaixavam na proposta de jogo trazida pelo alemão.

No entanto, o trabalho foi globalmente bem feito e o impacto foi instantâneo. Hoje já ninguém fala da falta de conhecimento do campeonato português, o Benfica voltou a ser temido e até já foi possível sentir um aroma a Benfica Europeu.

Schmidt tem-se revelado o fit quase perfeito – perfeito, só se e quando vencer – para um Benfica há muito órfão de uma ideia coerente, ofensiva, entusiasmante. Um homem com uma visão global, cosmopolita, com um pensamento claro para a organização de todo o futebol do clube e, claro, com o conhecimento e qualidade para, em pouco tempo, colocar as suas ideias no campo.

Estamos a viver a fase das maravilhas, mas é necessário estarmos preparados para as angústias. E é por isso que escrevo sobre os desafios que considero que terão de ser ultrapassados para que Schmidt possa ser imortalizado como mais um dos muitos treinadores estrangeiros que marcaram a história do Sport Lisboa e Benfica.


1. A evolução do modelo de jogo

O sucesso da equipa do Benfica passará, em primeiro lugar e acima de qualquer outro factor, pelo desenvolvimento da sua própria ideia. Será fundamental trabalhar os momentos em que o adversário sai a jogar e tira a bola do corredor ou zona de pressão; contra blocos baixos, há margem para ser mais criativo e criterioso – Draxler poderá ser determinante; também a transição defensiva pode ser melhorada. E, claro, foi com gosto que ouvi Schmidt dizer, na entrevista à BPlay, que nos últimos anos tem alterado o seu modelo de jogo para se adaptar à necessidade de jogar consecutivamente provas internas e europeias, dando uma grande importância à gestão dos tempos e ritmos de jogo. Há, também aqui, margem para evoluir na gestão da posse de bola e no “descanso” que podemos tirar desses momentos.


2. O clássico

Num plano quase metafísico, o Benfica vive há 30 anos traumatizado com as deslocações ao dragão. É preciso inverter não apenas a tendência dos resultados mas, sobretudo, a abordagem ao jogo e a forma como se entra em campo naquele estádio. Conseguindo chegar à 10ª jornada com cinco pontos de vantagem (no mínimo), terá que haver killer instinct para deixar o FC Porto em situação agoniante na tabela.


3. A pausa para o mundial

Bem sei que Roger Schmidt tem experiência com as paragens de Inverno da liga alemã, mas a sobrecarga de jogos antes e depois da pausa para o mundial podem ter um papel decisivo no desfecho da época. Será necessária uma gestão de plantel exemplar e uma preparação física adequada a uma realidade inédita numa época desportiva.


4. O mercado de janeiro

O plantel do Benfica tem qualidade, mas está longe de ser perfeito. Pelo menos um guarda-redes e um extremo-direito (de preferência canhoto, para render Neres) deveriam ser prioridades no ajuste necessário a um plantel que irá ter uma época longa e desgastante. E a porta de saída para jogadores como Diogo Gonçalves, Chiquinho e, quem sabe, um dos centrais, quanto mais não seja por empréstimo (a ascensão meteórica de António Silva a isso irá obrigar), terá de ser considerada.


5. A derrota

13 jogos, 13 vitórias. Início perfeito. Todos sabemos que isso não durará sempre. Este é provavelmente o grande desafio de Schmidt e da equipa: fazer a equipa acreditar o suficiente na ideia de jogo e nas próprias capacidades, para poder dar a volta por cima quando a contrariedade aparecer – sim, vai aparecer.


Muito haveria ainda para dizer, por esta altura já muitos terão desistido. Aos que ficaram, digo que aproveitemos o momento e, como dizia Vinícius, “que seja infinito enquanto dure”.


▶ Texto enviado pelo benfiquista Pedro Santiago.


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