Proposta de benfiquismo, e fundamentalmente, de clubismo
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▶ Texto enviado pelo benfiquista Simão Pedro
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Há quase dez anos, na temporada desportiva 2015/2016, a trigésima quinta jornada do campeonato espanhol servia o derby madrileno entre Rayo Vallecano e Real Madrid. O Real Madrid, estandarte da cronicidade vaga da vitória (não me trucidem já), disputava a conquista do campeonato com o rival Barcelona e o Rayo, o modesto Rayo, via-se a contas com a ameaça de mais uma despromoção, concretizada jornadas depois. Cara a cara os dois lados opostos da competição e da história. Os merengues visitavam o Campo de Fútbol de Vallecas, lugar onde o futebol vem ultrapassando à rebeldia as fronteiras idiotas que autoritários lhe impusemos.
O pobre abomina o rico, o empregado abomina o patrão, o derrotado abomina o bem-sucedido. Aqui nos futebóis, pessoalmente, também abomino quem joga de um branco polido (de um tão branco quase insuportável), de coroa ao peito e umas dragonas por vezes douradas nas ombreiras, fazendo lembrar a roupagem dos velhos, mas nunca em desuso, hábitos do regime, onde tirania se confundia com grandeza. Prefiro a sinceridade das gentes do bairro de Vallecas que jogando também de branco, confessam a fragilidade da cor. Mancham o branco com uma faixa vermelha obliqua do sangue dos humildes, dos operários e de quem a sociedade esquece.
Não posso querer, nem seria tão pouco justo ou honesto, pôr em causa o mérito blanco. Trata-se, sim, de questionar o lugar que ocupa o sucesso e insucesso numa instituição que foi criada e existe quase exclusivamente para ganhar e se é mesmo isso o mais importante, como nos querem fazer implacáveis acreditar. Qual é, então, a verdadeira função social de uma entidade desportiva tão mediática e triunfante? Recuso-me a acreditar que a resposta seja o que o capitalismo selvagem me quer arrancar à bruta da boca. Os Los Bukaneros, ultras do Rayo Vallecano, ofereceram uma pista. No então dérbi de Madrid, exibiram uma tarja onde se lia “hay equipos tan pobres que sólo tienen títulos”.
Queria mesmo ligar pelo telemóvel mais vezes ao meu pai e aos meus amigos, encurtar a distância que me separa deles, ouvi-los como quem cerra os olhos e alivia as dores antigas. Quando assisti ao admirável desenlace do Benfica 4-2 Real Madrid, pensei de imediato neles e como o meu benfiquismo – ou, talvez melhor, o meu clubismo - só existe num lugar de memória e amor fraterno. Queiram vós imaginar a felicidade com que me atenderam o telemóvel logo a seguir.
Um clube não cabe, não pode caber, numa vitrine. Confesso-vos, odeio futebol. Ou talvez odeie só o futebol que se esqueceu disto.





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