O Benfica é uma memória, uma identidade, uma família
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▶ Texto enviado pelo benfiquista Raul Cunha
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António Lobo Antunes, grande adepto do nosso Glorioso, falecido no dia 5 de março, e talvez o maior escritor da literatura portuguesa contemporânea juntamente com José Saramago, disse um dia:
«Desde que me tornei homem, chorei a morte de três pessoas que amava muito. Todas as outras lágrimas, chorei-as pelo Benfica, e quase todas as minhas alegrias devo-as ao meu clube.»
Quando escreveu estas palavras, falava do Benfica. Mas, na realidade, falava de todos nós.
Porque para alguns, um clube de futebol é apenas um divertimento. Para nós, o Benfica é uma memória, uma identidade, uma família. É um fio vermelho que atravessa as nossas vidas e liga gerações. Emoções.
O meu pai contou-me muitas vezes. Durante os anos sombrios da ditadura em Portugal, quando tantas coisas pareciam sufocadas e controladas, o Benfica era uma lufada de ar fresco. Uma alegria rara. Um momento em que o povo podia respirar, sonhar e sentir orgulho. Nesses anos, as vitórias do Benfica não eram apenas desportivas: eram emocionais, quase vitais.
O Benfica não era apenas uma equipa.
O Benfica era uma luz que pertencia ao povo.
Os anos passam, as gerações mudam, mas o Manto Sagrado permanece. Vermelho. Imenso. Sempre pertencente ao povo, à Nação Benfiquista.
Há alguns dias, fizemos a viagem até Barcelos para ver o Benfica contra o Gil Vicente, um jogo importante antes do clássico. Quando se vive no estrangeiro, ver o nosso Benfica no Norte tem sempre um sabor especial. Costumo dizer que o Benfica são emoções, e um away com o meu pai, já perto dos 82 anos, e também com os meus três filhos, é diferente.
Três gerações de Benfiquistas na estrada.
Três gerações unidas pela mesma camisola, pela mesma paixão, pelo mesmo símbolo. E PLURIBUS UNUM.
Em Barcelos, os ultras estavam lá, como sempre. Cachecóis erguidos, cânticos que ecoam, fumo vermelho que sobe na noite. Aquela atmosfera especial que as deslocações sabem criar: aquela em que todos os Benfiquistas se tornam imediatamente irmãos. Porque fora de casa, o Benfica nunca joga sozinho.
O meu pai estava lá, no meio deles. E os jovens à volta dele cuidaram dele naturalmente, como se fosse o próprio pai deles. Porque o Benfica também é isso: uma família imensa onde ninguém está sozinho.
A certa altura, olhou para mim e disse-me uma frase que me atingiu diretamente no coração:
«Talvez seja o último jogo em que vejo o Benfica num estádio.»
E naquele momento, tudo ganhou outra dimensão.
Porque aquele momento estávamos a vivê-lo juntos. Um pai. Um filho. E três netos.
O Benfica ofereceu-nos algo que só um clube pode oferecer: um momento suspenso entre gerações. Um momento em que um pai, um filho e os netos vivem juntos a mesma emoção, o mesmo cântico, o mesmo orgulho.
Uma memória que ficará para sempre.
O Benfica não são apenas títulos, jogos ou jogadores.
O Benfica são estes momentos de vida. Estas lágrimas, estas alegrias, estas memórias que atravessam o tempo.
Depois veio o jogo. A tensão. Os cânticos que nunca param. Os corações a bater ao ritmo do estádio.
E finalmente a vitória por 2-1 para o nosso BENFICA.
Mas, no fundo, naquela noite, o mais importante foi aquele momento. O momento em que o meu pai via o Benfica rodeado pelo seu filho e pelos seus netos. O momento em que os ultras cantavam à volta dele. O momento em que três gerações viviam a mesma paixão, vibravam pelo seu clube.
Ontem veio o clássico no Estádio da Luz contra o nosso rival FC Porto. Desta vez fiz a viagem sozinho. Nem sempre é fácil vir todos desde França. E a noite acabou por ser o oposto do que tínhamos vivido em Barcelos. Desilusão na receção ao autocarro da equipa, com os ultras longe, bloqueados pelas autoridades. Desilusão com uma primeira parte catastrófica. Desilusão com a arbitragem. Desilusão com o resultado. Desilusão com o ambiente, onde sentimos que perdemos um pouco daquele inferno que existia no antigo Estádio da Luz. Desilusão por sentir que não fizemos o suficiente para honrar todos os Benfiquistas espalhados pelo mundo.
Ontem faltava algo. Já não é a primeira vez nestes jogos grandes. Já tinha acontecido o mesmo no ano passado, no dérbi em casa.
E talvez por isso a comparação com Barcelos tenha sido inevitável.
Em Barcelos senti algo que, ontem na Luz, pareceu faltar.
Senti uma chama constante. Adeptos sempre a cantar, sempre a empurrar a equipa, sempre a transmitir energia durante 90 minutos. Uma chama imensa que vinha das bancadas e chegava ao relvado.
Ontem, na Luz, faltou um pouco disso.
Faltava algo que António Lobo Antunes conhecia bem e que queria transmitir a todos nós.
Faltava esse Inferno da Luz durante 90 minutos.
Faltava a alma do Benfica.
Porque Benfica somos nós. E somos nós que devemos transmitir essa chama imensa dentro e fora do campo.
O Benfica não são apenas troféus ou vitórias.
O Benfica são estas memórias.
Lágrimas.
Gritos.
Viagens.
Recordações.
O Benfica é grande pelo seu povo. E o Benfica deve pertencer ao povo.
Benfica de TODOS.
Nós, espalhados de Sul a Norte, passando pelo Centro de Portugal e também pelo mundo inteiro, em todos os continentes.
Temos de salvaguardar essa chama imensa todas as semanas, todos os dias, no universo benfiquista.
Porque a paixão e a alma são isto.
Pais que transmitem aos filhos.
Filhos que transmitem aos seus filhos.
E um dia, talvez os meus filhos contem essa noite em Barcelos. Falarão do avô deles, no meio dos ultras, a cantar pelo Benfica com quase 82 anos. E nesse dia compreenderão o que significa ser benfiquista.
Porque o Benfica não é apenas um clube. É um sentimento indescritível de pertencer a algo maior do que nós. É uma história que se transmite de geração em geração. E que nunca acaba.
Uma memória.
Uma família.
Uma vida inteira.
Temos e vamos salvaguardar essa chama imensa.
Obrigado, pai, por sermos benfiquistas.
Estarei sempre contigo, com o teu Benfica, o meu Benfica, o nosso BENFICA.





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