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Saudade

▶ Texto enviado pelo benfiquista André Pessoa


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NOTA: A opinião aqui transmitida é da inteira responsabilidade do seu autor e não representa, necessariamente, a opinião do Benfica Independente.

Durmo mal. Até janto cedo e religiosamente bebo um chá já na cama, ainda antes das 21h, enquanto ponho a leitura em dia. Despacho normalmente uma média de 50 páginas e, de 'x' em 'x' minutos, vou carregando num botão que regula a intensidade do foco de luz que aponta para o Kobo. Antes de atingir a escuridão absoluta, dou um beijo na minha esposa, que já dorme, e ainda faço uma última festinha na cabeça do sócio PET #262, que se aninhou lá ao fundo. É uma rotina bonita, dizem que as rotinas são aborrecidas. A minha não é. E apago a luz. E depois durmo mal. No trabalho corre tudo bem, a família também está bem, obrigado. Mas durmo mal. Não deveria ser suposto. "É só desporto" — dizem. E o desporto deveria ser alegria e desfrute. Mas o Benfica não é só desporto.


É família, são os amigos, é a emoção das vitórias e o desolar nas derrotas. É a vida a correr bem ou a correr mal. O Benfica é poesia e ação, são quadros no Louvre e graffitis urbanos, é música clássica e rock & roll. O Benfica é Deus e é ciência. Tudo ao mesmo tempo. O Benfica pode ser adjetivado por 8000 palavras do dicionário, mas será sempre insuficiente, porque vai muito além de tudo o que conhecemos e somos capazes de expressar. "O que é para ti o Benfica?" é, ao mesmo tempo, a pergunta mais fácil e mais difícil de responder.É como quando um estrangeiro nos pede para traduzir a palavra "saudade". Sabes o que é? Claro que sei. Então explica, se conseguires, uma palavra que encerra tanto em si mesma.E o Benfica também é saudade. Saudade de tempos que já lá vão. Tempos que marcaram gerações de pais e filhos, avós e netos."Pai, de que clube é que tu és?", perguntei com 5 anos."Eu apoio o Benfica.""Então eu também!"Fácil, sem discussão. Se o meu pai é, eu também. E vai ser bom, porque o meu pai nunca se engana. E foi assim que, crescendo ao lado do José de Alvalade, me tornei benfiquista. Vi muitos treinos no Campo Grande. Cruzei-me com Paulinho Cascavel primeiro e Figo mais tarde, o Marlon Brandão era meu vizinho e conheci o roupeiro Paulinho. Vi muitos jogos ao vivo — no setor da Torcida Verde entrávamos grátis até aos 11 anos. Assistia aos treinos do hóquei e de outras modalidades."MAS EU ERA DO BENFICA!" — aplausos.


O Benfica também é saúde. Quando vence e convence, andamos bem. De peito feito. Sorrimos. Estamos confiantes. Quando perde, já a semana vai ser uma merda. "A ver se na 2.ª mão dá para recuperar", dizem uns. "Pode ser que os outros também percam", dizem outros. Mas a semana vai ser uma merda.Antes optava por não ver os jogos do Benfica nas Antas/Dragão. Achava sempre que ou íamos ser prejudicados, ou não íamos entrar com atitude guerreira. A primeira normalmente sucedia, a segunda já aconteceu mais. Dez minutos antes do apito inicial, começava a andar nervoso pela casa: "vejo o jogo, não vejo". Tipo mal-me-quer. E depois não via. Saía, arranjava um plano fora de casa e ficava mais tranquilo. Colocava um cartaz a dizer "Volto já".Sofria menos.


Hoje o meu mal-me-quer é outro.


Sou sócio há 18 anos. Pago as minhas quotas, as do meu sobrinho, cuja ficha deu entrada no dia em que nasceu, e as do meu cão.Nenhum dos três usufrui sequer das instalações. O meu sobrinho vive a 500 km. Eu a 1300. E o meu cão não liga muito a futebol.Não beneficio dos descontos na Repsol nem de outros parceiros.Consola-me viver numa das capitais mundiais do hóquei e, de vez em quando, lá vem o Benfica visitar-nos. Tenho um pavilhão a dois passos de casa — ainda há pouco cá estiveram as nossas meninas. Que alegria! O departamento de sócios tem a minha morada, sabe que vivo aqui, podiam ter avisado — avisam de tantas coisas inúteis. Soube porque vou estando atento, senão passava um sábado com o autocarro do Benfica estacionado ao lado da minha janela e eu na ignorância. De vez em quando vou a Portugal e lá consigo um Redpass amigo. A última vez que usei um RP foi no dia 25 de outubro. Entre voos, comida, bebida e aquela roupa que não precisamos mas compramos na loja: 300 €. Não fui pelo Arouca, fui pelo voto. Tinha um hotel a 30 min de minha casa onde poderia ter exercido o meu direito.Mas tinha de ir a Lisboa votar. Porque ia ser um dia diferente. Pelo simbolismo daquela ocasião, daquela data, daquele contexto. Porque o Benfica estava de volta e iria renascer!Conseguimos! Cheguei ao estádio às 06h50, era o 21.º na fila; às 08h02 já tinha votado. Chovia imenso. Duas sócias atrás de mim: "Oh amigo, abrigue-se aqui nos nossos chapéus".O resto do dia foi um sobe-e-desce de emoções. "Vai ganhar o meu!", "Oh diabo, parece que afinal não", "Pode ser que ainda dê!". Não deu.Não importa discutir quem venceu, o que interessa é pensar na tendência que tem dominado os destinos do Benfica nas últimas três décadas. Caramba, entre tantos potenciais presidentes gloriosos — uns candidatam-se, outros nunca saem do anonimato (mas sabemos que existem!) —, e escolhemos sempre ao lado?Caros sócios, temos escolhido mal. E não pode ser por mero acaso. Podemos enganar-nos uma vez. Duas, vá. Mas assim não.


E este é o ponto principal: para onde é que olham os sócios antes de votar? O que é que quer a maioria? O que procura? O que não procura? Afinal, vencer de forma sustentada é importante, ou já o foi mais? Importa mais ter uma alta faturação e infraestruturas modernas? Como se isso fosse incompatível com ganhar, acrescento eu. Preocupam-nos os estatutos e os valores? Ou chama-nos mais a atenção a camisola do Vhils?Não vemos problema em que se impeçam os adeptos de se aproximar do autocarro e que as roulotes, qualquer dia, estejam em Campolide? Às famílias interessa mais uma fan zone de plástico, sem qualquer espontaneidade? Estamos cómodos com os constantes problemas judiciais? Um Benfica moderno é o Benfica do Kamala e do aburguesar? Um Benfica moderno é um Benfica onde continuamos, de forma absurda, a chamar "Inferno da Luz" ao nosso estádio, quando o ambiente durante os jogos é constrangedor? Onde ninguém vai aos pavilhões?

Será que o sócio-tipo do Benfica mudou e nem demos por isso?


O Benfica está num limbo que apenas o futuro clarificará: esta situação é temporária e, no fundo, ainda continua cá uma essência adormecida? Ou isto já foi para outro lado e não nos apercebemos? Quem tem hoje 14 anos e começa a ter vida ativa no Benfica vê o quê exatamente? Quais são as suas prioridades? Sofre? Chora? Ou é como as duas pessoas que tinha ao meu lado no jogo com o Arouca, que estiveram a ver no telemóvel o Brentford-Liverpool que se jogava à mesma hora? Conseguiram a proeza de estarem ali e não verem em direto nenhum dos cinco golos. Está tudo bem? Se calhar está. Afinal, o estádio propicia esse conforto. E vai na volta estas duas pessoas até estão tão chateadas quanto eu. Mas continuam a ir, nem que seja só para não desistir. Apenas preferem estar ali e fazer outra coisa. Falaram o jogo todo: "E a semana, como é que correu?" Se calhar sofrem menos.

Será que ainda conseguiremos vir a ter direções consecutivas que sigam um projeto e uma identidade à Benfica e não um projeto seu, individual? Um projeto à Benfica. Do Benfica. Para o Benfica! Será que ainda conseguiremos vir a ter atos eleitorais com fim único de dar continuidade ao Benfica, e não porque "este presidente não presta, venha outro"? Um modelo em que as pessoas saibam a responsabilidade que têm nas mãos, saibam o que é que têm de respeitar e de fazer respeitar. Um modelo em que treinadores e jogadores sejam contratados porque encaixam no projeto e nos objetivos a médio-longo prazo, e não por outro motivo qualquer. Um projeto em que quem não respeita o emblema está fora.Um projeto onde cada euro tem um valor imenso. Não podemos ser o Bayern de Munique do sul da Europa? Será que um dia nos livraremos dos parceiros estratégicos, do Ministério Público e de tudo o que deveria estar a milhas de distância do Benfica? Como é que lá chegamos? Difícil. O primeiro e talvez único caminho é o das vitórias. É mais fácil convencer os sócios de um rumo se esse rumo estiver alcatifado de pontos. Mas para isso, antes, é preciso escolher à Benfica. Pede-se aos sócios seriedade nas escolhas e aos candidatos seriedade e responsabilidade nas decisões. O populismo e a demagogia têm de ficar de lado, erradicados para sempre.E isto é válido para as seis candidaturas de outubro e para todas as que aparecerem no futuro. Ninguém é exceção e o escrutínio deve ser constante. Não te apresentes a eleições se não estás convencido de que és capaz de respeitar a memória do Benfica e os seus valores. Não te apresentes a eleições se tens mais objetivos para além do Benfica.Só chegaremos aqui se os sócios souberem que é de facto possível. E quiserem que aconteça. E fizerem por isso. E o exigirem.


Não nos enganemos: a situação é dramática. O Benfica está mal, está muito mal. Está, neste momento, sempre muito mais perto de ser presidido por oportunistas ou de se perder para sempre num qualquer investidor estrangeiro do que de voltar a ser o que era. O momento é já."Ah, mas o investidor estrangeiro não tem de ser um Textor, até pode ser um Al-Khelaifi que nos meta nas finais da Champions de novo." Ok, e queremos isso?É que, se for, digam já, que eu saio na próxima.

Este texto é sobre a minha saúde. Sofro, e não deveria. Mas, se eu chegar à conclusão de que os sócios afinal nem são tão descuidados como eu julgava e que, de facto, pensaram bem e querem mesmo seguir outro caminho, então sou obrigado a deixar isto.


Hoje o meu mal-me-quer é outro: continuar ou desistir.


Não escrevo isto para que tenham pena de mim ou por querer que me digam "não faças isso, o Benfica precisa de todos".Eu não importo. Preocupemo-nos com o Benfica.Façam-me acreditar que ainda é possível salvar o Benfica. Façam isso por mim, pela minha saúde.


Viva o Sport Lisboa e Benfica,

 
 
 

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