Óscar René Cardozo Marín
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▶ Texto enviado pelo benfiquista Simão Pedro
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Quando cheguei ao Benfica, ou quando o Benfica chegou até mim, não sei bem, o Cardozo já lá estava. E mesmo assim, o Benfica não era mais dele do que meu. Fez sempre questão de o mostrar.
Quando dei por ele, eu tinha seis ou sete anos e ele vinte e quatro, a idade que eu tenho agora e que está quase a esfumar-se em vinte e cinco. Está, portanto, praticamente descartada a minha chegada meteórica ao Benfica para repetir Cardozo, o que, em boa verdade, foi sonho permanente e letárgico em mim muito tempo. Era o rotineiro e automático “ainda vamos a tempo” quando me sentava em frente ao televisor e jogava vídeo jogos de futebol na pele de jogadores sempre mais velhos do que eu. Claro que tive de deixar de jogar esses jogos. Tive por obrigação de afastar o pensamento de que deveria estar agora a usufruir do meu pico desportivo sem retorno e provocar uma das bancadas em Alvalade com uma knee slide celebration, em vez de ser só mais um crónico-do-9-às-18.
Muito mais do que o jogador distante e pixelizado na TV lá do café, o Cardozo era um sonho latino cristalizado num metro e noventa e dois centímetros. A minha geração quis toda ser Cardozo. Por isso mesmo, é também com alguma mágoa, para além do sentimento de dever cumprido, que nos despedimos dele. Até porque não foram poucas as vezes, talvez sem grande motivo racional, em que o reduzi a um grandessíssimo trator com GPS ou a um camelo em relva sintética ou a um guindaste avariado.
O futebol não escapa às perfídias amargas da vida, por isso, até aqui, só damos mesmo valor às coisas quando as perdemos. Ainda assim, acho que a grande maioria de nós sabia a pessoa (e o futebolista) que vestia a nossa camisola preferida. Com os anos, o futebol ganha em quem o vê uma lucidez estranha e à qual não estamos muito habituados, portanto, com toda a naturalidade, já não adormeço a pensar no Cardozo.
A parte boa é que há coisas que nunca mudam mesmo. Ainda agora, quando ouço os versos de Paulo de Carvalho que dizem “E desde então se lembro o seu olhar/É só para recordar/Os quinze anos e o meu primeiro amor” a minha memória divide-se entre o Cardozo e a minha primeira intensa paixoneta adolescente. Não vos posso dizer quem me fez mais feliz, não vá ela poder vir a ler isto.





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