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O Benfica perdeu o medo de perder

▶ Texto enviado pelo benfiquista Rui Pinto


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NOTA: A opinião aqui transmitida é da inteira responsabilidade do seu autor e não representa, necessariamente, a opinião do Benfica Independente.

O problema do Benfica de Rui Costa já não é apenas perder. É perder de forma previsível. É chegar aos momentos decisivos, aos jogos com que sonhamos, num período da nossa História de investimentos no plantel sem precedentes, receitas históricas, vendas de centenas de milhões e, ainda assim, falhar (quase) sempre.


Ano após ano, o Benfica investe mais, vende mais, movimenta mais dinheiro, apresenta mais projetos, produz mais conteúdos e alimenta mais expectativa mas, quando chega a hora da verdade, os jogos decisivos, os títulos, os momentos de pressão…a equipa falha demasiadas vezes. E o mais preocupante é que isso deixou de surpreender.


A derrota começou a normalizar-se.


Muitos sócios benfiquistas votaram em Rui Costa movidos pela esperança de estabilidade, pela vontade sincera de acreditar e pela convicção de que era possível devolver o Benfica ao topo através de uma liderança mais próxima da identidade do clube. Isso é legítimo, talvez até inevitável. Depois de anos difíceis, de Damásio e Vale e Azevedo, de 20 anos de Vieira, muitos quiseram acreditar que finalmente tínhamos encontrado o caminho certo.


O problema é que a realidade acabou por ser mais forte do que a esperança, que a fé.


Rui Costa foi reeleito prometendo devolver o Benfica aos títulos. O seu programa eleitoral falava em primado dos resultados desportivos, em conquistar a quarta estrela rapidamente, em afirmar o clube entre os maiores da Europa, em reduzir a dependência das vendas e em construir um Benfica dominador. A nova época deveria representar uma rutura com os erros do passado, mas acabou por transmitir sobretudo continuidade e conformismo. E aí está talvez o maior problema deste ciclo: depois de vários anos desta liderança, continuam por resolver demasiadas fragilidades que já eram evidentes.


Porque os sinais já existiam há demasiado tempo: Instabilidade técnica, planeamento errático, incapacidade de consolidar um projeto desportivo e derrotas sucessivas nos momentos decisivos. Uma equipa emocionalmente frágil. E uma crescente sensação de que o Benfica perdeu parte da sua capacidade de se impor nos “jogos a doer”. 


Nos últimos três anos, o Benfica venceu apenas cerca de 1 em cada 4 jogos oficiais frente a Sporting e FC Porto. Para um clube que quer dominar o futebol português, isto não é um detalhe estatístico, é o retrato da falta de competitividade do amor da nossa vida.


Do vasto conjunto de promessas eleitorais, a única medida verdadeiramente visível até agora foi o Benfica District. É um projeto relevante e legítimo. Mas o Benfica não pode viver apenas de projetos de futuro enquanto falha naquilo que define a identidade de um grande clube: liderança, exigência, competitividade e títulos.


O Benfica mede-se em TÍTULOS.


E é precisamente aí que muitos benfiquistas começaram a sentir que este ciclo está a ficar esgotado.


Hoje o Benfica parece muitas vezes um clube excessivamente centrado na figura do presidente, sem uma Direção forte, presente e participativa. Os vice-presidentes raramente aparecem. Com exceção de Nuno Catarino, os administradores da SAD têm pouca visibilidade pública. Falta uma liderança coletiva, sólida e próxima dos sócios.


Uma liderança forte cria equipa, distribui responsabilidades, dá rosto às diferentes áreas do clube, promove competência e gera confiança. No Benfica atual, existe demasiadas vezes a sensação de isolamento, de reação permanente aos acontecimentos e de ausência de um rumo estratégico claro.


Essa fragilidade tornou-se ainda mais evidente fora de campo, nos “bastidores”. O Benfica perdeu influência nas estruturas de poder do futebol português: a questão da centralização dos direitos televisivos expôs um clube mais isolado do que seria expectável para a sua dimensão. Também na arbitragem e na defesa institucional existe entre muitos adeptos a perceção de um Benfica menos influente, menos respeitado e menos capaz de defender os seus interesses.


E talvez o mais preocupante seja perceber que, perante estas dificuldades, o clube parece ter-se tornado mais competente a gerir expectativas e criar ilusões do que a construir uma cultura verdadeiramente vencedora.


Ao longo dos últimos anos, esta direção demonstrou grande perspicácia para perceber aquilo que entusiasma os adeptos, mas muito menos capacidade para consolidar um projeto desportivo consistente e dominador. Vive-se muitas vezes de ciclos emocionais: a esperança do próximo mercado, o treinador que vai mudar tudo, o jogador que vai desbloquear a equipa, a promessa de que “para o ano será diferente”.


Também no mercado de transferências isso se tornou evidente. Algumas decisões parecem responder demasiado ao impacto imediato, ao entusiasmo das redes sociais e à necessidade de alimentar expectativa junto dos adeptos. O Benfica tornou-se especialista em criar entusiasmo momentâneo. Muito menos competente a transformá-lo em domínio desportivo consistente.


Ao mesmo tempo, o clube investiu fortemente na sua comunicação institucional, na proximidade emocional e na construção de uma narrativa de união. Isso, por si só, não é negativo. O problema surge quando essa capacidade de comunicação não é acompanhada pela mesma força na defesa institucional do Benfica, na afirmação política do clube ou na capacidade de impor respeito competitivo dentro e fora de campo.


O problema do Benfica já não é apenas perder títulos. É correr o risco de começar a aceitar a derrota como algo inevitável.


E talvez um dos sinais mais preocupantes seja a forma como o debate interno se foi tornando mais difícil. Muitas vezes, qualquer voz crítica é rapidamente associada a divisionismo, ingratidão ou deslealdade. Como se questionar o rumo do clube significasse automaticamente estar contra o Benfica.


Mas todos os sócios benfiquistas querem exatamente a mesma coisa: voltar a ver um Benfica dominante, respeitado e vencedor.


Este debate não devia existir entre “bons” e “maus” benfiquistas. Nem entre quem “ama” e quem “não ama” o clube. Porque muitos dos que hoje defendem mudança foram precisamente pessoas que quiseram acreditar neste projeto. E muitos dos que continuam a apoiar Rui Costa fazem-no por receio legítimo da instabilidade, do desconhecido ou de regressar a períodos difíceis do passado.


Esse receio é compreensível.


Quem surgir como alternativa terá sempre menos notoriedade, menos experiência mediática e provavelmente menos capacidade oratória do que Rui Costa. Isso faz parte de qualquer mudança. Nenhuma alternativa nasce totalmente preparada aos olhos dos sócios, mas chega um momento em que o maior risco deixa de ser mudar. Passa a ser continuar exatamente na mesma.


Talvez o mais difícil para muitos benfiquistas seja aceitar que querer mudança não significa amar menos o Benfica. E também não significa desrespeitar Rui Costa ou aquilo que representa emocionalmente para tantos adeptos. Significa apenas perceber que há ciclos que deixam de conseguir levar um clube para a frente.


O Benfica sempre foi um clube profundamente democrático, exigente e vivo. Cresceu porque nunca teve medo de discutir, de evoluir e de mudar quando sentia que o rumo já não era de sucesso e talvez esteja precisamente aí o desafio atual: voltar a colocar a exigência à frente do “medo da mudança”.


Porque o mais trágico é que tudo isto acontece numa das fases financeiramente mais fortes da história do Benfica. Nunca o clube vendeu tanto, nunca movimentou tantos milhões, nunca investiu tanto no futebol. E, paradoxalmente, raramente pareceu tão distante da sua identidade competitiva.


Este texto não nasce de ódio a Rui Costa. Nasce precisamente da frustração de perceber que aquilo em que tantos benfiquistas quiseram acreditar não se transformou num Benfica forte, dominador e vencedor que todos imaginavam. Porque chega um momento em que continuar à espera que tudo mude sozinho deixa de ser estabilidade, passa a ser conformismo.


E um clube como o Benfica, quando deixa de meter medo, começa lentamente a deixar de ser Benfica.


O Benfica não precisa de salvadores, nem de viver preso à gratidão eterna por figuras do passado. A História deve ser respeitada, mas não pode servir de escudo para o presente nem de desculpa para o futuro. O Benfica precisa de voltar a ter fome, ambição, coragem e vontade de arriscar num caminho diferente. Precisa de uma liderança obcecada em ganhar, inconformada com a derrota e capaz de devolver ao clube a exigência que sempre definiu a sua identidade.


Precisa desesperadamente de voltar a querer ser grande.

Não apenas parecer grande.  

 
 
 

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