Como se desenha uma casa
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▶ Texto enviado pelo benfiquista Simão Pedro
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Este é o Benfica da Sofia, e é também o meu. Não conheço a Sofia, vi o seu desenho exposto na Casa do Benfica do Porto. Estará numa parte crucial do crescimento, começando a perceber como se agarra num lápis, como se conjugam ou não as cores e, depois, como são apenas dois dedos de uma mão os responsáveis por tingir e dar forma ao silêncio.
A Sofia saberá mais tarde a anatomia asquerosa do silêncio. Para já, quis tão só desenhar uma casa. “Primeiro abre-se a porta/por dentro sobre a tela imatura onde previamente/se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente, a mãe para sempre morta.”
Decidiu desenhar um símbolo, o mesmo que o senhor Américo traz sempre na lapela alfinetado, como quem diz: cada um decide o seu lugar de apreço para a saudade, eu escolhi um palmo à esquerda do centro do meu peito. “Anoiteceu, apagamos a luz, e depois,/como uma foto que se guarda na carteira,/iluminam-se no quintal as flores da macieira/e, no papel, de parede, agitam-se as recordações”.
Queremos todos engavetar a memória, deixar as recordações todas bem juntas para que não escapem, ou escapem o menos possível, para que não doam quando parece que o que mais sabem fazer é isso, provocar dor. Então, damos-lhes cores e pintamos dentro e fora das linhas, desafiando qualquer fronteira como as mãos nos dizem para fazer. “Protege-te delas, das recordações, dos seus ócios, das suas conspirações;/usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:/o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.” Erguemos então uma casa.
E voltamos a erguer, quando tudo vira ruína. Deixa-me ir à frente, abrir-te a porta, mostrar-te a cidade pelas janelas da minha casa. É lá, numa dessas janelas, que cantam os pássaros amarelos.
“Uma casa é as ruínas de uma casa,/uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;/desenha-a como quem embala um remorso,/com algum grau de abstração e sem um plano rigoroso.”





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