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Se isto é errado, eu não quero estar certo

Sempre fui um fã de rádio e foi através da rádio que vivi um dos momentos mais vibrantes da minha vida. Lembro-me perfeitamente de acompanhar o mítico Porto X Benfica de 1991 que ganhámos com dois golos do César Brito. Deitado na cama dos meus pais, ouvi o relato do jogo num aparelho cor de laranja que só apanhava as rádios locais e a Renascença. Apesar de não ter visto o jogo, sentia-se na voz do relatador, e no som ambiente do estádio, toda a tensão associada àquele encontro: o Porto tinha eliminado o Benfica, uns dias antes, para a taça, apesar de termos jogado muito bem, e este jogo era decisivo para apurar o campeão. O clima, esse, era irrespirável, com declarações (e ações) incendiárias que, lamentavelmente, fizeram escola. A alegria sentida aquando dos golos da nossa equipa foi indescritível. Não foi só um campeonato que se ganhou: foi um daqueles jogos que define o que é ser Benfica. É dar tudo. É ir à luta. É sair por cima quando já ninguém dá nada por nós. Isso é Benfica.


O meu primeiro ídolo vestia a camisola 6 e chamava-se Jonas Thern. Sei que a maioria dos miúdos gosta dos avançados ou dos jogadores vistosos, mas eu gostava daquele sueco discreto que varria o meio-campo com uma classe incrível. No Natal de 1990, recebi uma camisola encarnada ainda com o patrocínio da FNAC – o equipamento completo, com meias e tudo! Meias grossas, pareciam lixa, mas pronto: o importante é que eram Benfica. Na minha família direta todos eram Benfica, mas ninguém era sócio. Quando me fiz adulto, fui estudar para Lisboa e tornei-me sócio, em pleno Vietname. Sofri, como todos sofremos nessa altura. Passados 3 anos, a vida deu uma volta grande e tive de deixar de ser sócio: ou pagava as quotas ou punha comida na mesa, era assim tão simples. Foi duro, mas tinha de ser. A paixão foi-se desvanecendo, mas ia sempre acompanhando o Benfica.


No último ano e meio, fui voltando a descobrir o Benfica, muito graças a projetos como o Benfica Independente que, com os seus podcasts, fizeram-me recordar o rapaz que ouvia rádio no aparelho cor de laranja. Ouvir o Benfica FM ou a História Gloriosa, entre outros, foi também uma forma de reacender essa paixão. Aqueles programas são Benfica e fizeram-me (voltar a) perceber como é bom ser do Benfica.


Apesar de não poder votar, acompanhei as eleições para o nosso clube com muito interesse. É verdade que não foi um processo isento de críticas (com a falta de debates à cabeça), mas isso não me impediu de viver o dia 28 de outubro com a inquietação própria de quem sabia que aquele era um dia importante. O resultado não foi aquele que mais desejava, mas não foi por isso que me desiludi, bem pelo contrário. O dia das eleições não só foi antecipado com pouca antecedência, como se realizou no meio da uma pandemia, numa quarta-feira, e mesmo assim contou com a participação de 40 mil associados. Ver esta mobilização gigantesca e ordeira para decidir sobre o futuro do clube, foi algo realmente comovente e impressionante. “Como é que eu não faço parte disto?”, pensei várias vezes. O resultado eleitoral foi o que foi. Parabéns a todos aqueles que participaram. Sinceramente. Agora, só quero que o Benfica ganhe.

Quando explico a algumas pessoas o que sinto pelo Benfica, e que retomei a minha condição de sócio, ficam a olhar para mim como se padecesse de alguma maleita ou algo estivesse errado. Bem, se isto é errado, eu não quero estar certo. Por isso digo, com orgulho, que sou Benfica. Voltei a ser sócio do clube do meu avô, do Jonas Thern e do César Brito. Sou Benfica e isso, para além de eterno, também me envaidece.


▶ Texto enviado pelo benfiquista Ricardo Cataluna.


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