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Basquetebol 2018/2019 - Análise


Termino as análises individuais às épocas das modalidades de pavilhão com a análise da temporada da equipa de basquetebol.


A equipa de basquetebol encarnada tinha vindo da sua pior temporada dos últimos 10 anos, na qual tinha falhado o acesso à final do play-off ao ser eliminada nas meias-finais pelo FC Porto. Após esta época que foi uma grande desilusão, seguiu-se um Verão conturbado.


Tudo começou com a polémica e misteriosa saída de José Ricardo. Apesar do vice-presidente das modalidades Domingos Almeida Lima ter chegado a garantir a sua continuidade numa conferência de imprensa (tinha mais um ano de contrato), algumas semanas mais tarde, o antigo treinador da UD Oliveirense e do BC Barcelos acabaria por ser despedido. Um despedimento que assumiu contornos polémicos e que não foram devidamente esclarecidos, sendo que a sua saída nem foi oficializada pelo clube.


Para o seu lugar viria o espanhol Arturo Álvarez. Um treinador de 41 anos com mais de 20 anos de carreira e que já tinha corrido meio mundo, mas que apenas na última temporada ao serviço do CB Prat tinha feito um trabalho relevante. Ainda durante a pré-temporada, o reforço Kris Joseph lesionou-se com gravidade e acabaria por ser dispensado. Para o seu lugar, seria contratado Micah Downs aos russos do Avtodor Saratov.


Apesar do período conturbado, as coisas a seu tempo entraram nos eixos. Depois de concluída a pré-temporada, o clube iria iniciar a época oficial com a disputa da pré-eliminatória de acesso à Fase de Grupos da FIBA Europe Cup. Aqui a sorte foi madrasta para o Benfica, tendo-nos calhado a poderosa equipa italiana do Dínamo Sassari. Na eliminatória a duas mãos, a equipa italiana não deu hipóteses, vencendo os dois jogos sem dificuldades (34 pontos de diferença em Itália e 19 no pavilhão da Luz). Para o Benfica, a Europa acabava ali, enquanto o Dínamo Sassari acabaria por vencer a competição e sagrar-se-ia vice-campeão italiano.


Já no campeonato, a equipa teve um início notável com 14 vitórias consecutivas, sendo o melhor registo dos últimos nove anos. Mais do que as vitórias, em boa parte destes jogos, a equipa rubricou exibições dominantes de princípio ao fim do jogo, mostrando que era capaz de alcançar grandes coisas apesar da pré-época atribulada e das constantes lesões que assolavam o plantel.


Pelo meio desta sequência positiva de resultados, houve mais uma alteração no plantel. O norte-americano Quentin Snider, base recrutado directamente ao college, não se adaptou à realidade do Benfica e acabara por ser recambiado para o Imortal de Albufeira. Para o seu lugar, chegara Juan Pablo Cantero, base internacional argentino de 36 anos.


O primeiro tombo chegaria no dia 26 de Janeiro de 2019, quando a equipa deslocou-se ao Dragão Caixa e sofreu uma derrota copiosa dos azuis por 96-78. Na altura, acreditei que era apenas um dia mau, mas a verdade é que isto seria o início da derrocada. Duas semanas após este desaire, realizou-se a Taça Hugo dos Santos em Sines. Depois de eliminar a Ovarense nas meias-finais, o Benfica acabaria por sucumbir na final frente à UD Oliveirense, perdendo por 77-70, muito graças a uma primeira parte horrível na qual a equipa campeã nacional tinha uma vantagem de 21 pontos.


A seguir à perda do troféu, deu-se uma sequência de vitórias sofridas, com a equipa a não ter a consistência que mostrou no primeiro terço da temporada. Pelo meio, houve mais uma alteração no plantel. O poste espanhol Xavi Rey voltou a lesionar-se com gravidade na final da Taça da Liga, sendo substituído por Mickel Gladness, poste de 32 anos com experiência na NBA.


As exibições sofridas fizeram com que aumentasse a contestação à equipa e ao treinador Arturo Álvarez, mas a gota de água chegaria com a eliminação nos quartos-de-final da Taça de Portugal em Portimão, após derrota com a Ovarense. Sem grande surpresa, diga-se, Carlos Lisboa regressaria ao comendo técnico dos encarnados, para orientar a equipa na Fase Intermédia do campeonato e no play-off.


O começo do regressado Carlos Lisboa também não foi positivo, com a equipa a perder três dos primeiros cinco jogos, inclusive em casa contra UD Oliveirense e FC Porto. Apesar do começo atribulado, a equipa assentou o seu jogo e iniciou uma nova sequência de vitórias, ao vencer os cinco últimos jogos da Fase Intermédia, dois deles em casa dos adversários directos, alcançando assim o segundo lugar, que só seria suficiente para garantir o factor casa até às meias-finais.


Depois de eliminar o CAB Madeira sem dificuldades por 3-0, chegaria uma nova semi-final contra o FC Porto, onde chegaria a oportunidade da equipa se desforrar da época anterior. Nesta semi-final, a equipa mostrou clara superioridade face ao rival azul e branco, conseguindo vencer a eliminatória por 3-0, partindo para a final contra a UD Oliveirense com a moral em alta após 11 vitórias consecutivas.


Chegada a final, a equipa partiria em desvantagem no primeiro jogo, após derrota por 85-75, fruto de um primeiro quarto de grande inspiração para a equipa da casa. Apesar de terem entrado na final com o pé esquerdo, a equipa deu uma resposta no segundo jogo, conseguindo empatar a final e dando esperanças aos adeptos de que esta equipa tinha hipóteses de conquistar o título nos dois jogos na Luz.


No terceiro jogo, o primeiro no pavilhão da Luz, a equipa tinha o jogo na mão a três minutos do fim, mas uma série de más decisões técnico-tácticas permitiram a recuperação à equipa da Oliveirense, que acabou que conquistar a vitória já no prolongamento.


No quarto jogo, disputado três dias depois, a equipa orientada por Norberto Alves foi superior durante grande parte do jogo. A equipa do Benfica ainda conseguiu esboçar uma boa reacção no terceiro quarto, mas a equipa visitante voltaria a assumir as rédeas do jogo, num último período, onde a equipa encarnada já estava emocionalmente esgotada e sem lucidez e clarividência nas suas acções.


No final, a diferença de 25 pontos que deu o bicampeonato à UD Oliveirense, mostrou a superioridade do conjunto de Oliveira de Azeméis em todos os aspectos, colectivos e estruturais. Segue-se agora uma análise individual a alguns jogadores e alguns outros aspectos do basquetebol do Benfica:



Micah Downs - é claramente, o melhor jogador que vi jogar no basquetebol do Benfica no meu tempo de vida. Micah Downs é um jogador que faz de tudo: pontua, assiste, ressalta, ataca, defende... Como se não bastasse, o extremo ainda é dotado de uma capacidade atlética fora do comum no basquetebol nacional, que confere momentos de espectáculo nos pavilhões espalhados pelo país. Veremos como será o seu futuro...


Aléx Suárez - Aléx Suárez chegou ao Benfica rotulado de eterna promessa no basquetebol espanhol. Sendo uma aposta pessoal de Arturo Álvarez, o extremo-poste de 25 anos chegou ao Benfica com o objectivo de relançar a carreira. Apesar de chegar sob expectativas elevadas, a verdade é que o internacional pelas camadas jovens de Espanha raramente fez a diferença, mostrando ser daqueles jogadores que, ou contribui directamente para o resultado com uns triplos, ou que não acrescenta nada ao jogo. A mim pessoalmente, faz-me confusão como é que um jogador que mede 2,06m pode ser tão inútil na luta nas tabelas. É daqueles jogadores que só faz a diferença quando as bolas caiem no cesto e um jogador estrangeiro tem de ser mais do que isso.


Quentin Snider - foi recrutado à Universidade de Louisville, onde foi colega de Donovan Mitchell, estrela dos Utah Jazz. A contratação do base de 23 anos ditou um novo paradigma na contratação de jogadores norte-americanos, com a aposta em jovens recrutados directamente às academias americanas. Nos três meses em que cá esteve, Snider mostrou muito pouco. Porém, eu sempre disse que ele era um jovem que se estava a adaptar a uma nova realidade num país novo e que precisava de tempo para mostrar o seu valor, tempo esse que acabou por não ter. Apesar de não se ter afirmado, nunca deixei de o considerar um prospect interessante e acho que a estrutura do basquetebol deveria criar um contexto que permitisse apostar em mais jogadores deste perfil.


Juan Pablo Cantero - o base de 36 anos foi mais uma aposta pessoal de Arturo Álvarez e foi mais uma aposta falhada do clube. Com excepção dos jogos das meias-finais do play-off, o internacional argentino nunca deu quaisquer garantias, mostrando ser um jogador que, para além de não ser um grande pontuador, era também lento de movimentos e tinha visíveis limitações físicas, que não lhe permitiam jogar muitos minutos. Ficou claro e evidente que um base estrangeiro tem de mostrar muito mais.


Xavi Rey e Mickell Gladness - Xavi Rey foi o reforço que me deixou com mais expectativas. Internacional espanhol com carreira feita na Liga ACB, o poste era o "monstro do garrafão" que faltava à equipa já há algum tempo. No entanto, uma lesão contraída na pré-época fez com que só se estreasse em Dezembro. Na final da Taça Hugo dos Santos voltaria a lesionar-se com gravidade, levando a estrutura a ir ao mercado à procura de outro poste. É pena, porque nos poucos jogos que fez mostrou que era um jogador de outro nível. Um Xavi Rey saudável seria facilmente um candidato a MVP da liga. Mas também não podemos contratar jogadores que passam mais tempo lesionados do que aptos para ir a jogo. Foi então substituído por Mickell Gladness, um poste mais móvel e com maior poder de impulsão, o que conferia maior apetência nos afundanços e nos bloqueios. Mas por outro lado, era também um poste mais magro e mais esguio, o que fazia com que tivesse mais dificuldades a defender contra postes mais dominantes e fisicamente robustos. E foi essa fraqueza que veio ao de cima nas finais contra a Oliveirense, onde se viu ele a levar um baile do Eric Coleman. Com certeza que o Gladness vai passar o Verão a ter pesadelos com o novo reforço do Benfica.


Arturo Álvarez e Carlos Lisboa - o começo do técnico espanhol foi promissor, com 14 vitórias consecutivas na Fase Regular e a prática de um basquetebol que privilegiava a partilha de bola no ataque, sendo um basquetebol diferente daquele que estávamos habituados a ver nos últimos anos, cuja manobra ofensiva estava muito assente no jogo exterior. Porém, quando o rendimento da equipa começou a cair, este não mostrou capacidade de a recuperar. Tendo em conta a recuperação que a equipa ainda teve com Carlos Lisboa, não iremos ficar realmente a saber se o Arturo Álvarez não tinha mesmo capacidade para mais, ou se foi apenas utilizado como bode expiatório na pior fase da época, mas a verdade é que o espanhol saiu do Benfica pela porta pequena. Aquando da sua saída, defendia o regresso de Carlos Lisboa porque naquele momento, acreditava que ele era o único homem capaz de recuperar mentalmente a equipa. Por outro lado, também sempre disse desde o dia em que ele regressou, que acontecesse o que acontecesse, teria de sair no final da época. No aspecto mental, a chicotada psicológica fez jus ao nome e surtiu efeito, sendo que Arnette Hallmann chegou a referir numa entrevista ao Record que a mudança no comando técnico foi importante para recuperar mentalmente a equipa. Porém, contra uma equipa como a UD Oliveirense, isso já não seria suficiente, e todas as deficiências técnico-tácticas de Carlos Lisboa acabaram por vir ao de cima, desde a forma como apostava teimosamente nalguns jogadores, como utilizava outros até à exaustão. Carlos Lisboa não é nem nunca será o homem indicado para liderar um projecto na modalidade.


Estrangeiros - desde a época 17/18, já passaram os seguintes jogadores estrangeiros pelo basquetebol do Benfica: Carlos Morais, Raven Barber, Jesse Sanders, Antywane Robinson, Miroslav Todic, Damier Pitts, Quentn Snider, Xavi Rey, Aléx Suárez, Kris Joseph, Micah Downs, Juan Pablo Cantero e Mickell Gladness. Ao todo, são 13 jogadores estrangeiros, a maioria dos quais com experiência na NBA e/ou em campeonatos de topo na Europa, sendo que mais de metade deles não foram mais-valias no Benfica. Já a UD Oliverense, vai buscar jogadores estrangeiros à segunda e à terceira divisão francesa, que no entanto, conseguem ter prestações mais consistentes que os nossos. Quando isto acontece, é porque alguma coisa não está a bater certo.


Rui Lança já avançou que Carlos Lisboa continuará a ser o treinador do basquetebol do Benfica, uma decisão que não faz sentido na minha opinião. No entanto, também há que por os pratos todos na mesa. Quando apenas um dos quatro estrangeiros do plantel faz a diferença, a culpa não pode ser só do treinador.


Quanto a mexidas no plantel, já foram anunciadas as saídas de Mickell Gladness, Juan Cantero, Álex Suárez, bem como as de Cláudio Fonseca (que será jogador do Sporting CP) e do internacional angolano Jaques da Conceição. Micah Downs ainda tem o futuro indefinido, sendo público que tem uma proposta para renovar.


A nível de entradas, já foi anunciada a contratação de Eric Coleman, um dos jogadores bicampeões nacionais pela UD Oliveirense. O poste de 34 anos deverá ser o poste suplente da equipa, visto que na próxima época cada plantel na Liga Placard poderá ter cinco estrangeiros (pelo menos um comunitário). Fala-se também no regresso de João "Betinho" Gomes, após 5 anos no estrangeiro.


Se não houver mais mexidas para além dos estrangeiros, mantemos grande parte dos jogadores portugueses de nível de selecção nacional, o que mostra que fazemos um bom trabalho neste aspecto. O problema é que a nível de estrangeiros deixamos muito a desejar. E o que mais me aborrece neste aspecto, é que se tivéssemos um planeamento, um treinador a sério e um scouting de qualidade, conseguiríamos dominar a nível nacional e fazer melhor figura nas competições europeias com um orçamento bem mais baixo.


Vamos ver o que o Verão nos reserva...





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