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Benfica!

▶ Texto enviado pelo benfiquista Ricardo Silva


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NOTA: A opinião aqui transmitida é da inteira responsabilidade do seu autor e não representa, necessariamente, a opinião do Benfica Independente.

Há uma ténue linha que marca a partida de alguém. Hoje, está. Amanhã, nunca mais irá estar. Assim, sem aviso prévio. Sem saber sequer quem vai ser campeão mundial em 2026. Ou, até, perceber se é Marco Silva que vai devolver o sucesso ao nosso clube. Sabendo apenas que Pogacar vai ganhar o Tour – partindo do princípio que não haverá intervenção do imprevisível. O tempo deixou de ser tempo; o futuro e a incerteza deixaram de preocupar quem parte. 


Não posso classificar de inveja aquilo que sinto quando vejo filhos a apelidarem os pais de heróis. Quer seja quando partem ou quando saúdam a sua existência. Talvez pena ou tristeza por não poder dizer o mesmo. Poder, até posso. Mas não o diria de forma sincera ou em consciência. Habituei-me a normalizar esse sentimento e a lidar com ele. Não por maldade ou distância. Apenas porque pautei a passagem entre a juventude e a vida adulta com algumas dores de crescimento. Digamos que, mais do que um exemplo a seguir, a figura paternal revelou-se para mim, em alguns aspetos, como uma amostra paradoxal do caminho a levar. Mesmo sabendo que, do lado contrário, o olhar para comigo sempre fosse de orgulho e presença. Talvez até em demasia. É verdade que sempre estive próximo. E nunca verbalizei este sentimento. Até hoje. Mas deixemos essa consternação pessoal de lado.


No entanto, verdade seja dita, há algo que emerge sobre tudo o resto. Algo que sempre fui tendo noção ao longo dos últimos longos anos de mentalização do que poderia acontecer, mais dia, menos dia. Apesar de todas as curvas da nossa viagem, sempre agradeci a forma como me foi passado o testemunho. O gosto pelo desporto em geral, mas, sobretudo, pelo futebol. E, acima de tudo, pelo nosso Benfica. Nisso, não tenho nada a apontar. Aliás, tenho muito. Foi exemplar a forma como me fez apaixonar pelo vermelho e branco. Desde as precoces idas ao antigo, mas tão presente, Estádio da Luz, somente com dois anos, às cotas que fez questão de assegurar até à maioridade. 


Apesar de alguma distância de Lisboa, as romarias ao estádio nos anos 80/90 eram frequentes. Lembro-me que eram os meus dias favoritos, mesmo que ainda fosse uma criança imberbe. Fui, seguramente, mais de uma centena de vezes ao estádio, muitas mais ao antigo que ao atual, e na grande maioria delas acompanhado pelo meu pai. Desde o primeiro dia até hoje, há algo que nunca mudou: sempre que entro no estádio fico automaticamente com “pele de galinha”. Nunca falha. É automático. Não sei explicar. Talvez seja paixão. A paixão que tão bem me soube transmitir. 

Nem só de estádio se faz esta história, porque o Benfica acontece em qualquer esquina. Em Leverkusen, quando me escondi com vergonha atrás da porta da sala, depois de não conseguir conter o choro após o quarto golo. Percebendo dias depois que, afinal, os homens também choravam, quando vi as lágrimas a caírem-lhe do rosto, enquanto ouvia as declarações do enorme Senhor Toni, após o 6-3. Ambos na nossa sala, onde sempre víamos os jogos juntos.  


As idas ao estádio abrandaram com o passar dos anos – e com a deterioração do poder instalado; mas isso não merece ser discutido, hoje, aqui. Vieram as discussões caseiras. “Devia jogar o Quim”, apontava. “Não, devia ser o Moreira”, retorquia eu. Ou vice-versa, porque sinceramente nem me recordo bem quem defendia o quê. E assim, sucessivamente, à medida que se avançava no campo. Raras eram as concordâncias. Também isso acalmou com o tempo, dando lugar a serena harmonia. Talvez por resignação dele. Ou somente por perceção de que a passagem de testemunho tinha sido passada de forma incólume. Em certo ponto, o mais novo passou a exercer naturalmente um papel de “dono” da razoabilidade benfiquista lá de casa, enquanto o mais velho passava a lidar de forma calma com todos os desfechos e agruras. 


Sim, ainda consegui cumprir com o desígnio de o levar ao novo estádio. Vi, agora mesmo, através de uma rápida pesquisa, que já foi em 2016, numa curta e decisiva vitória para o título de 2015/16. Já lá vão 10 anos, embora na minha cabeça pareça que foi ontem. Apesar da dificuldade logística e da exibição não ser condizente com os famosos anos 80, cumpriu-se Benfica nesse dia. 

Recentemente, naquele que muitos apelidaram do dérbi do século, mas que rapidamente se tornou na desilusão do século, fiz questão de vermos juntos, à antiga, sabendo que poderia ser das últimas oportunidades de festejarmos juntos. Não conseguimos algo que nos primórdios da minha existência benfiquista parecia tão simples e destinado. De lá para cá, escusado será dizer que as conversas, quer pessoais ou telefónicas, redundavam em grande parte sobre o nosso Benfica. Até ao fim. 


Obviamente, que, nesse capítulo, foi um pai exemplar. Tal como também eu tento ser na passagem desta paixão única. Também no lado humano. Sinceramente, nem sei se era de esquerda ou direita – e tão patética que considero essa questão direcional. Sei que era um humanista, acima de tudo. E é só isso que me interessa. Perante a minha experiência interpessoal, nem sequer consigo conceber ou imaginar filhos que não tenham o mesmo clube que os pais. Claro que existem. E nem quero com isto insinuar que deva existir obrigação ou condicionamento. No entanto, costumo dizer que basta, simplesmente, levar uma criança ao Estádio da Luz e ela nunca mais ousará sequer pensar em ter outro clube - embora, não consiga garantir que o atual estádio tenha o mesmo efeito do antigo. No meu caso, olho para trás, e sei bem que, de forma natural, nunca houve espaço para que eu fosse de outro clube. Felizmente.  


Perante isto, resta-me agradecer o legado desportivo, futebolista e, acima de tudo, benfiquista. Obrigado pai, por me teres feito benfiquista. É um chavão, muito usado. Evito chavões, mas não o consigo sentir de outra forma. E, claro, por mais razoabilidade que me tentem mostrar, nunca deixarei de acreditar que irei cumprir o sonho de assistir àquilo que tiveste oportunidade de celebrar por duas vezes. Obrigado! Haverá sempre um Benfica entre nós, que nunca irá desaparecer. Benfica!

 
 
 

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