Carta aberta ao Presidente Rui Costa
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▶ Texto enviado pelo benfiquista João Hartley
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Escrevo com o coração nas mãos. Porque a Gala que leva o nome de Cosme Damião não é apenas um serão de troféus; é um rito de memória. É a noite em que reafirmamos quem somos. E nós somos — desde a origem — um clube do povo, livre, fraterno, democrático, que sobreviveu a ventos contrários porque nunca dobrou a espinha dos seus valores. Foi assim com Cosme, fundador, jogador, capitão, treinador e dirigente, que segurou o Benfica quando o tentaram partir. Foi assim com Félix Bermudes, que deu nome, ética e voz à nossa mística. Foi assim com Manuel da Conceição Afonso, operário, anarcossindicalista e presidente, um exemplo de decência e coragem em tempos sombrios.
É por tudo isto que a Gala Cosme Damião tem de ser casa sagrada. A nossa casa. Não um palco para legitimar presenças que afrontam o que defendemos há 122 anos. Este ano, a cerimónia foi até mais reservada à comunicação social — ainda mais razão para que seja um momento identitário, não um desfile de “protocolos” vazios.
Digo-o sem rodeios: não aceito ver representantes de forças políticas extremistas — cujo discurso divide, segrega e diminui — sentados em lugar de honra na nossa noite maior. É uma ferida aberta na memória do Benfica que viu o seu primeiro hino, “Avante, Avante p’lo Benfica”, censurado pelo Estado Novo em 1942 precisamente pela palavra “Avante”, com a carga de liberdade que transportava. Um clube que teve o seu hino silenciado por um regime autoritário não pode normalizar, no seu altar, a presença de quem desfaz por dentro a gramática do respeito e da dignidade humana.
Também me custa — e muito — ver legitimadas, nesta gala, figuras do dirigismo desportivo que tantos benfiquistas têm questionado pela forma como se tem governado o nosso futebol. Não falo de clubites: falo de credibilidade do jogo e coerência com aquilo que o Benfica tem dito e escrito ao longo dos últimos anos. As críticas internas, vindas de benfiquistas com história e responsabilidade, existem - e não nasceram ontem. Não precisamos de transformar a nossa comemoração num ato protocolar que contradiz a nossa própria voz.
Presidente, isto não é diplomacia; é identidade. A nossa Gala Cosme Damião não “tem” de ter convites institucionais. Não é 10 de Junho. Não é um Conselho de Estado do desporto. É a festa da nossa família. Se fosse para convidar por “dever”, então que se convidassem, por igualdade, os presidentes de todas as federações - coisa que nenhum benfiquista de bom senso desejaria. A nossa gala existe para homenagear quem serve o Benfica e para celebrar quem o honra dentro e fora de campo - não para parentalidades de circunstância. (Aliás, ao fechá-la à imprensa, o próprio Clube sublinhou o carácter interno da cerimónia).
Quero que esta carta transporte o orgulho e a dor de quem cresceu a cantar “Ser Benfiquista” — canção erguida em 1953 para juntar milhares e ajudar a construir o Estádio da Luz — sabendo que, antes dela, houve um hino calado pela censura. O Benfica não esquece. E, porque não esquece, não pode abrir as portas do seu coração a quem, pela prática ou pelo discurso, desfigura o que somos: um clube “de todos, um”
Peço-lhe, Presidente, três compromissos simples e firmes:
1. Coerência ética na Gala: que a lista de convidados de honra reflita os nossos valores e o sentido da noite. Não precisamos de “representação institucional” para aplaudir quem nos eleva;
2. Recentrar o critério: a Gala Cosme Damião celebra-se distinguindo atletas, equipas, técnicos, sócios, projetos - e benfiquistas que honram o emblema na sociedade. Ponto;
3. Memória ativa: que, todos os anos, a gala lembre o hino censurado — não por saudade, mas por vigilância. “Avante” não é um slogan; é uma vigilância moral contra a normalização do que nos feriu
Sei que liderar o Benfica é caminhar num fio de navalha entre o ruído do país e a grandeza da Luz. Mas liderar é escolher — e, no Benfica, a escolha certa é sempre a que respeita a nossa história e une os nossos. Cosme Damião, Félix Bermudes e Manuel da Conceição Afonso não nos legaram um clube de salamaleques; legaram nos um clube de princípios. É só isso que peço: que a Gala volte a ser um espelho limpo desses princípios.
Porque isto é o Benfica. E o Benfica merece, sempre, o lado certo da história.
Com respeito e franqueza benfiquista,
Um sócio que não abdica dos valores do seu Clube





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