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E quando a idade nos traz burrice?!

há 3 minutos
3 min de leitura

▶ Texto enviado pelo benfiquista Jónatas Miguel


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NOTA: A opinião aqui transmitida é da inteira responsabilidade do seu autor e não representa, necessariamente, a opinião do Benfica Independente.

Umas das minhas primeiras memórias são de ficar com as lágrimas nos olhos depois do Veloso falhar o penálti. O meu tio estava a ver o jogo connosco, o meu irmão ainda muito pequeno, e o meu pai a salientar a justiça do marcador, de uma forma natural mas chateado com a postura defensiva da equipa, “é sempre a mesma coisa, jogam a medo, vão encolhidos”… Na onda daquilo que até hoje pauta os seus comentários enquanto visionamos os jogos, “Ah! Que sorte! Deviam ter sofrido golo”… “Bem feito, pode ser que assim acordem e comecem a jogar”, “Não mereceram”. Independentemente disso, uma coisa era certa, a gasolina da Shell era bem melhor do que as outras e, não raras vezes, o trajeto era alterado e as restantes bombas de gasolina fraca ignoradas no percurso. Eu e o meu irmão, delirantes, a minha mãe meia incrédula e divertida, mas a gasolina da Shell era mesmo melhor, bastava ouvir o som que o carro fazia após o abastecimento, quando o meu pai acelerava! Vrum, vrum!


Depois já com o Milão dos holandeses, o expoente máximo do futebol mundial à época… parecia mesmo impossível vencer! E o Diamantino não jogava… “vão outra vez jogar a medo, a defender… que percam, mas que joguem para a frente!” “Mas pai, é o Milão”. Juntamente com o meu irmão, editámos o primeiro e último número do Jornal Especial, com agrafos e colagens a trabalhar em harmonia, e com grande destaque para a final europeia. Eu sabia o onze do Milão de cor. Se for agora confirmar na internet, provavelmente vou duvidar de algumas peças… é o fim das dúvidas dos tempos, agora que temos acesso a todas as certezas, muitas tardes e noites de discussão se esvaíram. Muitas horas de treino de argumentação se perdem…


As grandes noites europeias eram sempre mágicas, o jogo com o Leverkusen, gravado e visionado várias vezes em VHS, o 6-3, com tios e primos a entrar e a sair pela porta e a comentar o sucedido, algo nunca visto! (éramos vizinhos), a ida para a loja do meu pai para ver a meia-final com o Parma, tinha parabólica… a segunda mão penso que já vi em casa, num final de tarde na TV, Mozer expulso, Sensini sempre com aquela cara de parvo, e Kulkov a falhar uma receção no final do jogo, que o deixaria isolado… na Alemanha tinha corrido tão bem! E sabem que mais, nem vou verificar os factos que aqui estou a descrever, não quero infetar as minhas memórias com verdades! E até o Capelo, mais uma vez o grande Milão (talvez aqui já fosse Milan, não tenho a certeza de quando mudou!) a referir que a equipa do Benfica seria de topo europeu se quatro dos seus jogadores estivessem a 100%, que orgulho, Mozer, João Pinto, Isaías e Caniggia! O pior era que do lado dele eram uns onze! Desigual outra vez, mas ambas as equipas em piores versões! Ainda tenho uma camisola do Milan que o meu pai me comprou numa viagem de trabalho que fez… a Roma! Para o meu irmão também foi Milan, claro! A minha já sem símbolo ou publicidade, que se esfumou nas lavagens lá de casa… Mas ainda jogo com ela… quando jogo, ou melhor, quando vou para o campo com amigos! A partir daí foi o que foi, e só laivos de João Pinto e mais tarde Aimar e Saviola me fizeram recordar esses tempos (e o Cardoso também é o maior).


Toda esta introdução para chegar ao meu ponto: daquilo que mais recordo dos meus primeiros tempos a ver o Benfica com emoção são os craques e os seus detalhes. Não os bigodes, agora substituídos pelas tatuagens. Não as camisolas brancas, que agora têm nuances e bordados. Mas os calções térmicos do Magnusson. Isso mesmo. Coisas importantes, coisas que nos fazem percorrer as montras das lojas de desporto de Coimbra “Onde será que há uns iguais!”, “Terá comprado na Suécia?!”. Ainda vieram uns calções de licra dos Estados Unidos pela minha tia. Mas não. Aquilo não era a mesma coisa. Os do Magnusson não eram de licra. Tinham espessura. Tinham azul. Permitiam um chuto forte.


Ainda não há muitos anos caí na estupidez de discutir a venda de um jogador pelo prisma do retorno financeiro. Que horror! Talvez tenha sido a gota de água. Como estar a discutir as finanças do clube, que não conheço nem quero conhecer, ao invés de questionar porque que razão nem o Pavlidis nem o Jhon Durán usam calções térmicos?! Será essa a prova máxima de que, por vezes, a idade não traz apenas experiência. Traz também alguma burrice.

 
 
 

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