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Ensaio sobre a perda

Nasci e cresci a apoiar e a vibrar com um clube que se fez grande através da sua massa popular. Um clube democrático quando a democracia não imperava no país, um clube que construiu o seu estádio pelas mãos e recursos dos sócios, um clube que não renegava o passado como se via pela tradicional cerimónia de depósito de terra dos estádios anteriores a cada vez que mudava de campo, pois andou muito tempo com a casa às costas.

No entanto, aos dias de hoje, o Benfica não tem nada a ver com isto. Ou não tem tido, e não é de agora. E torna-se difícil entender quando é que começámos a perder o nosso Benfica?

Na década de 80 quando vendemos o genial Chalana para pagar o fecho do 3º anel? Não acredito, pois continuámos a ganhar e a disputar finais europeias, e a exigência continuava em altas como se viu pela derrota de Fernando Martins ou a saída de Mortimore depois duma dobradinha que só repetiríamos várias décadas depois.

Terá sido naquele verão de 94, quando despedimos Toni, que se despediu em lágrimas num estádio sobrelotado que o ovacionava, depois de um quarto de século ao serviço do clube, e com os sócios a permitirem que essa saída se fizesse tranquilamente? Poderá ter sido, mas o que é certo é que, mesmo com derrotas e a entrada na maior seca de títulos do clube, o Benfiquismo silencioso fez-se ouvir em 2000 saindo à rua como nunca o havia feito à altura.

Terá sido em 2001 quando permitimos que o nosso monstro de betão fosse demolido para a construção da nova catedral? Talvez, mas eu que me mostrei favorável à mudança, talvez por conhecer os corredores daquela que era a minha segunda casa, tinha a noção da sua degradação e da dificuldade que era a sua reabilitação. E mesmo nunca esquecendo a velha casa seriamos sempre nós, adeptos, a reconstruir a mística na nossa nova Catedral, como bem salientou o insuspeito José Fialho Gouveia na sua inauguração.

Mas este processo acabou por permitir um tiro na tradição do clube: No clube que se havia feito com a ajuda dos seus, as torres de iluminação da velha catedral estavam cobertas com azulejos onde figuravam os nomes dos sócios que contribuíram para o financiamento das mesmas. Uma gratidão que pretendia eternizar sócios que ajudaram o clube sem nada pedir em troca. E os mesmos não foram conservados. Foram destruídos juntamente com as torres. Não terá sido aí que começámos a perder o nosso Benfica, mas poderá ter sido um sinal do que aí vinha. Na verdade, há pouco tempo, tivemos outro do género: recentemente foi destruída a última memória do antigo complexo da luz, na escadaria junto ao edifício da Cofina. Até há pouco tempo estava lá o último portão. Era o último resistente! E nada foi feito para o conservar. E aí penso que perdemos mais um pouco do nosso Benfica.

Mas voltando ao momento em que começámos a perder o Benfica, ainda hoje não sei bem onde foi. Terá sido nos anos seguintes à inauguração do estádio, onde apenas uma vez fomos campeões e tudo se permitia? Inclusive um jogo festa numa temporada concluída em 4º lugar, uma das piores de sempre?

Terá sido em 2010 quando, aproveitando uma liderança e um mais que provável regresso aos títulos, se permitiu uma mudança estatutária que ia contra tudo o que o clube tinha construído até então?

Terá sido em na década anterior quando se permitiu que reuniões magnas passassem a ser efetuadas num camarote, como que aceitando que a sua presença fosse residual?

Terá sido quando uma maioria de sócios acabou por aceitar um resultado eleitoral onde a o poder vigente fugiu, de todas as formas possíveis e imaginárias, à confirmação e legitimação do mesmo?

Como se viu, fomos perdendo o Benfica aos poucos, num processo que tem sido iterativo e sem haver o grito de revolta que se impera, e no qual o status quo instalado não se mostra incomodado nem amedrontado, apesar de ser conivente com o mesmo. Foi-se mudando uma forma de estar em que o respeito pelo passado de glória e de consideração pelos seus, porque o Benfica sempre foi constituído pelos seus sócios, foi deixando de ser o mais importante. Como que ignorando que recordar e respeitar o passado é a forma mais importante para consolidar o presente e fortalecer o futuro sempre com a sua identidade.

E nesta política de aceitação de tudo o que vem, chegámos ao ponto de ver um fenómeno único à escala mundial, desportiva e extra-desportivamente falando: um ato eleitoral com um povo a sair à rua, uma mobilização sem igual para, alegadamente (e neste caso específico é fundamental usar sempre o termo “alegadamente), deixar tudo na mesma. Um fenómeno que nenhum especialista em atos eleitorais consegue explicar.

E é nesta busca pelo momento onde começámos a perder o nosso Benfica que precisamos de alguém que diga mesmo basta. Alguém que dê a voz àqueles que votaram numa continuidade que tudo apontava que desse os resultados que estamos a ver agora e saber o que os levou a isso. Mas é também preciso que a pessoa em quem mais de quinze mil pessoas confiaram, enfrentando um dia chuvoso e frio e em tempos de pandemia, não deixe toda essa multidão órfã. Não por ser o salvador, porque o Benfica não é de salvadores ou de um Dom Sebastião pois não é assim que se recupera o Benfica. Mas por ter sido alguém congregador. E é fundamental ter alguém congregador. Alguém que dê a cara, contrariamente a quem nos governa. Porque só assim podemos voltar àquele momento: aquele em que começámos a perder o Benfica para o resgatar. Para recuperar a nossa mística, e é de mística que se fala, temos de saber onde a começámos a perder.

Porque já Laurent Moisset o dizia em 1991: “O Benfica é eterno. Eles não conhecem fenómenos de erosão que façam perigar as suas fundações mais seguras. Eles sabem sempre renovar a sua imagem. O Benfica é uma lenda”.


▶ Texto enviado pelo benfiquista Tiago Marques.


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