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  • Jota P

Fui a Liverpool e não voltei


Prólogo



A racionalidade da vida é uma dimensão importante, mas há dimensões emocionais a tocar no irracional que por vezes nos ocupam a mente e até o tempo.

Anfield é um sonho com trinta anos.

Grobbelaar, Souness, Rush e Dalglish na velha Luz.

O meu destino, geográfico e familiar, apresentou-me uma opção que não me completava perante o vermelho operário que me chegava das margens do rio Mersey.

As tardes mágicas de Wembley ajudavam a completar o fascínio.

O vermelho fez a ponte e o sorteio da Champions, em 2022, juntou o melhor dos dois mundos. Os meus dois mundos.

E chegou o dia.

Sozinho parti e não regressei.


Etapa 1: Canelas – Lime Station, Liverpool



Foi uma etapa a rolar, sem grandes subidas e que permitiu manter o pelotão unido.

Logo no aeroporto do Porto, um pequeno atraso no voo permitiu o tempo necessário para as primeiras conversas a vermelho. Daí a Birmingham foi uma tirada rápida, a ligação até à estação foi muito original e, à primeira refeição, seguiu-se a viagem até Lime Station, Liverpool.

A foto do grupo e cada um seguiu para os respetivos aposentos antes de rumar a Anfield.


Etapa 2: Lime Station – Anfield




Foi uma subida de quase 40 minutos, feita em bom ritmo, orientado pelo telemóvel até “lá cima”:

- “Sabe o caminho para o estádio?”, pergunto eu a um jovem vestido com a camisola dos Reds.

- “Não. Estou a seguir o telemóvel”, respondeu-me.

E lá fomos os dois – um tuga e um americano fascinado porque ia ver o primeiro jogo da Champions ao vivo.

Mais à frente, pai e filho. A mesma pergunta com a mesma resposta – “Somos da Dinamarca”.

O pelotão continuou a crescer e todos com o mesmo problema, mas às tantas já se tinham juntado a nós uma família de portugueses e três brasileiros. E foi assim que chegamos, fascinados ao topo da montanha. As típicas casas inglesas, as pinturas na parede e as placas a indicar o número da porta. Perdi a conta às que tinham referências a elementos históricos do Liverpool.

Na meta estava o prémio especial: Anfield!




Etapa 3: Pré-Match



Uma espécie de etapa a rolar, plana, mas longa. A antecipar a etapa especial que viria de seguida.

Uma primeira passagem pela porta principal, nas traseiras da Bancada Kenny Dalglish para comprar o programa do jogo. Uma revista de excelente qualidade dedicada ao jogo. Referências a todos os atletas do Benfica, ao treinador, o Darwin em destaque e a Eusébio, pois claro. Na parede da bancada uma referência à tragédia de Heysel e do lado direito os lugares de estacionamento marcados com fotografias dos craques do passado.

Ali, ao fundo, o portão mágico.



You’ll never walk alone”, a frase no portão que é uma homenagem a Bill ShanKly que foi o “fundador” do Liverpool moderno. Manager dos Reds de 1959 a 1974, saiu em litígio com o clube, mas em 1982 a Viúva de Bill abriu o portão mais icónico do futebol mundial.




Fotos e mais fotos antecederam a ida à Loja oficial situada junto à KOP. Ingleses por todo o lado e nem uma boca ou um comentário. Nada. Zero. Uma sensação de conforto e de segurança quase inexplicável. Os ajudantes dos adeptos sempre disponíveis para tirar dúvidas ou ajudar naquela foto para mais tarde recordar.

As ruas começavam a mostrar uma energia crescente com a presença de mais e mais adeptos. A hora do jogo aproximava-se. Era hora de ir para a bancada.


Etapa 4: o aquecimento!



“Bem-vindos adeptos do SL Benfica”

Uma placa à entrada da bancada relembrava-me como os ingleses nos tratam, a Nós adeptos do jogo. Senti-me bem recebido, ou melhor, senti-me bem por continuar a ser bem recebido, dos seguranças à polícia, do simpático “velhinho” que nos atendia no bar aos assistentes da bancada.

A festa estava instalada, mas eu precisava do meu momento. Deixei os companheiros de jornada e subi meia dúzia de degraus até à bancada.

Não contive as lágrimas- consegui!

Eu estava ali!


Quarenta anos de um sonho vividos em lágrimas.

Chorei, chorei muito e depois foi tudo e muito mais.

As conversas sobre a equipa inicial, o aquecimento dos jogadores e as bancadas cada vez mais compostas.

Ali, do lado direito um “bife” resolveu mostrar um cachecol associado a um clube que se alimenta do ódio ao Benfica. Nem cinco minutos esteve na bancada, sendo imediatamente retirado do recinto. E aqui, se me permitem, uma pequena pausa na descrição das etapas – os assistentes de recinto têm um desempenho incrível. Uma belíssima jovem inglesa, um peso pesado em modo bolacheirão são dois dos exemplos que me ficaram na memória. Em relação próxima com os adeptos, alinharam nas brincadeiras e criaram uma atmosfera que inibe maus comportamentos, que reduz o conflito. Simplesmente brilhante.

a entrada em campo



Etapa 5: o sonho!



Era a etapa super-especial, uma espécie de Alpe d’Huez das bancadas mundiais.

As colunas do estádio lançam o momento mágico que nos permite quebrar a regra. Peguei no telefone e gravei. Não resisti. Eu tinha de ter o meu vídeo do Hino que é cantado de forma gradual à capela por todo o estádio numa sintonia que impressiona. É mesmo tudo o que parece ser na televisão. Sente-se no corpo as vibrações do som que emana das bancadas. É um momento tremendamente especial.

As equipas, aí estão elas. O hino da Champions abre as hostilidades e as vozes tremem.

O silêncio de sessenta segundos em homenagem às vítimas de Hillsborough foi brutal! Que momento em memória dos 97 adeptos do Liverpool que em 1989 faleceram na bancada da meia final com o Nottingham. Noventa e sete pessoas que saíram de casa para ver um jogo e não regressaram a casa.

O nosso silêncio foi total.



Rola a bola e, sobre o jogo, tudo está dito e visto.

3-3!


Etapa 6: Eu amo o Benfica



O jogo termina e Nós, com as “colunas” no máximo prestamos o nosso tributo aos homens que vestem o Manto Sagrado. Como quase sempre acontece, estão ali uns segundos connosco, talvez um minuto, despedem-se e recolhem aos balneários.

E Nós continuamos a cantar.

O estádio ia ficando vazio e os intervenientes iam dando as entrevistas às televisões ali junto à KOP, do outro lado do campo.

E nós, continuávamos!

E continuamos.

O jogo tinha terminado às 21h50 e às 22h Nós continuávamos a cantar e assim continuamos.

Nas outras bancadas alguns adeptos do Liverpool assistiam fascinados à nossa manifestação de amor!

E...

Os jogadores, com os treinadores regressaram ao relvado. Uns de chinelos, outros mais ou menos vestidos para um encore com os milhares de benfiquistas que continuavam a cantar o seu amor ao BENFICA. E ali ficamos longos segundos e minutos unidos como sempre deveríamos estar.

Para uma espécie de Encore (do Francês “ainda”, “outra vez) de amor ao Benfica.

Já todos terão visto os vídeos, as imagens e as referências a esse momento.

Todas são insuficientes para explicar o que aconteceu.

Lágrimas vertiam nos rostos de todos – dos mais novos aos mais velhos. Olhos em água para alimentar a voz, cada vez mais e mais intensa.

Ir a Anfield, sonhar com o hino do Liverpool e acabo a aventura percebendo, como diz o Sérgio, que “não há pai para os adeptos do Benfica”.

Como é possível que no melhor palco do mundo, perante a mais imponente das bancadas da Europa, tenhamos conseguido esta manifestação tão incrível?

Os jogadores regressaram aos balneários e nós continuamos.

Uma vez e outra.

A instalação sonora do estádio saudava os “tugas” e informava que já podíamos sair. E nós não saímos.

Voltaram a repetir o apelo e nós continuamos.

E continuamos.

E ainda lá estamos porque eu não consegui sair de Anfield.

Ainda lá está a minha alma a cantar “ Eu amo o Benfica...”


Etapa 7: De Anfield à Royal Albert Dock


Os nossos corpos caminharam longos minutos pelas ruas de Liverpool, mas a alma continuava na bancada.

O jogo, o desempenho deste, a qualidade daquele.

O Gil Dias e o André Almeida, as saídas do Odisseas, ou a defesa do Alisson ao remate do Darwin.

Quão perto estivemos de conseguir?

E como teria sido o que não foi?

Vamos a pé ou chamamos um Uber?

Vamos indo.

E fomos até apanhar um Táxi já às portas do núcleo urbano da cidade.

Já em modo solitário, na fila para o Hamburguer, um jovem inglês, percebendo o meu ar “tuga”, mostra-me o telemóvel. Tinha estado na bancada até ao fim e gravou-nos. Estava fascinado dizendo-me que nunca tinha visto nada igual.

E a noite foi isso tudo – perceber que aos olhos dos melhores, nós tínhamos sido fantásticos.


Etapa 8: Contra-relógio

Uma caminhada matinal para tomar o pequeno-almoço e ver um pouco mais de Liverpool.

Lá em baixo, perto da Doca, junto às letras coloridas, uma estrutura em relva artificial era escalada por dois miúdos. Dez anos no máximo.

Iam a cantar “Eu amo o Benfica”.



Depois do tipo na fila do Mac, era a segunda vez que era “confrontado” com algo especial.

Não tinha ainda percebido de forma plena o que tinha acontecido.

Mas, pensei “uau, deve ter sido mesmo especial”.

De comboio até Manchester, duas horas para comer e era hora de voar para Palma de Maiorca e daí para o Porto.

Já na zona reservada do aeroporto de Manchester a má notícia em forma de notificação – a partida está atrasada uma hora e um quarto. Contas feitas, percebi que ia perder a ligação para o Porto.

E, o impensável aconteceu!

- “Tu estavas lá”, diz-me um miúdo com o equipamento do Liverpool. Ao lado dele, os colegas de equipa. Talvez fossem os iniciados ou os juvenis do Liverpool.

Percebi que eram os apanha bolas do dia anterior.

O miúdo, perante a minha confirmação, vem ter comigo e mostra-me uma foto minha que ele tinha tirado da bancada com a bandeira portuguesa e com o cachecol.

Perguntei se sabia a música – começam todos a cantar “Eu amo o Benfica”.

Tenho pena de não ter vivido o momento em pleno – estava demasiado preocupado com as consequências do atraso.

Felizmente, o atraso não foi tão grande como se temia e o avião em Palma também estava atrasado.

A aventura ia terminar bem.

De Manchester a Palma um avião cheio de ingleses, especialmente miúdos, numa experiência sonora nada recomendável, mas na porta 57 de Palma lá estava a bancada quase toda. O que pensaria o pessoal do Aeroporto? “ O que estão aqui a fazer estes adeptos todos”, imagino eu.

E com a noite instalada, partimos em direção ao Porto.

O meu corpo chega a casa 42h depois da partida.

2520 minutos de um sonho concretizado.

Neste momento, em que escrevo estas linhas, ainda me sinto em Anfield.

A minha alma ainda está plena, preenchida de um imenso amor.

Com a sensação de que, 40 anos depois, concretizei o meu sonho.

Estava concluída a última etapa da volta mais sonhada da minha vida.