leaderboard.gif

Jorge Jesus é minúsculo diante da imensidão do futebol




Eu poderia utilizar este espaço para escrever sobre a classificação do Benfica à fase de mata-mata da Liga Europa, com os 12 pontos somados e a vice-liderança do Grupo D, ou sobre os altos e baixos dos Encarnados na atípica temporada 2020-2021, marcada pela realização de partidas com portões fechados em decorrência da pandemia da Covid-19. Porém, o que me traz para cá é um motivo ainda maior, um dever enquanto torcedor e cidadão: o combate a comportamentos reacionários dentro e fora das quatro linhas.


Vamos ao contexto. Na terça-feira passada (8), em jogo válido pela última rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões da Europa, as equipes do Paris Saint-Germain (atual campeão da França) e do Istambul Basaksehir (atual campeão da Turquia) decidiram abandonar o gramado do Parque dos Príncipes, em Paris, após o integrante da comissão técnica do clube turco, o ex-jogador camaronês Pierre Webó, ser alvo de insultos racistas proferidos pelo quarto árbitro, o romeno Sebastian Coltescu.


A Uefa, que nunca combateu o racismo de forma efetiva, para além do slogan "Say no to racism" ("Diga não ao racismo", em tradução livre), queria retomar o duelo, mas PSG e Basaksehir não concordaram com a ideia e só retornaram a campo no dia seguinte, quando outra comissão de arbitragem ficou responsável por conduzir a partida, vencida pelos parisienses pelo placar de 5 a 1. Saíram os romenos Ovidiu Hategan (árbitro), Octavian Sovre (assistente), Sebastian Gheorghe (assistente) e Sebastian Coltescu (o quarto árbitro, autor dos insultos racistas contra Webó) e entraram os holandeses Danny Makkelie (árbitro) e Mario Diks (assistente) e os poloneses Marcin Boniek (assistente) e Bartosz Frankowsky (quarto árbitro). Os italianos Marco di Bello e Maurizio Mariani e o polonês Jacub Winkler, por sua vez, continuaram à disposição na cabine do árbitro de vídeo. E o cartão dado a Pierre Webó foi anulado pela Uefa. A histórica postura dos dois times europeus, por sua vez, repercutiu em todos os cantos do planeta.


Na quarta-feira (9), na Bélgica, mais precisamente na conferência de imprensa antes do embate com o Standard Liège, que encerrou a fase de grupos da Liga Europa e terminou empatado em 2 a 2, o técnico do Benfica, Jorge Jesus, deu declarações absurdamente preconceituosas ao ser perguntado sobre os fatos decorridos no encontro entre Paris Saint-Germain e Istambul Basaksehir. “Não sei o que aconteceu. Está muito na moda isso do racismo. Como cidadão, tenho o direito de pensar à minha maneira. Hoje, qualquer coisa que se possa dizer contra um negro é sempre sinal de racismo, mas o mesmo a um branco já não é sinal de racismo. Essa onda está se implantando no mundo”, afirmou. De uma só vez, o treinador português minimizou o racismo, crime que oprime e mata uma quantidade imensurável de seres humanos há séculos, desprezou a luta antirracista, tão necessária à justiça social, e apelou para a cartilha do “racismo reverso”, que não passa de uma mentira exaustivamente repetida por racistas.


Na condição de adepto do Maior de Portugal, não posso deixar de reparar no triste detalhe de Jorge Jesus espalhar seu preconceito enquanto está de águia ao peito, ou seja, a serviço do Sport Lisboa e Benfica, que acolhe pretos, pobres e imigrantes desde a sua fundação e se orgulha por ser não apenas uma agremiação poliesportiva, mas, sobretudo, uma manifestação popular e cultural de mais de um século. Se a diretoria do Glorioso, que tem ícones como Eusébio, Mário Coluna, Shéu Han e Luisão entre os seus maiores ídolos, estivesse à altura da instituição, teria demitido o técnico logo após a entrevista coletiva. No SLB não deveria haver espaço para quem desrespeita os valores do clube. Contudo, infelizmente, dirigentes que se encontram distantes do povão e não se preocupam com pautas sociais ditam os rumos do esporte mais popular do mundo.


As aspas de JJ ecoaram em manchetes de jornais como Daily Mail (Reino Unido), Marca (Espanha) e Olé (Argentina) e foram alvo de justas críticas ao redor do mundo. “Oh, meu rico Benfica, que junta o Ventura ao Jesus”, lamentou o ativista antirracista luso-senegalês Mamadou Ba, dirigente da associação SOS Racismo, comparando Jorge Jesus ao político André Ventura, que é filiado ao partido de extrema-direita Chega e fez ataques racistas à deputada luso-guineense Joacine Katar Moreira ao afirmar que ela “deveria voltar para a Guiné”. Em debate na emissora portuguesa TVI, a judoca luso-brasileira Rochelle Nunes lamentou a presença da mentalidade racista dentro e fora dos esportes e, por outro lado, destacou que o atleta “sempre é muito maior que a pessoa que pratica o ato de racismo”. “O que Jorge Jesus diz, do racismo ser uma questão de moda, é perigos