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Não tapes a boca


“Ó não, mais uma conversa sobre racismo.”“Não confundam coisas: futebol e política são distintas.”“Os insultos fazem parte, já ouvi pior.”“Não é tão mau como parece.”“Ele não sentiu o que disse.”“Será que ele disse mesmo isto?”“Ele estava a pedi-las.”“Eles estão sempre a provocar-nos, é assim há séculos.”


As frases mudam, mas esta história é antiga. E é também disto que falamos quando pensamos no que aconteceu a 17 de fevereiro, no Estádio da Luz.


A bola esteve cerca de três segundos nos pés de Vinicius Jr até bater no fundo das redes. Três segundos não são nada. Depois vieram os festejos, que pareceram uma eternidade. O tempo, sempre o tempo, a brincar connosco. E, logo a seguir, o inferno que se abateu sobre a Luz.


Bastaram algumas palavras. Escondidas. Talvez ditas em voz baixa. Talvez envergonhadas. E seguiram-se dez minutos de um procedimento obrigatório em casos de racismo (ou suspeita). O estádio reagiu como um organismo vivo. E não foi bonito. Muitos poderão não ter percebido o que se estava a passar. Outros perceberam perfeitamente: um jogador do Benfica acabara de ser acusado de racismo.


Valeram todos os truques retóricos: whataboutismo, ad hominem, falsas equivalências. Tudo serviu para normalizar o inaceitável. Atenção: o Prestianni, como qualquer pessoa acusada, tem direito à presunção de inocência. Acreditarei nisso até ao fim dos meus dias. Mas esse direito não implica desvalorizar quem acusa, muito menos transformá-lo em réu. Há um equilíbrio a ser protegido, chama-se investigação. E era isso que o Sport Lisboa e Benfica devia ter defendido desde o primeiro momento. Não o fez. Demorou horas a fazê-lo. Ou, mais precisamente, a corrigi-lo. Dir-me-ão que são apenas horas, face a séculos de racismo. E talvez tenham razão.


O que mais me dói é perceber que, mais uma vez, destapámos o que já sabíamos. O que se passa nas ruas, nos cafés, nas escolas, nos campos de treino, no supermercado, nas finanças. Em todo o lado. O racismo, incluindo o estrutural, não nasceu ontem. Vive entre nós, em expressões, gestos e silêncios.


O que custa é perceber que, por cada momento em que parecemos avançar, há outro que prova que mudámos pouco. Isto não é apenas sobre o Prestianni. É sobre as centenas de reações que se seguiram. Amigos que negam. Conhecidos que relativizam. Anónimos que amplificam.


Vimos crianças a imitar macacos. Em 2026. Vimos idosos a fazer sons de primatas (ou talvez apenas estivessem “a falar entre si”). Tudo isto aconteceu no meu estádio. Na minha segunda casa. Repito: isso dói.


E não, isto não é um problema só do Benfica. Nem de Lisboa. Nem do futebol. Nem do desporto. Nem de alguns “energúmenos”. É um problema global, transversal, antigo. Uma doença com séculos, para a qual não encontramos cura porque muitos insistem em não ir ao médico.


Voltando às frases iniciais: haverá sempre uma desculpa pronta para justificar o que se repete à nossa volta. Mas cada desculpa permite que o problema se espalhe mais um pouco. Enquanto houver uma criança a simular gestos de macaco dirigida a um jogador, não haverá Eusébio, Coluna ou Anísio que nos salve. Porque o racismo não se mede pela forma como tratamos os nossos, mas pela forma como tratamos o “outro”. E pela empatia que somos capazes de ter por uma luta que carrega séculos de violência, sofrimento e morte.


Por isso, da próxima vez, não tapes a boca. Porque, hoje, já não basta não ser racista. É preciso ser antirracista. E dizê-lo em voz alta.

Nota: imagem criada por IA

 
 
 

5 comentários


Convidado:
20 de fev.

Vejam este podcast. 5min 30 s isso sim são factos: VINICIUS VUELVE a LIARLA ¡ES HORA DE HABLAR CLARO de ESTO! LO DEL BENFICA

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fábio
19 de fev.

Eu não sei se tenho o pensamento certo sobre o assunto, alias tenho muito dificuldade em articular um pensamento linear sobre o assunto por isso vou colocar aqui vários tópicos, isto é só uma resposta a um post mas vocês são a minha guide line do que é o Benfica...

1- penso que o Rui Costa deveria ter de imediato fechado o Prestiani numa sala e questionado o rapaz de uma forma bem simples, o que disseste? aqui só estamos nos e tens de me dizer a verdade, representas o clube e antes de respeitar qualquer outra entidade ou movimento, tens de respeitar o Benfica... caso o rapaz admitisse o insulto racista, só havia um caminho que era admitir e…

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João Tibério
20 de fev.
Respondendo a

Obrigado por expores a tua dúvida dessa forma. Percebe-se que não escreves de má-fé e que estás a tentar pensar o tema com seriedade. E isso, num assunto tão sensível, já é um bom ponto de partida. :-)

Sobre o primeiro ponto: a responsabilidade institucional. Concordo contigo numa coisa essencial: representar o Benfica implica responsabilidade acrescida. Mas essa responsabilidade não pode substituir os processos. Nem o presidente, seja ele quem for, pode fazer um “interrogatório privado” para decidir o que é verdade. O que devia ter sido defendido desde o primeiro momento era algo simples: investigação séria, presunção de inocência para quem é acusado e respeito por quem acusa. Uma coisa não anula a outra.

Quanto à dúvida central — se…

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António Silva
19 de fev.

Vinicius é um provocador nato, deita fogo e depois vai fazer queixinhas, tipo criançola mimada! Além disso joga num clube poderoso, o clube mais poderoso da UEFA/FIFA, o Real Madrid CF. O que ele fez depois de marcar o golo foi vergonhoso. Foi ridicularizar os adeptos adversários e todo um estádio. É verdade que o futebolista adversário estava a ridicularizar-nos, a estigmatizar-nos, a enxovalhar-nos, a martirizar-nos, a humilhar-nos, a provocar-nos, a gozar connosco ressabiado da derrota por 2-4 no jogo anterior. Só que ele sabe que tem a cobertura do árbitro, do clube (Real Madrid CF) e da UEFA/FIFA para fazer isso. Goza de impunidade. É um ser ignóbil. Um excelente futebolista, mas um palerma em termos de urbanidade e…

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José Pereira
19 de fev.

É visível nas transmissões televisivas os constantes insultos entre jogadores, treinadores e por vezes até aos árbitros. Insultos e ataques de toda a espécie.


Vinicius despreza todos os valores do desporto e respeito pelo próximo. Um jogador de futebol que ganha cerca de 30 milhões de euros/ano dificilmente é “vítima” seja do que for. Muito menos tem qualquer justificação para se considerar vítima de racismo, pois ao dia de hoje não faz a mínima ideia do que isso é, do alto da sua moradia em Madrid, das suas mordomias e dos hotéis de 5 estrelas e aviões privados.


Esse aproveitamento é um insulto para todas as verdadeiras vítimas de racismo, sejam eles brancos, negros, amarelos ou de qualquer outra origem…


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