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Há golos que nos salvam


A História faz-se de histórias. Daqueles momentos que são indiferentes para alguns e marcantes para outros. Das memórias que ficam guardadas de forma perene ou que, para outros, se desvanecem ao primeiro sono. Das descrições devidamente pormenorizadas — qual ancião da aldeia — ou do template de mensagem que ninguém lê até ao fim. Não é por mal: a História não tem uma versão, tem várias. E é isso que nos torna tão bons contadores como ouvintes.


Foi o amor à História e, sobretudo, às histórias que me levou a estudar essa área. Vivo a minha vida deslumbrado pela forma como cada um conta as suas vivências — e não, não confundo histórias e memórias com factos — e como constrói narrativas emotivas. A História são emoções na primeira pessoa.


Gosto de histórias. Amo o futebol. Não haverá muitas coisas na vida mais especiais do que este mero jogo. Em cada momento, em cada jogo, em cada golo, abre-se um manancial de memórias e emoções. Basta querermos ouvir. O que está por detrás de cada berro? De cada lágrima? De cada suspiro? E amo o bruá coletivo que sussurra mil histórias partilhadas.


Sou um crónico racional-pessimista, e isso é verdadeiramente triste. São demasiados os momentos em que desperdiço a loucura da emoção com medo do que vem depois. E se não dá? E se cai? E se sofremos? E se morremos? Passo a vida a preparar-me para o mal, para que o nim não custe tanto.


Vivo acordado com o Kelvin na cabeça, qual chaga em sangue, para evitar o regresso dos pesadelos. Temo o quase.


Mas para cada momento sombrio há sempre uma luz pronta a iluminar. E se for acompanhada por 60 mil companheiros, torna-se garantidamente mais fácil. Ontem, algo mudou em mim. Voltei a acreditar que vale a pena sonhar. Calma, não comprei bilhete para Budapeste. Mas percebi que deixar-me levar pelas emoções, pela loucura, pelo momento pode ser verdadeiramente reparador. É tão bom estar vivo.


As histórias do golo de Trubin não têm fim. É o pai que leva o filho pela primeira vez à bola. A mãe que leva o avô pela última vez ao estádio. Os emigrantes que voltam a casa. Os amigos que se reencontram no terceiro anel. Os desconhecidos que se abraçam na curva. Os que ficam na roulotte porque o mês é demasiado longo. Os que pedem só mais uma no café. Os que veem a bola sozinhos porque é “uma mania, uma superstição, uma coisa só minha”. Os que reprimem o grito para não acordar o bebé, que amanhã já adormecerá ao som desta bela história de bola.


Tudo são histórias. Todas estão unidas por algo mais especial do que um golo. Um golo nos descontos é uma bênção até para os ateus mais crentes, como eu. É um pacto com o Deusébio para vivermos o êxtase emocional como seres divinos. É uma pausa na equação tempo × espaço × vida. É ciência pura embebida em paixão.


O golo de Trubin foi com a cabeça, mas bateu bem forte no coração. Obrigado, futebol. Amanhã voltamos à normalidade mas, por agora, vou só rever o golo pela 135.ª vez.

 
 
 

⋆ E Pluribus Unum ⋆

MCMIV

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