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Maior do que os maiores...

Quando Queremos e Quando Nos Deixam.


Desde que me lembro que sou do Benfica. Não sei se nasceu comigo, mas sinto-me como tal. É até bem provável que exista um gene Benfiquista (aguardamos pela confirmação da existência do mesmo por parte da comunidade científica) e que esse gene seja hereditário, sendo-nos transmitido pelos nossos pais, também eles com o tal gene Benfiquista bem presente no seu ADN. Ou, simplesmente, é uma paixão que cresce connosco à medida que nos vamos apaixonando e vibrando e sofrendo com e por este Clube que é realmente diferente de tudo e de todos. A verdade é que... sou do Benfica e isso me envaidece. Em todos os momentos da minha vida. E já lá vão quase 45 anos de vaidade encarnada. Na ressaca das derrotas com o Liverpool no Estádio da Luz e com o Braga na “Pedreira”, deu-me para isto: escrever um texto, expurgando todos os sentimentos, emoções e frustrações duma forma completamente tendenciosa... ou, não fosse eu (lá está!) Benfiquista em toda e qualquer célula do meu ser (“bolas! já paravas com as tretas cientificas, não?!”).

Diferentes jogos, diferentes exibições, diferentes sensações. Comecemos por ordem cronológica: jogo com o Braga, derrota por 3-2.

Poderia dizer-se que foi um jogo atípico... mas, nos ultimos dois anos (quase 3), a coisa não foi bem assim. Falta de garra, falta de chama, falta de criatividade, pouco querer e pouco crer.

É isto. Obrigado e bom dia.

Não, não é só isto. Há mais. O nosso treinador Nelson Veríssimo não parece ter a capacidade para motivar uma equipa que, na Liga, pouco tem pelo qual lutar. Muitos dirão “ah e tal, mas ainda há o 2º lugar e coise”. Não. O 2º lugar só é algo que tem valor porque nos dá um acesso directo à fase de grupos da Liga dos Campeões na época 22/23, onde irremediavelmente iriamos (iremos?) parar ao pote dos manhosos. Sim, manhosos. Clubes manhosos. Aliás, todo o formato da Champions League é manhoso. Uma competição que permite que um clube que termine em 2º, 3º ou até 4º lugar em algumas ligas consiga ganhar essa mesma competição, não só não se pode intitular de Liga dos Campeões, como é, logo na génese, uma competição com formato manhoso. Basta fazer o seguinte exercício: um 2º lugar da Liga Inglesa ou Espanhola pode ganhar 10 anos a fio a Liga dos Campeões... sem nunca ser Campeão na sua própria liga. Isto cabe na cabeça de alguém?! Mas, e voltando ao jogo de Braga... nem sequer a possibilidade de continuar a lutar por uma presença garantida na fase de grupos da já mencionada competição maior da UEFA parece motivar os jogadores do Benfica. Lampejos de garra e de agressividade não chegam. É preciso muito mais numa equipa que, apesar dos absurdos milhões investidos, continua dependente de... lampejos. Não há um fio de jogo constante e fluido, não há um postura agressiva e competitiva durante os 90 minutos em momentos com e sem bola, não há um “mágico” que transforme um ataque num daqueles momentos que queremos guardar para sempre na nossa memória, à imagem do que, num passado recente, craques como Aimar, Gaitan, Salvio e Di Maria, trajados de Papoilas Saltitantes, faziam em campo e deixavam-nos boquiabertos com o seu talento. Infelizmente, continuamos reféns de lampejos, de pequenas faíscas que vão aparecendo aqui e ali, quando os jogadores estão para aí virados e não fazem birras porque o Instagram estava em baixo, ou porque não conseguiram jogar ao Call of Duty, ou porque os NFTs não renderam tanto quanto esperavam. Juntando a tudo isso, temos um campeonato completamente desvirtuado desportivamente por uma arbitragem que parece ter voltado aos infames anos 1990, favorecendo constantemente “os suspeitos do costume” e punindo quem está visivelmente na mó de baixo... o Benfica. Seja por decisões completamente absurdas, seja por dualidade de critérios, seja por mera inação, o que é certo é que motivos para esmurrar mesas e outras peças de mobiliário não têm faltado, semana após semana. Até o Super-Jan, com um histórico invejável após ter passado anos a fio na (discutivelmente) melhor liga do Mundo, já sai a terreiro nas redes sociais com um post que parece ter ofendido muitas Virgens, dizendo “isto ‘tá p’raqui um caldinho que sim senhor”. O que ele escreveu foi “esta liga consegue surpreender-me todas as semanas”, mas vocês perceberam a minha adaptação livre, não perceberam? Então pronto. Siga. O que tem faltado mais a este Benfica... mais até que “mágicos” em campo, é um reconhecido líder fora dele. Já muitas vezes foi dito e debatido e esmiuçado, especialmente pelos membros do Benfica Independente, o que se espera de quem governa o maior Clube de Portugal e um dos maiores do Mundo. E o que é certo é que, apesar de todos os apelos... ouvem-se grilos na sala. Semana após semana, o Benfica desespera por actos de liderança e que mostrem efectivamente que, quem nos dirige, está atento ao que se passa e que está a fazer algo para resolver os problemas que nos assolam. Seja a preparar a época que se avizinha, seja a contestar em sede própria as recorrentes trafulhices da gatun... da arbitragem em Portugal (desculpem, ia me descaindo!) de forma veemente e que produza resultados, seja a purgar o clube de todos aqueles que nada de valor têm acrescentado ao mesmo, seja a conduzir a nova “obra de St.ª Engrácia” dentro do Benfica, também conhecida como auditoria forense e muitos outros dossiers de importância extrema para os sócios e adeptos do Glorioso. Mas... até ao momento... nada. Zero. Nicles. Bola. Nas imortais palavras desse grande poeta do Séc.XXI, Filipe “Bakero” Inglês... Tázonde, Rui Costa?!

Adiante...

Quartos-de-final da Liga dos Campeões, Estádio da Luz, Benfica-Liverpool... derrota por 1-3.

Como vários colegas de diferentes nacionalidades (alemães, dinamarqueses, noruegueses, espanhois, etc.) me disseram, poucas horas antes do jogo, “vamos ver o jogo por causa de ti e porque um Benfica-Liverpool é digno duma final da Champions e não apenas de uns quartos-de-final”. O Benfica continua a ser, lá (cá) fora, um clube do caraças (!!!), altamente respeitado e que todos reconhecem que apenas lhe falta o poderio financeiro que muitos outros têm, para voltar a ser o grande Benfica Europeu com que cresci. Quis a minha operadora de comunicações na Alemanha (cujo nome não vou mencionar mas o qual começa por um V, termina num E, e tem “odafon” pelo meio) que eu ficasse privado de poder ver o jogo. Não só fiquei piurso, como tive um momento de choro incontrolável em posição fetal no meio da minha sala. Limpei as lágrimas e recorri ao único trunfo que tinha na manga: a rádio. Ouvir os sons e sentir o ambiente dum Estádio da Luz completamente ao rubro, a puxar pelos 11 heróis que iam defrontar um dos mais fortes candidatos à conquista da Orelhuda... foi fenomenal. Inesquecivel. Foi como se estivesse lá dentro com todos eles, a apoiar fervorosamente o grande Benfica. As opiniões são unânimes: o ambiente duma noite Europeia no Estádio do Sport Lisboa e Benfica é único, incomparável e avassalador. Todos os adeptos ficaram rendidos à maravilha que é ver a Luz completamente cheia, a vibrar, a apoiar, a fazer lembrar os bons velhos tempos do Inferno da Luz no antigo e imponente coliseu de 120.000 lugares, que fazia (e perdoem-me a expressão) qualquer adversário borrar a cueca ainda antes de entrar em campo, fosse o Lusitano de Évora, fosse o Real Madrid. E isto deve-se à incomparavel e grandiosa massa adepta do Benfica. Eles (nós!) sim, são o Benfica. E nada nem ninguém é maior que o Benfica!

O jogo... foi o que foi. Uma primeira parte completamente dominada pelo Liverpool, dois golos mais que esperados, dado o controlo avassalador dos ingleses e goradas que foram todas as tentativas de ataque por parte do Benfica. E, infelizmente, fica claro aos olhos do Mundo tudo aquilo de que nós, adeptos e sócios, nos temos queixado: o plantel é claramente desequilibrado na sua construção, com vários erros de ‘casting’ cuja qualidade não está à altura dos pergaminhos do clube da águia altaneira. Nisto, arranca a segunda parte... e, para espanto e gáudio dos presentes (em corpo e em espírito), eis que surge o Benfica que discute jogos com qualquer equipa. Mesmo com muitos erros na decisão, no “passa quando devia chutar” e “finta quando devia passar” e outros que tais... o Benfica agiganta-se, coloca o Liverpool em sentido e só empata o jogo porque um remate sai demasiado fraco ou porque um árbitro não podia permitir que um “underdog” como o Benfica pudesse colocar em causa a presença de um dos favoritos na fase seguinte e assim, não assinalasse um penalty a favor dos Encarnados que era claro como a água. Ainda assim, o ímpeto Benfiquista não parou e só por evidente falta de inteligência na leitura do jogo se permitiu que o Liverpool chegasse ao terceiro golo.

Que conclusões podemos então tirar desta derrota?

1. O Liverpool é uma grande, grande equipa. Ponto. São claros candidatos a vencer a competição, a par de Manchester City e de Bayern Munique, na minha opinião.

2. O Benfica da montra Europeia não é o mesmo Benfica do Tugão. E ficou por demais evidente que alguns jogadores ontem, em vez de se unirem como equipa, estavam mais preocupados em carimbar o passaporte para outros campeonatos, tentando mostrar aquilo que são as suas capacidades individuais.

3. Outros jogadores mostraram que, apesar das suas lacunas, têm tudo aquilo que é necessário para vestir o Manto Sagrado: garra, espirito de sacrificio, lutar para lá da ultima gota de suor.

4. Ainda outros jogadores mostraram que simplesmente não têm andamento para estas corridas. Isto é areia a mais para a camioneta deles.

5. O treinador Nelson Veríssimo, por muito boas que sejam as suas intenções, não tem unhas para tocar uma guitarra tão complexa e exigente. A aposta constante em jogadores que já provaram incontáveis vezes que não têm cultura táctica, não têm leitura de jogo, não têm acutilância atacante, não têm garra ou, apenas e só, não têm talento suficiente coloca em xeque qualquer plano que se ponha em prática, seja ele bom ou menos bom.


E agora, Benfica? O que fazer?

Há tanto por fazer, que eu nem sei por onde começar. Por isso, aqui ficam algumas ideias soltas:

O Benfica não é uma montra. O Benfica não é um patamar intermédio nem uma rampa de lançamento. Qualquer jogador que pense isso... não sabe o que é o Benfica, independentemente daquilo que seja treinado pelos homens da comunicação do Clube. “Ah e tal, o Benfica é muito grande e isto e aquilo”, dizem eles em todas as entrevistas que dão, seja qual for o Órgão de Comunicação a que se dirigem. É mesmo? Será que sabem mesmo o quão grande, enorme, imponente e global é o Benfica? Então... se sabem, porque é que muitos estariam dispostos a trocá-lo por um qualquer Tottenham, Valência, Hoffenheim, Fenerbahçe ou Bologna desta vida? Irei sempre lembrar-me das poucas vezes que Jorge Jesus disse algo de jeito enquanto treinador do Benfica, e foi na despedida do nosso Rúben Dias para o Manchester City: “vais para um clube que te paga mais, mas não vais para um clube maior... porque poucos clubes há no Mundo que são maiores que o Benfica”. E esta é que é a verdade. Poucos clubes há no Mundo maiores que o Benfica. Se falarmos então de massa adepta, quase nenhum se compara sequer. Por isso é que o Benfica joga em casa em qualquer parte do Mundo. Por isso é que bilhetes para jogos em Amsterdão e Liverpool desaparecem numa questão de minutos... e mais houvesse, mais eram despachados num ápice.

Tudo isto para dizer o quê? Tem de haver mais cultura de Benfica nesta casa. Não há volta a dar. E isto tem de partir da direcção. Não pode haver mais o mercantilismo de despachar num ou dois anos aqueles que mais brilharem com o Manto. Tem de haver maneira de conseguir reter verdadeiro talento para ajudar o clube a ter mais campanhas Europeias como esta ou melhores, até ao dia em que o Benfica consiga voltar ao lugar onde sempre pertenceu, o de verdadeiro candidato a ser Campeão Europeu. Consequentemente, só assim o Benfica conseguirá afastar de si um dos grandes males das competições europeias: as arbitragens influenciadas pela própria (e infâme) UEFA. Ontem, a permissividade com que jogadores do Liverpool travaram vários ataques do Benfica com recurso à falta, sem que as mesmas fossem assinaladas, foi demasiado notória. É obvio que a UEFA não pode permitir que o 3º classificado do Tugão possa, de repente, correr com uma das suas galinhas dos ovos de ouro (e o consequente potencial retorno financeiro dos direitos televisivos) para fora da maior das suas competições. Só com campanhas consecutivas de sucesso (relativo, porque apenas a conquista da 3ª Orelhuda pode saciar os sócios e adeptos) pode o Benfica retornar a um degrau onde já esteve décadas a fio, que é seu (nosso!) por direito próprio e onde, pela sua dimensão, deve estar sempre: a de crónico candidato à conquista da Liga dos Campeões. O tal projecto desportivo para o Benfica tem de ser uma realidade. O critério, seja na escolha de jogadores, seja na escolha dos treinadores, tem de ser uma realidade. A competitividade, a agressividade, a crença, a ambição... enfim, o Ser Benfica tem de estar enraizado em todos os seus atletas, venham eles de outros mercados, sejam eles formados no Clube. A defesa activa e intransigente dos interesses do Clube, por parte da sua Direcção, tem de ser visivel, audivel, diária e inequívoca. O Benfica tem de ter nas suas fileiras atletas que queiram, acima de tudo, que o Clube vença em todas as frentes. A vitória do Clube tem de ser VERDADEIRAMENTE o objectivo de todos. Se os atletas pensam que o Benfica é apenas uma montra para chegar a outros cheques mais chorudos, ou um belo último passo antes da merecida reforma... então não são futebolistas. São mercenários. Não é uma questão de cortar as pernas aos jogadores (famosa expressão que ficou para a História com a rábula Rui Costa, Barcelona e Fiorentina), mas o Benfica não é um entreposto de jogadores. O Benfica é um Clube que ambiciona lutar por todos os títulos das competições em que participa. E, para isso, precisa dos melhores DENTRO do Clube... e não pode despachá-los ao primeiro Sultão dos petrodólares que aparece de cheque na mão. O apoio dos sócios e adeptos é uma constante imutável. Nunca faltou nem faltará apoio dos sócios e adeptos... enquanto quem estiver dentro de campo retribuir com o esforço e dedicação máximas. Mesmo que quem vista o Manto Sagrado não der tudo o que tiver... os sócios e os adeptos estarão sempre lá. Umas vezes em maior número, outras em menor... mas estarão sempre lá. Há 118 anos que assim é, e assim continuará por outros 118, pelo menos. Se todos juntos (sócios, adeptos, Direcção, equipas técnicas e atletas) conseguirmos conjugar todos estes factores com sucesso... o Benfica será novamente o Benfica.

Temido por quem nos tenta mandar abaixo. Temido pelos adversários. Imparável. Vencedor. Maior do que os maiores.

E Pluribus Unum. Viva o Benfica!




▶ Texto enviado pelo benfiquista Ricardo Troncão.


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