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Porto–Benfica: O rescaldo de uma vida para perceber o que me trouxe aqui

A equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica foi humilhada no Estádio do Dragão. Ou antes, a equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica entrou disponível para ser humilhada no jogo da Taça de Portugal, até porque a humilhação começou em jantares de “família”.

E lá fui dar uma vista de olhos ao jogo:

Mas e a tática?

O onze escolhido?

E a arbitragem?

Homem do jogo...

No entanto, a cada pensamento sobre o jogo, muitos outros me ocorriam, estes trazidos pela minha memória.

Os dias eram simples e o meu destino era aquele, pelo menos a ver pelo cartão de sócio que desde o berço me acompanhava.

Mas, a cor do coração era outro e, sem grandes explicações a final da Uefa contra o Anderlecht era vista com o seis nas costas: Carlos Manuel.

O azul do céu era apenas isso, o azul do céu.

Mas, o vermelho do sangue que me corria nas veias não era só vermelho!

Havia algo.

Duas finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus perdidas só ampliavam a certeza. Quando virei a cara para o chão com medo do pontapé do Veloso que eu não queria ver correr mal, sabia que havia algo mais do que um determinismo familiar.

Eu tinha escolhido o meu amor.

Naquela tarde de abril, os dois golos de César Brito carimbaram o passaporte vitalício para o lado certo da história.

Os anos noventa chegavam e o céu era o limite porque era lá que estava a nota 10 do João Pinto em Alvalade depois do erro tático de Carlos Queiroz.

O céu que eu não vi em Vigo, mas que me orientou na travessia do Vietname e que me permitiu esperar pelos dias em que vi Aimar e Jonas com o Manto Sagrado.

Mas, e o rescaldo?

Não ias fazer o rescaldo do Porto Benfica?

É o que estou a fazer.

O rescaldo de uma vida para perceber o que me trouxe até aqui.

Como é que eu cheguei aqui?

Confesso que não sei.

Ser adepto é ter um sentimento construído em memórias – as memórias daquele jogo mítico, daquela saída com os amigos, das viagens, das conversas. Muito mais do que das vitórias, recordamos os jogos da alma. O empate em Leverkursen ou a vitória contra o Arsenal. A bola que o Luisão tirou das mãos do Ricardo ou o golo do Jonas no Bessa. As duas finais da Liga Europa. Ou o David Luís a defesa-esquerdo.

Os jogos no Estádio do Maia e até viagens a Campo Maior e não foi para comprar café.

É isso mesmo.

Somos as memórias que temos e as minha são estas, as de um Benfica que teima em não existir.

Mas, se calhar existe.

A nossa equipa de Voleibol não é tudo o que queremos?

Um conjunto de jogadores competentes, do melhor que há em Portugal.

A liderar um treinador igualmente conhecedor do jogo e que, para além disso, comunica paixão em tudo o que faz.

É uma equipa que entra em todos os pavilhões portugueses como claro favorito e faz disso uma arma para derrotar jogo após jogo todos os adversários.

São um coletivo que desejou a Europa, que lutou por ela e que agora entra na quadra dos gigantes com a alma toda.

Até pode perder os jogos todos por três, mas vai com tudo.

Afirmam a sua condição de craques em cada jogo, mas vivem a sua condição de humanos na forma como se relacionam com os adeptos.

Tratam-nos como adeptos e não como clientes.

Não são uma equipa constituída no “Seixal”, até porque o “Seixal” do Voleibol está muito a norte, mas começam a ser o espaço perfeito para o crescimento e afirmação dos nossos jovens atletas. É, como sempre foi, mais fácil integrar um jovem numa equipa vencedora do que numa equipa que tropeça em todas as pedras.

Em síntese diria que a nossa equipa de Voleibol tem um excelente treinador, jogadores que fazem uma equipa competitiva e trabalham todas as áreas do jogo e de tudo o que se relaciona com ele de forma profissional. Acrescentam a tudo isso, paixão.

Talvez seja este o caminho para a equipa de futebol.

Criar uma identidade à volta da nossa equipa de futebol – não sei se será o famoso rolo compressor de um triplo que nunca chegamos a ver, se a vertigem de um Liverpool ou a serenidade em posse de um City.

Não sei, nem tenho de saber.

Mas, como sócio não posso admitir ver uma identidade no Porto e no Sporting – que não avalio – apesar dos recursos escassos, quando comparados connosco. A matriz está lá e vivem com ela.

E essa identidade tem de se construir desde dentro. Lamento, mas não acredito num movimento fundacional em torno dos sócios do Sport Lisboa e Benfica, isto porque não temos uma Farmácia Franco para voltar ao momento zero nem tão pouco seria possível definir o que querem os milhões de benfiquistas como identidade.

A resposta tem de partir da Direção e terá de ser a equipa a puxar por todos Nós. Com a nossa exigência, mas com um caminho construído em torno da nossa identidade.

Uma identidade de vitória, mas não a qualquer custo como acontece mais a norte.

Uma identidade de vitória, mas construída com base no esforço e no trabalho do povo que constitui o Benfica em oposição à aristocracia que vive do outro lado.

Uma identidade de vitória que se suporta na nossa diversidade e que faz disso uma mais valia.

Uma identidade de vitória que respeita o jogo e os adversários.

Uma identidade à Benfica!

Simples.

E o rescaldo?

Qual rescaldo?

O que ficou por fazer?

Fica dentro de nós esta dor gigante que nos invade a alma benfiquista.

Por isso optamos por passar o rescaldo para a próxima jornada da Liga onde vamos ao Dragão ganhar por dois zero.

Simples e com identidade.


Nota: Jorge Jesus não é parte da solução, mas o ponto do texto não é sobre o momento. Alguém como Bruno Lage estaria mais perto dessa identidade que imagino para o Benfica, mas este século de Benfica prova que não há saídas individuais. A construção terá de ser coletiva e Rui Costa pode ou não ser o rosto desse movimento. Mas, será sempre sem Jorge Jesus.


▶ Texto enviado pelo benfiquista João Paulo Silva.


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