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Roubados

No futebol, todas as derrotas têm o condão de despertar as mais variadas leituras e interpretações. Relativamente ao jogo, os analistas dedicam-se a explicar números, os comentadores acertam invariavelmente e os poetas do futebol recorrem a terminologias dignas de um mestrado em Harvard para contar o que aconteceu dentro das quatro linhas ao comum dos mortais.


Para nós, adeptos, a procura de uma razão mais ou menos lógica para o fracasso, é quase como um reflexo irresistível no fim dos 90 minutos, como se essa espécie de “caça às bruxas” fosse o prolongamento do jogo que já perdemos e a rampa de lançamento para vencer o próximo, que ainda não começou. E, a cada tropeço, culpamos a atitude daquele jogador mal-amado, a substituição equivocada do treinador, a bola, o campo ou, fatalmente, o bom e “santo” árbitro, padroeiro das desgraças que afligem semanalmente todos os clubes do planeta.


Contudo, no caso da hecatombe que atualmente atravessa o nosso querido Sport Lisboa e Benfica, as suas consequências potencialmente catastróficas impõem uma reflexão muito mais abrangente e ponderada do que aquela que fazemos depois de um dissabor futebolístico deste género. O que foi isto?! De onde é que veio?! Para onde vamos?! No meio de um turbilhão que se arrasta há dias e onde cada novidade é um soco no estômago desferido sem piedade em cada benfiquista que se preze, torna-se necessário parar, respirar fundo e puxar pela memória para tentarmos alcançar a resposta às perguntas mais importantes. A primeira que me assola, e que parece fulcral para responder às muitas outras que irão surgir é a seguinte: desde quando é que começámos a perder? Porque, meus amigos, não se enganem: nós já estamos a perder...Há alguns anos a esta parte, que estamos a perder.


Infelizmente, trata-se de uma derrota copiosa. Provavelmente, uma das maiores que já tivemos. Não estamos a falar de um fracasso do tipo circunstancial como aquele que vivemos em Vigo ou, uns anos antes, em Lisboa, na Supertaça. Nesses episódios, por muito dolorosos e sofridos que fossem (e como foram!), o sentimento terrível conseguia dissipar-se no benfiquismo ainda vivo, no desejo masoquista - tão típico do Vietname - que chegasse o próximo jogo e na ilusão agora absurda de que poderíamos vir a ser felizes em Maio, mesmo com uma caricatura de presidente e tantos cepos no onze. Naquele tempo, mesmo nas dificuldades, havia ainda um sentimento forte, interno, a envolver e a segurar um clube em pedaços, não o deixando sucumbir. Quando ele não estava momentaneamente dentro do clube, era possível encontrá-lo fora, na massa crítica, agarrando-o às recordações ainda vivas de uns poucos anos antes, quando ainda exercia, inquestionavelmente, o papel de protagonista dentro e fora de campo, aqui e na Europa.


Mais de 20 anos depois, o meu sentimento é de um Benfica frio, amorfo e distante. Doente. E que aquele sentir da grandeza do clube, outrora imaculado, que se fazia nos grandes homens, nas grandes mulheres e nos valores da essência histórica do que é o Benfica, esvaiu-se e parece ser (muito, demasiado) secundário no modus operandi das pessoas que têm passado lá dentro. .Não existe. Objetivamente, quando olhamos para o Benfica não reconhecemos Benfica no Benfica. Nem nos jogadores. Muito menos, na equipa técnica. E em especial, os dirigentes, nos quais deveríamos reconhecer sem esforço essa notável característica, para ser disseminada nas bases do clube, são quase antagonistas desse “ser benfiquista”. Quando olhamos para eles, não reconhecemos a chama imensa cantada por Luís Piçarra, que não só nos conquista, como é capaz de levar à palma a luz intensa. Não vemos a genica que a qualquer um engrandece. Não vemos sinal do clube outrora lutador. Não há réstia do que é “ser Benfica” e, parece-me, essa é a génese do problema.


Muitos dirão que “ser Benfica” é simplesmente ganhar, ser incomparavelmente mais vitorioso que os nossos adversários. Dominar em Portugal e na Europa. Concordo que são pistas apetecíveis para encontrarmos uma definição perfeita. No entanto, não poderia achar essa definição mais redutora! Apesar de vencer troféus ser - inquestionavelmente - o nosso objetivo primordial, pelo qual temos de lutar e mostrar continuamente competência, um clube mítico como o nosso Sport Lisboa e Benfica vai para além de uma simples contagem de sucessos. Tem também qualquer coisa de imensurável, de estado de espírito, de alma, E por isso, transcende em muito a nossa vastíssima sala de troféus, espalhando-se nos corredores do estádio, nas ruas, nas cidades, nos países e no mundo. Onde quer que haja Benfica. De todos, um. Para mim, “ser Benfica” é ter um conjunto de valores transversais à elevação, à ética, à integridade. Competir e respeitar o rival. Ganhar, como consequência natural da nossa qualidade, superioridade e mentalidade vencedora. Honrar o emblema e colocar o Benfica acima de tudo. De todos. Querer sempre mais. Ter uma conduta inatacável, idolatrada pelos nossos, respeitada pelos outros. Não importa o status social, o credo ou a raça, “ser Benfica” é incluir tudo e todos, levando connosco as raízes populares. É recordar a velha Luz com brilho nos olhos. É lermos tudo isto e lembrarmo-nos imediatamente de Mário Wilson ou de Toni, ambos com uma vida inteira dedicada à causa e que são a personificação de tudo isto. Na saúde e na doença. Na vitória ou na derrota. Sem desculpas. À Benfica.


No meio deste caos, o maior drama é olharmos para dentro do nosso Sport Lisboa e Benfica e não vermos nada disto. Desgraçadamente, essa reserva moral foi apagada, arranhada e colocada em cheque perante os nossos olhos por anos sucessivos, culminando nos tempos atuais. É como se, subitamente, o marcador tivesse voltado a ligar-se e o placar do jogo é, na verdade, muito mais desfavorável e nefasto do que um “simples” 0-7. Neste jogo, fomos roubados. Foi usurpada a essência benfiquista. E o mesmo Sport Lisboa e Benfica que crescemos a amar incondicionalmente em tempos de Vietname, onde a esperança tinha - quanto muito - a validade de uma pré-época, estava já debilitado e moribundo. Muitos anos antes de 7 de julho de 2021, o dia mais negro da nossa história.


Esta será uma mancha indelével que irá perdurar por bastante tempo, sendo preciso muita coragem para enfrentar os tempos que aí vêm, os quais serão os mais decisivos para recuperarmos o que é realmente importante e virarmos a página do verdadeiro vírus que nos arrasou por dentro. Cabe-nos a nós, adeptos apaixonados, salvaguardarmos o clube e sermos também a referência dos seus valores e da sua essência, colocando fim a uma lógica de apodrecimento do código de conduta das pessoas que devem servir o Benfica e que, lamentavelmente, já não é nova. Independentemente das disputas políticas do clube, devemos fazer uma reflexão e pensar nos valores que queremos representados no futuro do nosso amado clube, honrando a história centenária e todos aqueles que contribuíram para as nossas glórias e crescimento exponencial na Europa e no Mundo. Mais do que uma cara, ou um presidente, trata-se de uma questão de projeto e de conduta. Essa será a discussão mais importante nos tempos que se avizinham. Só dessa forma, poderemos colocar definitivamente um fim a este processo de normalização da degradação moral e ética que tem sido associada ao funcionamento do clube ao longo dos anos.


Partindo desse princípio, poderemos também ser mais vigilantes e considerar menos normal o défice de democracia de quem gere momentaneamente o clube. Poderemos também ser menos condescendentes em relação à colocação de vice-presidentes e assalariados como comentadores televisivos em programas de debate futebolístico “livre”. Poderemos inverter este processo de afastamento do clube em relação a sócios, adeptos e toda a réstia de espírito crítico e