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Vietname

Adianto desde já que não sou um grande conhecedor de futebol. Táticas, técnicas, estatísticas, estratégias e pendores basculantes em toda a largura do relvado. Não percebo nada disso, nem me interessa. Deixo essa cátedra para quem possui um fato engomado, uma gravata a condizer e um lenço todo bonito na lapela. O que eu percebo mesmo é de bola, como provavelmente a maioria de vós aí desse lado da internet.


Mas perceber de bola tem muito que se lhe diga. Não é empreitada que se consiga atingir assim com meia dúzia de jogos vistos no estádio ou pela televisão. Não senhor. Perceber de bola requer anos de prática, décadas a proferir palavrões por entre garrafas de minis vazias e pratos de tremoços no café com amigos também eles exímios conhecedores da arte do jogo da bola. Nestes tempos de confinamento em que cada um está entregue à sua solidão no aconchego do lar, os ajuntamentos não são possíveis portanto um tipo que percebe de bola refugia-se nas redes sociais para que a verdade não fique esquecida na sala ou no quarto e mete-se a atirar a torto e a direito, para tudo quanto é lado, sempre que a nossa equipa do coração nos espeta uma facada nas costelas.


Com certeza saberão do que para aqui escrevo. Sabe a pouco mas sempre é melhor do que ficar calado a sangrar a frustração solitária de mais um campeonato perdido.


Após este breve esclarecimento vamos lá a isto. Um tipo que sabe da bola difere do tipo que percebe de futebol não por não usar fato e gravata mas porque é a paixão que lhe move as ganas de torcedor. Ele está-se marimbando para os tipos que percebem de futebol a não ser para discordar deles ou, casos raros, quando de lá vêm os elogios mais que merecidos aos rapazes que jogam com nosso emblema do coração ao peito.


Tenho 40 anos e sou do Benfica. Esta evidência significa que passei grande parte da minha maioridade num sofrimento aqui e ali anestesiado por uma época ou outra que funcionou apenas como um placebo para a doença crónica que vem sendo ser do Benfica. Vocês que não do Benfica terão com certeza os vossos problemas, alegrias e desilusões mas isso agora, cada um com a sua cruz.


Penso ainda assim que ter 40 anos, não é mau de todo, parece que cheguei ao meio de alguma coisa, o quilómetro 21 da maratona. E o que é que eu enquanto benfiquista que não percebe nada de futebol mas uma coisa ou outra bola, tem para contar aos filhos e aos mais petizes?


Podia começar que vi o Benfica perder nas grandes penalidades contra o PSV Eindhoven em 1988 (Porquê Veloso, porquê?) e repetir a façanha contra o mítico AC Milan de Arrigo Sacchi, também na final da Taça dos Campões Europeus, dois anos depois. Não havia redes sociais, só um aparelhómetro chamado telefone fixo que servia para ligar aos avós ao fim do dia e também para o senhor Ramiro do talho da rua em frente com o intuito nobre de lhe moer o juízo com perguntas sobre carne de porco. O senhor Ramiro talhante ficava lixado comigo e prometia sempre que me cortaria três dedos da mão se voltasse a repetir a gracinha. Felizmente era bluff, caso contrário vir-me-ia à rasca para estar a escrever agora esta crónica. Obrigado Senhor Ramiro. Não havia internet senhor Ramiro, uma pessoa tinha de desanuviar de alguma forma senhor Ramiro.


– Tem carne de porco?

– Tenho

– Então veja lá não se corte.


Lembro-me do 3 a 6 em Alvalade com o João Pinto a fazer o jogo de uma vida e a oferecer-nos o campeonato de bandeja no ano de 1994. Tinha eu 14 anos e já pensava em miúdas. Mas preferia o Benfica.


Depois veio o Vietname, os mais novos não se recordarão dessa década de tiros nos pés. Nem foram tiros, foram mais obuzes apontados aos dedos prontos a desfazerem-nos as unhas e as ganas a cada época vingada. E como eles dispararam, senhores. A escritora Yasmina Reza escreveu uma peça chamada Deus da Carnificina sobre um valente duelo verbal entre duas famílias por causa de uma briga de miúdos. Que se lixe o teatro. Podia ser sobre o Benfica. E Deus nem é para aqui chamado, restou-nos a carnificina.


Lembrei-me agora daquelas placas memoriais com os nomes dos caídos em tempos de guerra.


Pringle, Brian Deane, Tahar, Paulo Madeira, Clóvis, Paulão coiçe de mula, Bruno Basto, Dean Saunders, Michael Thomas, Steve Harkness, Nandinho, Tote, Chano, Bossio, Okunowo, Gary Charles, etc, etc, etc...


A lista é interminável. Mortais esquecidos no pântano da guerrilha de anos sem dar uma para a caixa, liderados por um santo de luvas. Michel Preud'homme. Esse sim será lembrado para a eternidade do jogo da bola.


Preud'homme, ouve o que te digo. Devias jogar até aos 90 pelo menos, afinal os santos não têm idade.


Para terminar século fomos a Vigo (sim, porque o tipo que sabe de bola vai sempre com a equipa mesmo quando não sai do sofá) e levámos 7 do Celta. O fundo do poço. O nosso cerco a Saigão. Ainda bem que não se lembram. E ainda bem que não havia redes sociais. Porra, ainda bem.

Fechámos o milénio a lamber as feridas de quem acabou de levar a maior ensaboadela da história.


E agora, 20 anos volvidos, o que nos resta? Alguns cabelos brancos e uns pêlos que teimam em aparecer na ponta do nariz. E o Benfica? Não está ainda no Vietname mas os helicópteros parece que já estão prontos para aterrar novamente nos arrozais do fracasso.


Já chega, já vai chegando. Queria tanto poder dizer que os obuzes estão agora virados para a vitória que se aproxima a passos largos mas parece que ainda falta, já há anos que ainda falta.


Sim, ganhámos o tetra mas a ferida continua aberta e tarda em não fechar.


Bem, já chega. Vou vestir o fato de banho, meter a toca na cabeça e mergulhar na internet para apaziguar a mágoas de quem anda com a impressão que o jogo da bola carrega mais infortúnios do que conquistas. Pelo menos para um Benfiquista.


▶ Texto enviado pelo benfiquista João Pedro Santos.


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