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A Vizinha

- Lucas, lavaste as mãos? E os dentes?

- Sim, mãe. Contas-me uma história? Uma história mágica como aquelas que o avô contava.

- Meu amor, já é tarde. Eu sei que o mundo parece que anda ao contrário mas já passa das dez e hoje ainda tenho muitas coisas para tratar.

- Vá lá, mãe, eu gosto que me contes essas histórias porque depois sonho connosco.

- Incrível, ganhas sempre. Até ao berlinde.

- O que é o berlinde?

- Bom, esquece. Vou contar-te a história da Sara, uma menina com uns caracóis lindos, como os teus e como os do avô. Esta menina passava muito tempo sozinha porque não tinha irmãos, como tu tens, e o seu pai trabalhava muito.

- Isso deve ser bué chato, mãe.

- Sim, é muito chato. Felizmente, a Sara tinha muita imaginação e arranjava sempre brincadeiras para se entreter. E, a certa altura, o vizinho do lado começou a jogar com ela quase todas as tardes.

- Também era um menino?

- Não, nada disso, era um homem. Devia ter quase 30 anos...

- Que velho!

- Maaaaaau! Com 30 anos não somos velhos, está bem? Bom, como estava a dizer, ele era mais velho, muito simpático e com um grande sorriso tímido. O vizinho tinha um cabelo rebelde como as suas corridas em campo. Já te disse que ele era jogador? Falava assim esquisito, acho que era por isso que algumas pessoas chamavam-no de palhaço. Ou então não. O vizinho viajava muito, nem sempre brincava com a menina, mas sempre que voltava trazia-lhe uma lembrança.

A porta entreabre-se, o irmão mais velho entra no quarto para dar um beijinho ao Lucas mas ao reparar que a mãe está a contar uma história, senta-se aos pés da cama para ouvi-la.

- Eram lembranças como aquele globo de neve a dizer Princesa Sissi, aquelas bonecas que encaixam umas nas outras, aquela máscara muito colorida, o peluche da Mafalda, o gato que diz adeus, era esse tipo de coisas que temos na sala que o vizinho trazia das suas viagens. Ele passava muitas tardes a jogar com a menina e dizia-lhe que tinha muitas saudades de casa. Tu sabes o que são saudades, Lucas?

- É aquilo que temos do avô? Porque ele já não vai voltar porque foi para um sítio muito, muito longe. Mais longe do que a casa dos primos que falam estrangeiro? Não gosto de saudades, mãe.

- Ninguém gosta, Lucas. Simplesmente aprendemos a viver com isso. E não dá para pôr a um canto do prato como fazes com a couve-flor.


Lucas sorri. Mas é um sorriso meio feliz, meio triste, meio ensonado. Por vezes a vida faz-se assim de três metades, com tanto de coração como de matemática estragada.


- Depois, um dia, foi num dia de maio. Já estava muito calor e estavam a despontar uns morangos. O vizinho chegou à vedação e chamou-a. Disse-lhe que tinha uns bilhetes para a Sara e para o pai dela. Era para um jogo grande daí a duas semanas. A Sara ficou louca de felicidade. E acredita que foram os 15 dias mais longos da vida dela. Finalmente, o dia chegou. A Sara acordou bem antes das sete da manhã e atirou-se para a cama do pai. Ele estava exausto porque tinha trabalhado até tarde no hospital mas ela queria muito ir já para o estádio. Nesse dia foi o pai que fez birra e teve de ser a Sara a fazer o pequeno-almoço. Depois vestiram a melhor roupa... vermelha, claro. Ligaram ao tio e foram os três de autocarro para o estádio. Sara não se esquece do mar vermelho na subida para o estádio. Eram pessoas felizes, a cantar, a comer e alguns bebiam algo como o Champomy que tu bebes, Lucas. A menina andou às cavalitas do pai e do tio. Riu-se e cantou muito. Depois, depois entraram no estádio. Era tão grande e bonito. Os lugares eram mesmo junto à relva e até cheirava a campo. As pessoas iam chegando e enchendo os lugares, mas ela não tirava os olhos do vizinho. Ele estava junto a uma baliza a rematar umas bolas, mas com muito mais força do que fazia com ela. Até que, de repente, o estádio calou-se. A Sara tinha a certeza de que todos se calaram e o tempo parece que parou. O vizinho virou-se, olhou para ela e começou a correr na sua direção com uma camisola. Ao lado, o tio dela gritava histérico: O AIMAR, O AIMAR, O AIMAR ESTÁ A CORRER PARA NÓS!

- Estás a falar do Aimar? Tu conheces o Aimar? Estás a falar do Aimar, mãe? – perguntou o irmão do Lucas de olhos bem esbugalhados, antes de cair redondo no chão.

- Olha, o teu irmão está parvo. Caiu, nem foi falta – disse a mãe, antes de começarem todos a rir. – Sim, a vossa mãe conheceu o Aimar.

[no Dia Mundial do Livro Infantil]

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