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Não és tu, sou eu!

It’s not you, it’s me. Começo com uma confissão: já usei o «não és tu, sou eu.» Já todos o fizeram algures na vida, certo? Não? Mas deviam. Esta expressão permite-nos aligeirar um pouco o ambiente e não passar o ónus da culpa para o outro. Acreditem que a culpa nem sempre é nossa, mas também não é sempre do outro, a menos que sejam o George Costanza ou o Pedro Proença, aí a culpa é vossa.


- Gostas de futebol, não é?

- Sim, muito mesmo. Do jogo, do fenómeno, das amizades, de cinema sobre bola, de leituras…

- E viste o último jogo da seleção? É preciso azar. Azar e não sermos roubados. É que roubam sempre Portugal. É inveja do Ronaldo, só porque é melhor do que o Messi.

- Não vi. Raramente vejo. Primeiro, gosto de ver bom futebol. Segundo, gosto de ver bom futebol. Terceiro…

- Não sejas assim. Aquilo é a seleção de todos nós. Vais dizer que não festejaste a vitória no Euro?

- Pouco. Gostei de ver a felicidade de alguns dos meus amigos.

- Só isso?

- Não, no meu caso também estava contente porque a pré-época já tinha começado e ganhámos 4-0 ao Cova da Piedade no dia anterior.

- Estás a gozar. Isso é só parvo. Pois, eu gosto da seleção e acho que é o único momento em que somos bons.

- É…


Este diálogo já aconteceu mil e uma vezes, e muitas mais irá ainda acontecer. O problema é meu, eu sei que é. Tudo começou em 2000, lembro-me como se fosse ontem. O Euro 2000 foi maravilhoso. Aquela seleção tinha tudo: qualidade individual, experiência, irreverência e garra. Tinha tudo, tinha até um treinador mediano que sabia tirar o melhor dos jogadores. Toda a fase de grupos foi um sonho: vitórias épicas, golos incríveis, resultados inesperados. Valia a pena ver quase todos os jogos do Euro. OK, o Eslóvenia – Noruega não foi muito interessante.


Depois chegou o mata-mata (ainda antes de conhecermos essa expressão) e houve Portugal. Ou melhor, houve França. Houve Zidane e Henry. Não falemos da mão do Abel Xavier (juro que durante anos vi ali uma mão de Pibe). Isso não interessa. O futebol não são casos, o futebol faz-se de golos e de grandes jogadores. E a França de 1998 a 2000 foi história. Eu vi, tu viste, nós vimos história. Mesmo que ligeiramente abaixo de outras seleções históricas como o Brasil de 1970, a Holanda de 1974, Espanha de 2012.  


28 de junho de 2000: a data do fim do meu namoro com a seleção de todos vós. Deixou de fazer sentido, deixou de jogar bem. Talvez um dia volte a gostar de ver os jogos de Portugal. Talvez. Mas, por favor, até lá não me tentem convencer de que tem jogadores da nossa formação ou que o «melhor do mundo» é nosso.


A minha relação com as seleções tem vindo a degradar-se com o passar dos anos, em parte por alguns argumentos referidos por George Orwell no The Sporting Spirit. O peso do nacionalismo bacoco incomoda-me, preferirei sempre lutas que sejam supranacionais. Sinto o meu, o teu, Benfica como algo superior, como um clube que não é de uma região, um país, é bem mais do que isso. O Benfica não é só o maior de Portugal, é também maior do que Portugal. E isso me envaidece.

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