Não tapes a boca
- João Tibério
- há 3 minutos
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“Ó não, mais uma conversa sobre racismo.”“Não confundam coisas: futebol e política são distintas.”“Os insultos fazem parte, já ouvi pior.”“Não é tão mau como parece.”“Ele não sentiu o que disse.”“Será que ele disse mesmo isto?”“Ele estava a pedi-las.”“Eles estão sempre a provocar-nos, é assim há séculos.”
As frases mudam, mas esta história é antiga. E é também disto que falamos quando pensamos no que aconteceu a 17 de fevereiro, no Estádio da Luz.
A bola esteve cerca de três segundos nos pés de Vinicius Jr até bater no fundo das redes. Três segundos não são nada. Depois vieram os festejos, que pareceram uma eternidade. O tempo, sempre o tempo, a brincar connosco. E, logo a seguir, o inferno que se abateu sobre a Luz.
Bastaram algumas palavras. Escondidas. Talvez ditas em voz baixa. Talvez envergonhadas. E seguiram-se dez minutos de um procedimento obrigatório em casos de racismo (ou suspeita). O estádio reagiu como um organismo vivo. E não foi bonito. Muitos poderão não ter percebido o que se estava a passar. Outros perceberam perfeitamente: um jogador do Benfica acabara de ser acusado de racismo.
Valeram todos os truques retóricos: whataboutismo, ad hominem, falsas equivalências. Tudo serviu para normalizar o inaceitável. Atenção: o Prestianni, como qualquer pessoa acusada, tem direito à presunção de inocência. Acreditarei nisso até ao fim dos meus dias. Mas esse direito não implica desvalorizar quem acusa, muito menos transformá-lo em réu. Há um equilíbrio a ser protegido, chama-se investigação. E era isso que o Sport Lisboa e Benfica devia ter defendido desde o primeiro momento. Não o fez. Demorou horas a fazê-lo. Ou, mais precisamente, a corrigi-lo. Dir-me-ão que são apenas horas, face a séculos de racismo. E talvez tenham razão.
O que mais me dói é perceber que, mais uma vez, destapámos o que já sabíamos. O que se passa nas ruas, nos cafés, nas escolas, nos campos de treino, no supermercado, nas finanças. Em todo o lado. O racismo, incluindo o estrutural, não nasceu ontem. Vive entre nós, em expressões, gestos e silêncios.
O que custa é perceber que, por cada momento em que parecemos avançar, há outro que prova que mudámos pouco. Isto não é apenas sobre o Prestianni. É sobre as centenas de reações que se seguiram. Amigos que negam. Conhecidos que relativizam. Anónimos que amplificam.
Vimos crianças a imitar macacos. Em 2026. Vimos idosos a fazer sons de primatas (ou talvez apenas estivessem “a falar entre si”). Tudo isto aconteceu no meu estádio. Na minha segunda casa. Repito: isso dói.
E não, isto não é um problema só do Benfica. Nem de Lisboa. Nem do futebol. Nem do desporto. Nem de alguns “energúmenos”. É um problema global, transversal, antigo. Uma doença com séculos, para a qual não encontramos cura porque muitos insistem em não ir ao médico.
Voltando às frases iniciais: haverá sempre uma desculpa pronta para justificar o que se repete à nossa volta. Mas cada desculpa permite que o problema se espalhe mais um pouco. Enquanto houver uma criança a simular gestos de macaco dirigida a um jogador, não haverá Eusébio, Coluna ou Anísio que nos salve. Porque o racismo não se mede pela forma como tratamos os nossos, mas pela forma como tratamos o “outro”. E pela empatia que somos capazes de ter por uma luta que carrega séculos de violência, sofrimento e morte.
Por isso, da próxima vez, não tapes a boca. Porque, hoje, já não basta não ser racista. É preciso ser antirracista. E dizê-lo em voz alta.
Nota: imagem criada por IA

