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O silêncio da Luz

«Um amigo é aquele com que tu falas em silêncio», disse recentemente Lobo Antunes. Gosto da força dicotómica desta imagem. E gosto porque gosto dos silêncios tanto como do barulho infernal depois de um golo na Luz. Um golo do Benfica na Luz. Um golo do Benfica. Um golo.


O golo é o expoente máximo deste jogo louco (e para loucos) que todos amamos. É assim desde o primeiro dia em que se decidiu que mais do que dar toques, há que meter a bola entre dois postes, duas mochilas ou dois montes de areia. O golo é o expoente máximo. O golo é o orgasmo enquanto serviço público.


Todos crescemos com a ideia de que dificilmente existe comparação a ver a bola (e, naturalmente, celebrar um golo) num estádio na Argentina, Grécia, Turquia, ou mesmo nalguns recintos italianos, ingleses ou alemães. Mas nem sempre foi assim, falamos com saudosismo daqueles tempos remotos do velhinho Estádio da Luz mas a memória é uma coisa tramada e tende a trair-nos. O nosso estádio era imponente, era até avassalador, mas este não é muito menos. Então o que mudou na nossa casa?


Eu gosto de silêncios. Gosto do silêncio quase sepulcral de um golo do Boca em pleno estádio Monumental, do silêncio incómodo em pleno almoço depois de uma piada mais despropositada do colega da contabilidade, ou do silêncio que antecedia a corrida para a bola num penalty de Cardozo. Gosto de silêncios porque antecedem quase sempre a euforia descontrolada. Menos no caso do colega da contabilidade, diga-se. Abstenho-me de referir que existe um outro silêncio: o que vem com o presente envenenado que é o VAR, esse assassino silencioso que matou o golo no estádio, esse snipper dos orgasmos coletivos.


Então o que mudou na nossa casa para que eu goste tanto de silêncios mas sinta um profundo incómodo com o novo silêncio da Luz? É que não é um silêncio, é um ruído branco. Esse termo já existe há alguns anos e é hoje mais conhecido por quem tem filhos, ele é a solução quase perfeita para quem os quer pôr a dormir. O ruído branco é «um sinal aleatório com igual intensidade em diferentes frequências, o que lhe dá uma densidade espectral de potência constante. Com este significado e outros semelhantes, o termo é usado em muitas disciplinas científicas e técnicas, incluindo física, engenharia acústica, telecomunicações, previsão estatística e muitas outras. O ruído branco refere-se a um modelo estatístico para sinais e fontes de sinal, em vez de qualquer sinal específico.» E dizem que isto faz mesmo adormecer os bebés. É incrível! É verdadeiramente incrível em todas as camas de Portugal, mas é odioso no meu estádio.


O Estádio da Luz assemelha-se demasiadas vezes a um berço para um recém-nascido com 60 mil pessoas (todos sabemos que é raro termos o estádio verdadeiramente esgotado) a tentar adormecer o bebé. E isso é muito bonito, claro que é, mas não sei se é eficaz num jogo do campeonato ou numa eliminatória. Eu sei que as claques fazem o que podem (e não podem) para ir mantendo acordados os restantes adeptos, os nossos jogadores e as equipas visitantes, mas não haverá algo mais que possamos todos fazer?


Há, eu acredito sinceramente que há. A solução passa por gritar o jogo todo que nem uns loucos da cabeça; passa por assobiar a equipa croata como se fossemos um daqueles apitos para patos e fazê-los sentir que estão no meio duma caçada ilegal; passa pelas claques não complicarem as coisas – vamos evitar os cânticos downtempo que isto não é um concerto de trip hop − e facilitarem nas músicas; passa por perceberemos que estar na Luz é um privilégio que não está ao alcance de todos os que amam este clube; passa por todos percebermos que este estádio é construído com o mesmo material que era o anterior: Benfica.


E sexta-feira se não tiverem voz não se preocupem, mandem e-mail.



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